Mar de plástico

Aconteceu muitas vezes ser olhado de lado, ninguém está a salvo de um olhar reprovador, mas nunca por este motivo: uma garrafa de água. Cresci numa época em que ter uma cerveja na mão é que era, e eu cumpri bem a minha quota, mas os tempos mudaram, já se sabe.

O olhar que ela me lançou - estrangeira, linda, cosmopolita e mais uma série de lugares-comuns em que a noite de Lisboa
se tornou fértil - não foi nem de perto nem de longe um olhar sedutor, não assinalava o fato de estar a beber água às duas da
manhã de uma sexta-feira, mas sim um olhar desencantado por segurar uma garrafa de plástico. Um mar de plástico, assim nas
minhas mãos como no chão. Foi-se embora quando coloquei o recipiente num contentor de lixo indiferenciado.

«Prepara-te, é uma tendência», diz-me um amigo, perguntando- me se tinha visto aquele vídeo. Qual? «Aquele em que uma criança chama a atenção de um jogador de futebol, capitão de equipa, quando este atira uma garrafa para o chão.»

Não sei se será um caso isolado se uma questão geracional, mas, a ver pelas notícias e pelos estudos, é mesmo possível que a educação (ambiental) e, sobretudo, as preocupações com o plástico entrem definitivamente na agenda. Em dezembro ficou a saber-se que o governo vai criar um sistema de recompensa para os consumidores que devolvam garrafas de plástico usadas e não reutilizáveis; até ao início de 2022, será obrigatória a existência de equipamentos que recebam e encaminhem para a reciclagem de embalagens de plástico e outros materiais.

Também no final do ano, a companhia aérea portuguesa (Hi Fly) fez o primeiro voo sem plástico a bordo. A área do turismo parece querer dar o exemplo. A Booking garantiu que a preocupação com o plástico será mesmo uma das tendências - sim, foi esta a expressão utilizada - para 2019. E tem números: 86 por cento dos viajantes garantem estar disponíveis para diminuir a sua peugada ambiental e 37 por cento para recolher plástico das praias ou outras atrações turísticas. A «minha» turista? Ainda fui atrás dela para tentar justificar-me, mas a noite já tinha ido por água abaixo.

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