Morna, do mundo (e nossa)

Lisboa e arredores animam-se no apoio à candidatura da canção cabo-verdiana a Património Imaterial da Humanidade

Na sua casa do Restelo, Lisboa, num dia de outono já antigo, em 2005, Fernando Quejas, de 83 anos, levantou-se do sofá para mudar a cassete na aparelhagem obsoleta. A cassete calara-se numa morna. Tinha de ser!, numa morna... O que se seguiu teve daquelas tanguédias naturais, tão próprias do que é acompanhado ao violão e rabeca e nasceu num porto - no rio da Prata, em Alfama ou num arquipélago atlântico e crioulo... O velho cabo-verdiano tropeçou, bateu com a cabeça na aparelhagem muda e morreu. Fernando Quejas, filho da ilha de Santiago, trouxera a morna para Lisboa, em 1947. Com a etiqueta da Columbia Records, em 1952, ele gravou o primeiro disco de mornas em Portugal e divulgou-as, por cá, na Emissora Nacional, onde passara a trabalhar quando emigrou.

No funeral, no cemitério dos Olivais, antes da incineração, houve um choro acompanhado por cordas. Cantou Marino Silva, outro emigrado, este da ilha do Sal, e também divulgador da música cabo-verdiana em Lisboa. Ouviu-se, naturalmente (esta é uma história que flui pelas inevitabilidades da vida), Hora di Bai. Aquela que se canta quando é a hora da despedida. No nascimento são outras as mornas e outras as do namoro. E outras ainda para a circunstância de os clientes rarearem na compra de grogue, num caminho de Santo Antão, e o vendedor desocupado estender a mão ao pescoço do violão e fazer spinicá, as cordas dedilhadas com arabescos... A morna para os cabo-verdianos é conforme os momentos. E é assim pela vida fora, lá, nas ilhas, ou nas diásporas, como Lisboa.

Então, há 13 anos, Hora di Bai a Fernando Quejas, num cemitério lisboeta. Igual ao que foi visto, ouvido e filmado ainda há três meses pelo antropólogo Paulo Lima e o fotógrafo Augusto Brázio, portugueses, quando eles andaram por quase todas as dez ilhas cabo-verdianas. Uma foto de Brázio: na ilha da Boa Vista, no cemitério árido, o caixão azul aguardava, cova aberta, antes de baixar. À volta, os acompanhantes numa tocatina com a tal morna da despedida, Hora di Bai, criada por um dos pais daquele género musical, Eugénio Tavares (1867-1930)... O poeta era da Brava, moço "de tez branca", como tantas vezes eram e são os daquela ilha. Depois, viveu no Mindelo, em São Vicente, terra que seria de Bana e Cesária Évora, mas ele reconheceu sempre que o berço da morna era a Boa Vista. Ao fundo da foto, para lá dos tocadores e do caixão azul, as colinas também áridas da ilha. Quem sabe adivinha-as cobertas pela urzela, ervinha que já serviu na tinturaria como corante azul violáceo e foi uma das raras exportações de Cabo Verde.

Há dias, em conversa pública numa escola básica do bairro Padre Cruz, Lisboa, o Paulo Lima, que é alentejano, confessou que a procura da morna, na pátria dela, foi uma viagem de interesse crescente. Descobriu-a canção de todas as ilhas e tocada por tantos instrumentos... Por vezes, estes eram executados com génio, apesar das posições impróprias, o que acontecia frequentemente nos violinos. Mistérios do saber popular, idênticos às maravilhas do guitarrista cigano Django Reinhardt, que foi deus do jazz porque uma das mãos se encarquilhou no incêndio da sua rulote. O antropólogo andou pelo arquipélago, documentando-se para o dossiê da candidatura da morna a Património Imaterial da Humanidade. Lima é um reincidente, já participara com sucesso na feitura dos dossiês do fado e do cante alentejano. O dossiê já foi entregue por Cabo Verde e a UNESCO decidirá em 2019.

Entretanto, Lisboa e arredores animam-se no apoio à campanha. Ontem, sábado, na Cova da Piedade, inaugurou-se na associação Cretcheu uma exposição do pintor António Firmino, pai do rapper Boss AC e ele próprio um amante da canção nacional cabo-verdiana. Ao longo dos anos, Firmino fez várias pinturas onde glosa a figura crioula de B. Léza, considerado com Eugénio Tavares um dos dois pais fundadores da morna. Francisco Xavier da Cruz frequentava o porto da sua cidade natal, Mindelo. Os navios brasileiros iam lá abastecer-se de carvão e os marinheiros diziam dos acordes que ele arrancava ao violão: "Que beleza!" O nominho, como os crioulos dizem da alcunha, ficou: Francisco Xavier virou B. Léza. E assim assinou as suas composições tornadas célebres.

As mornas, aquelas que nasceram na Boa Vista, "doidejantes e ruidosas", eram paridas pelas cantadeiras, passadas a música pelos acontecimentos do dia-a-dia. B. Léza, filho de porto, foi uma consequência do movimento transatlântico influenciado pelo tango e as músicas brasileiras que passavam por Mindelo de barco. Ele vestia casacos de lapela larga, chapéu de malandro carioca e sapatos spectator, de dois tons, como os negros do jazz, anos 1930. Em maio de 1940, B. Léza veio na delegação musical cabo-verdiana à Exposição do Mundo Português. Com ele, Justino Cruz Évora, bom de viola e violão, de nominho Djut, pai de Cesária Évora. Esta nunca cantou com B. Léza, que morreu em 1958, mas é uma doce ironia que aquele que roubou a glória das mornas às cantadeiras da Boa Vista tenha oferecido à mais célebre das cantoras cabo-verdianas um dos seus maiores êxitos internacionais, Miss Perfumado.

A breve passagem do compositor por Lisboa acabou por ser cunhada, meio século depois, em casa de morna com tabuleta "B. Léza", num palacete belo e decrépito no Conde Barão. Ali os lisboetas prolongaram, com Tito Paris, o seu enamoramento com a morna, que se iniciara noutra casa, o Monte Cara, de Bana. Mas talvez nenhum lugar revele mais o fascínio da cidade pela morna do que um oitavo andar em rua central, vizinho do Marquês - um restaurante em prédio de escritórios. Os bancários aproveitam a sua hora do almoço, em dia de semana, para comer cachupa e dar um pé de dança, antes de voltarem às obrigações e aos empréstimos de juros baixos.

Na semana passada, homenageou-se Marino Silva, aquele que se despediu de Fernando Quejas. Cantou-se e quem quis saber mais de morna perguntava a Moacyr Rodrigues, autor do sábio estudo A Morna, sobre o papel dela na construção da identidade de Cabo Verde. Na quinta-feira, no centro histórico de Carnide, haverá uma serenata. E depois, no bairro da Horta Nova, outro concerto-almoço. E em outubro um concurso de mornas nas escolas de Carnide... É a Morna na Rua, fazendo Lisboa candidata a 11.ª ilha de Cabo Verde. Como património imaterial, claro. No outro dia, naquela escola básica de Carnide onde se palestrou sobre a candidatura na UNESCO, cantou Carla Correia, filha de uma antiga deputada portuguesa na AR e cantou Mário Piçarra, filho do tenor Luís Piçarra, o do Ser Benfiquista, hino que na Luz se canta antes de cada jogo... Morna, Lisboa - anda tudo ligado.

Cantou Sofia, estudante do conservatório, branquinha. Ou fronteiras perdidas, como o Agualusa chama às misturas lusófonas? Sofia é neta de Américo Torres de Carvalho, um lisboeta da Mouraria, herói. Nove vezes preso pela PIDE, durante a II Guerra Mundial fez trabalho clandestino para os Aliados contra os nazis. Por falar nisso, B. Léza, em 1940, escreveu a morna Abissínia, sobre a Etiópia invadida pelos fascistas italianos. Tudo ligado. Américo, o avô de Sofia, iria casar-se com Guadalupe, cabo-verdiana e irmã do poeta Ovídio Martins, preso e exilado na Holanda, outro destino da diáspora dos ilhéus crioulos. De propósito para aquela tocatina viera Vuca Pinheiro, olhos claros como tantos da Brava. Ele acabara de chegar da Nova Inglaterra, desde os baleeiros lugar da emigração cabo-verdiana para a América. Nomes evocando português passaram pelas big bands e muitos eram cabo-verdianos, como Paul Gonsalves, o lendário saxofonista de Duke Ellington.

Quando Vuca começou a dedilhar a sua viola acústica, Ernestina Andrade, da ilha do Fogo, foi docemente cativada. Viúva, de 73 anos, 14 netos e um bisneto, está em Lisboa desde 1981. Magra como são tantas filhas da seca, de pérolas e vestido garrido, Ernestina semicerrou os olhos, abraçou-se a si própria, um braço ligeiramente erguido para agarrar a mão do par ausente, o outro enlaçando o imaterial companheiro. Dançava como um mar calmo. "A separar-nos o mar/A ligar-nos também o mar", diz uma morna de B. Léza. Sôdade, como dizem tantas outras.

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