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Não há salários e o estádio está a cair de velho: o Estrela quer voltar a brilhar

Depois de um hiato de oito anos, a equipa da Reboleira renasceu para a competição. Por agora faz o campeonato distrital da Associação de Futebol de Lisboa, o objetivo é claro: voltar à Primeira Liga. Este domingo recebe o Belenenses num estádio a cair de velho mas com alma nova.

O nome até pode ser a estrear, mas a mística é antiga. A mística de um clube que já venceu uma Taça de Portugal. A mística de regressar ao palco de tantos sonhos: o velhinho Estádio José Gomes, que foi vendo nascer musgo e ervas entre as bancadas. No relvado, pouca relva já restava aquando do renascimento. Tudo fruto do destino que ditou a insolvência e a extinção em 2010. Mas aqueles que nunca esqueceram a glória do clube da Reboleira fizeram por ele o que se esperava.

E em 2011 renascia, embora com outro nome: o Clube de Futebol Estrela da Amadora é agora o Clube Desportivo Estrela.

Nos últimos sete anos, o histórico dedicou-se à formação. Mas era tempo de dar mais aos milhares de adeptos tricolores. E nesta época a «fénix renasceu das cinzas» diretamente para o campeonato distrital. «Quando o clube começou a cair financeiramente, criou-se o movimento Sempre Tricolores, que passava por questionar a direção sobre as reais condições financeiras», diz o presidente, Rui Silva. «Quando nos apercebemos de que o processo de insolvência ia culminar na liquidação do património, decidimos que não queríamos viver só do passado. A história não podia terminar ali. Refundámos o clube e adotámos tudo o que tinha de bom. O nome é diferente, mas o que nos interessa não é o papel. É o espírito, a memória, e prestar homenagem a todos os que fizeram o Estrela chegar onde chegou.»

Sentado na mesma bancada onde há quarenta anos começou a ver jogos com o pai, Rui Silva recorda o dia em que teve de mentir na escola para faltar às aulas. Afinal, o Estrela estava a caminho da final da Taça de Portugal (ver caixa). «Foi inesquecível. Ainda nas meias-finais, fomos a Guimarães jogar com o Vitória. A direção do clube ofereceu a viagem. Eram autocarros cheios de adeptos.

"A história não podia terminar ali. Refundámos o clube e adotámos tudo o que tinha de bom. O nome é diferente, mas o que nos interessa não é o papel. É o espírito, a memória, e prestar homenagem a todos os que fizeram o Estrela chegar onde chegou"

Inventei uma mentirinha na escola para poder faltar. Disse que tinha de fazer um exame médico (que até tinha de fazer, mas noutra data), e lá fui para Guimarães com o meu pai, que ainda hoje vem ver os jogos. Depois tivemos a final e a finalíssima no Jamor com o Farense. Fui lá duas vezes. Trouxemos o troféu e foi o momento mais fantástico que se viveu neste clube.»

Um dia de sorrisos que hoje recorda nos momentos em que tudo fica mais complicado. O estádio não pertence ao clube. E o clube não tem património. «Há chatices constantes. Mas a vontade está cá, temos a missão de consolidar a estrutura. Comprar o estádio, neste momento, está fora de hipótese, mas quem sabe um dia possamos encontrar um parceiro, ou um dos nossos atletas se tornar um Cristiano Ronaldo [risos]. Queremos recolocar o Estrela nos patamares onde estava, na Liga. Chegar lá acima, ao topo.» Afinal, este é um «Estrela que quer continuar a brilhar». E neste domingo, às 15h00, é dia de encher a casa, é dia de receber o Belenenses. «Estamos a cuidar do relvado. Queremos ter o salão onde se vai fazer o espetáculo o mais cuidado possível», diz o presidente.

Com seis vitórias em onze jogos na distrital, a equipa parte para mais uma jornada sob o leme de Ricardo Monsanto. O nervosismo de receber o primeiro classificado já se sente nos treinos que acontecem três vezes por semana, muitas vezes em campo emprestado, em Caneças - para poupar o José Gomes. O técnico - que passou pelo Torrense, Fátima e pela segunda liga irlandesa - não pensou duas vezes quando lhe foi lançado o desafio. «É um clube diferente. Há jogos em que temos mais adeptos do que na Primeira Liga. Temos 2500 pessoas por jogo. É um clube com um grande nome. Nunca tinha tido tantas pessoas a assistir a um jogo. Entrar e ver aquela claque... Só pensava, isto não é um jogo da distrital.»

No início desta aventura, Ricardo teve de lidar com a árdua tarefa de escolher os jogadores para um clube onde não há salários. Só prémios de jogo. Os treinos são à noite e a maioria dos jogadores são estudantes. Há quem trabalhe em call centers e «um deles é motorista de um membro do governo». «Entre 21 de agosto e meados de setembro recebemos cerca de 400 atletas. A nossa pré-época foi triagem de jogadores. Não treinámos a condição física ou a parte técnico-tática. Havia treinos com 120 atletas. Mas sabia que, quando fòssemos para o José Gomes, só podia levar trinta. E assim foi. Agora estamos a cinco pontos do segundo lugar, que sobe de divisão. O terceiro vai a um playoff.»

Passa das 20h00 e Ricardo aguarda ainda a chegada de alguns atletas que vêm da margem sul. Um dos jogadores do plantel chega, mas sem equipamento. Uma lesão há cerca de um mês empurrou-o para fora das quatro linhas. Ainda assim, Paulo Varela assiste a todos os treinos. Desde os 7 anos que o futebol lhe corre no sangue, ou não fosse o avançado de 25 anos irmão de Nani. Jogou em Fátima, em Sintra e neste ano, em vez de seguir para Itália, resolveu aceitar o convite do mister. «O Estrela é uma montra. É uma paixão que se ganha rapidamente. Os adeptos são incríveis, amam o clube», diz, recordando o primeiro jogo em casa com mais de três mil pessoas. «Marquei um golo e fiz uma assistência. Estava tão contente e no final falei com o meu irmão. Ele tinha visto o jogo, online, e disse-me logo "Marcaste, mas tens de pensar já no próximo jogo." Ele faz que eu mantenha os pés bem assentes na terra e dá-me imensos conselhos.»

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