O cérebro é que é o cérebro disto tudo

O cérebro é a mais complexa estrutura biológica conhecida, o objeto mais complexo do sistema solar.

"Em toda a natureza os dois maiores mistérios são a mente e o universo (...) São as fronteiras da ciência mais fascinantes e misteriosas que se conhecem."

Este é o início do livro O Futuro da Mente, de Michio Kaku, um reputado físico e divulgador de ciência.

Sempre me interessaram os livros de divulgação científica, não só pelo que me explicam sobre os grandes temas do universo, mas muito mais pelo que me inspiram, pelo que me fazem sonhar.

O meu tipo de pensamento sempre foi muito mais o da intuição, da divagação e da imaginação do que o do raciocínio, da dedução, da abstração matemática.

Na escola comecei por seguir a área de Ciências porque todos os meus amigos seguiram para Ciências e porque tinha uma enorme curiosidade em perceber a origem do universo, o que é o tempo, o que acontece depois da morte, etc.

Tentativa e erro. Não que tivesse más notas, simplesmente não era a minha vocação. Uma evidência que demorou tempo a perceber. Foi só aos 17 anos, em pleno ano propedêutico, que a minha irmã me fez a pergunta óbvia que eu não tinha feito a mim próprio: "Passas o tempo a ler e a ver filmes, a escrever e a inventar histórias e vais para Ciências?!"

A frase caiu em mim como uma epifania, tipo revelação mística com banda sonora e tudo.

Fui para Letras.

Continuei a ler e a ver os filmes que me apetecia e aconteceu muitas vezes, em vez de estar a ler os livros que tinha de ler para as disciplinas de literatura, acabar a ler livros de divulgação científica.

Um dos que mais me marcaram foi O Macaco Nu, de Desmond Morris, edição Círculo dos Leitores.

Outro foi Cosmos, de Carl Sagan, publicado pela Gradiva, numa coleção que viria a ser fundamental para mim e para toda a minha geração, a coleção Ciência Aberta, dirigida por Guilherme Valente.

Iniciada em 1982 com O Jogo dos Possíveis , de François Jacob, seguido pelo maravilhoso Um Pouco mais de Azul, de Hubert Reeves, e de muitos, muitos outros que li com mais paixão do que li muita literatura, como por exemplo Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking.

Nem sempre compreendia o que lia nesses livros, por vezes de uma especialização científica e um detalhe para os quais não estava preparado ou interessado, mas aquilo de que eles falavam inspirava a minha curiosidade e imaginação.

O cérebro sempre foi um desses temas que me fascinam. Não só o cérebro em si, mas a sua função, o cérebro como a estrutura física da mente, o centro da consciência. O cérebro, coração da consciência.

Diz Michio Kaku que, tal como a invenção do telescópio fez progredir o estudo do universo de uma forma revolucionária e espantosa, o começo da utilização de aparelhos de ressonância magnética e das neurotecnologias atuais fez que aprendêssemos mais sobre o cérebro nos últimos anos do que em todo o resto da história da humanidade.

A cada novo ano têm saído livros essenciais para percebermos um pouco mais sobre este extraordinário prodígio que cada um de nós tem dentro da sua cabeça e que faz de nós o que somos.

Como os livros de António Damásio. Quando uma vez o entrevistei para o Canal Q perguntei-lhe qual era a característica mais distintiva do cérebro humano. Respondeu-me que poderia ser a capacidade de projetar, de simular o futuro.

O que só é possível pela capacidade de abstração que a linguagem humana traz, a de falar sobre o que não está presente, a de nos tirar do momento e percecionar o tempo como um continuum.

A literatura ou o cinema sempre fantasiaram extraordinárias efabulações sobre o cérebro.

Lembro-me de uma ilustração antiga que figurava o cérebro como uma biblioteca, com as suas prateleiras esquecidas onde guardávamos os livros das nossas memórias: os cheiros, os sons, as imagens...

Recentemente, a Pixar fez Inside Out (Divertida Mente), uma obra-prima de animação que conta a história de uma menina
de 11 anos a partir dos conflitos das emoções personificadas da alegria, da tristeza, do medo, da raiva e da repulsa que convivem no quartel-geral do seu cérebro e determinam as suas decisões e a forma como as suas memórias são formadas e guardadas. E de como, dessa forma, definem a sua personalidade.

Num notável conto de 1956, A Última Pergunta, Isaac Asimov conta como uma pergunta, sempre a mesma - Como reverter a entropia, como salvar a humanidade? -, é feita ao longo do tempo a um supercomputador que vai ficando cada vez mais potente ao longo de biliões de anos e que responde sempre que não tem suficientes dados para a resposta. Até que.

A mim fascina-me essa fronteira entre o que é físico e o que é mental. Qual a existência daquilo que pensamos, sonhamos, lembramos?

A mim fascina-me essa fronteira entre o que é físico e o que é mental. Qual a existência daquilo que pensamos, sonhamos, lembramos? Como se transpõe a passagem do material para o imaterial, do corpo para a imagem, do cérebro para a ideia do cérebro?

Hoje o cérebro é comparado a um computador, um sistema de programação. Especulamos sobre a ligação do cérebro humano
a máquinas que nos permitam preservar toda a informação e o que cada um de nós é.

Em Blade Runner, filme seminal, situado no ano de 2019, as últimas palavras do androide moribundo são sobre as suas memórias, as memórias de um ser artificial com tempo de vida limitado, memórias que acabarão por se perder "como lágrimas na chuva".

É por nós, humanos, que essas palavras, como sinos, dobram

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