O português que pedalou sozinho do Ártico ao sul da América do Sul

Sempre gostou de testar o limite. Da adrenalina, da viagem, do desafio. A partir de uma certa altura, a bússola de Idílio Freire começou a apontar-lhe o sul. O sul dele era a Patagónia, Ushuaia, na Argentina - o objetivo de tantos outros. Mas este economista, atualmente com 52 anos, não se colocou a si próprio um desafio fácil: queria descer todo o continente americano.

Sentia-se em forma. Nas férias que fizera de bicicleta, quando chegava ao fim era quando devia estar a começar. Quando viu o pedido de licença sem vencimento de 14 meses aprovado, flutuou. A viagem dele começou nesse dia, nos longos corredores do Instituto Nacional de Estatística, em Lisboa. "Eu saí da sala, fui até ao fundo do corredor e estava a pairar." A preparação para a viagem foi um relâmpago. Já lera, sim, até já por lá andara - "já tinha feito um pequeno passeio na Patagónia e nessa altura percebi que os ventos eram predominantemente norte-sul, não há pior inimigo para um ciclista do que o vento. Pior do que as montanhas".

A poucos dias de embarcar comprou uma bicicleta na loja do bairro, arrumou saco-cama, tenda, roupa, cachecol do Benfica e algumas inutilidades - já lá vamos - nos alforges. A caminho do aeroporto ia comprar uma proteção para o fogão, acabou por se lembrar de algo essencial: um filtro de água. Embarcou na Portela e após quatro escalas e o coração nas mãos - "a bicicleta é uma coisa preciosa" - chegou a Inuvik, Canadá. Mal se sentou na bicicleta, foi invadido por um estado de felicidade que nunca o abandonou. "Quando um gajo se liberta disto tudo, da rotina, das preocupações, quando tens a felicidade de fazeres no dia-a -dia aquilo que verdadeiramente te apaixona e mexe com os teus sentimentos, e nervos todos, desperta outra pessoa dentro de ti. O meu dia-a-dia era uma felicidade permanente."

Partiu a 24 de julho de 2010 e chegou em setembro de 2011. Passou por 15 países - a Colômbia foi o que deixou uma marca especial - e um ciclo de estações, do verão do hemisfério norte ao verão do hemisfério sul. Viu gente, pássaros, vento, montanhas. Remendou mais de 30 furos. Faltou-lhe oxigénio a subir os Andes e percebeu que os verdadeiros super-homens são os alpinistas.

Regressou com um pijama, duas latas de atum e comida desidratada, a que nunca deu uso. Foi a reserva moral de uma viagem em solitário e em autonomia - "psicologicamente eu não queria ter zero de água, zero de comida, zero de roupa" -, em que se comoveu com um rapaz que lhe ofereceu um gelado de manga no meio da Colômbia, com o cabeludo à beira da estrada nos EUA que lhe disse: 98% das pessoas do mundo são boas.

Foi escrevendo odes à estrada, com que uniu dois polos, no blogue Bacalhau de Bicicleta com Todos. Quando voltou, foi recebido com aplausos no aeroporto e prometeu escrever um livro. Nunca aconteceu. Assunto não lhe falta. E a bicicleta, que está de pneus vazios dentro de um saco, vai voltar a andar.

"Quando vi os portões de Ushuaia senti a sensação de fim. Era o meu objetivo, eu sabia que ia chegar nesse dia, fiz um sorriso e pensei kaput."

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