Na companhia dos fantasmas

Nas convulsões sociais e simbólicas de 1968, A Semente do Diabo condensa a nova dimensão do medo: os fantasmas eram apenas uma variante dos laços familiares

Curiosa e perversa coincidência: no dia 12 de junho de 1968, a Metro Goldwyn Mayer e a Paramount Pictures colocaram nas salas dos EUA aqueles que seriam os seus principais trunfos para a temporada de verão - Amor e Corridas e A Semente do Diabo, respetivamente. O primeiro surgia como o produto certo para as férias: uma comédia musical nos cenários trepidantes das corridas NASCAR, com Elvis Presley no papel central. A realização era do veterano Norman Taurog (assinara vários títulos com a dupla Dean Martin/Jerry Lewis) e Presley tinha como companhia Nancy Sinatra, jovem cantora já consagrada e, por assim dizer, legitimada pelo dueto com o pai, Somethin" Stupid, grande sucesso do ano anterior.

A Semente do Diabo estava longe de ser uma aposta tão segura. É certo que se baseava no best-seller de Ira Levin (título original: Rosemary"s Baby) centrado numa jovem grávida (Mia Farrow) enredada nas malhas de um culto satânico que, com a cumplicidade do próprio marido (John Cassavetes), se quer apropriar do seu bebé. O realizador, o polaco Roman Polanski, era já um valor reconhecido em Hollywood, tendo assinado no ano anterior Por Favor, não Me Morda o Pescoço, uma paródia aos filmes de vampiros com bons resultados de bilheteira. Mas a rodagem tinha deixado muitas dúvidas - o produtor executivo Robert Evans foi mesmo decisivo ao opor-se à hipótese de despedimento de Polanski que o estúdio chegou a encarar.

Pois bem, Amor e Corridas foi um enorme falhanço comercial, de alguma maneira prenunciando o afastamento de Presley do cinema, ele que raras vezes se sentira realizado com os projetos que lhe foram impondo. Quanto a A Semente do Diabo, viria a ficar em oitavo lugar no top 10 dos mais rentáveis do ano (liderado por 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick).

Polanski conseguiu cristalizar esse misto de desencanto e angústia com que o espaço familiar se ia abrindo às convulsões de uma sociedade a viver, mais ou menos conscientemente, uma crescente descrença nos seus valores tradicionais. De tal modo que o valor simbólico de A Semente do Diabo o levou a ser integrado, em 2014, no arquivo nacional da Biblioteca do Congresso dos EUA.

O filme faz-nos sentir como os fantasmas não provêm de um exterior mais ou menos ameaçador, nascendo, afinal, da equívoca transparência daquilo que classificamos como "natural" ou "familiar". Na célebre cena final, não nos é mostrado o bebé de Rosemary... Em todo o caso, isso não impediu a poderosa ilusão que o próprio Polanski recorda na sua autobiografia (Roman, 1984, ed. Difel): "Muitas pessoas saíram dos cinemas convencidas de que tinham visto o bebé com pés bifurcados. De facto, apenas tinham visto, pelo espaço de um segundo, uma sobreposição subliminar dos olhos felinos que fitam Rosemary durante o seu pesadelo, na fase inicial do filme." Dito de outro modo: o cinema estava a descobrir uma nova dimensão do medo.

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