Premium Como José Saramago assistiu à chegada à Lua

Há dez anos, o Nobel da Literatura escreveu sobre como assistiu à alunagem e refletiu sobre as suas crónicas da altura: "Reli-os agora para chegar à desconsolada conclusão de que afinal nenhum grande passo para a humanidade foi dado e que o nosso futuro não está nas estrelas, mas sempre e somente na terra em que assentamos os pés."

Há quarenta anos ainda não tinha aparelho de televisão em casa. Só o comprei, pequeníssimo, cinco anos depois, em 1974, para seguir as notícias dessa outra espécie de descida na Lua que foi para nós a revolução de Abril. Recorri portanto a amigos mais adiantados em tecnologias de ponta, e assim, bebendo talvez uma cerveja e mastigando uns frutos secos, assisti à alunagem e ao desembarque. Por essas alturas andava eu escrevendo umas crónicas no recém-recuperado jornal da tarde A Capital, tempo depois reunidas num livro com o título de "Deste mundo e do outro". Dois desses textos dediquei-os a comentar a proeza dos norte-americanos num tom nem ditirâmbico nem céptico como não tardaria muito a tornar-se moda. Reli-os agora para chegar à desconsolada conclusão de que afinal nenhum grande passo para a humanidade foi dado e que o nosso futuro não está nas estrelas, mas sempre e somente na terra em que assentamos os pés. Como já dizia na primeira dessas crónicas: "Não percamos nós a terra, que ainda será a única maneira de não perdermos a lua." Na segunda crónica, a que chamei "Um salto no tempo", imaginando a terra futura como a lua é agora, comecei por escrever que "Tudo aquilo me aparecera como um simples episódio de filme de ficção científica tecnicamente primário. Os próprios movimentos dos astronautas tinham flagrante semelhança com os gestos das marionetas, como se braços e pernas fossem puxados por invisíveis fios, uns fios longuíssimos presos aos dedos dos técnicos de Houston e que, através do espaço, moviam lá em cima os gestos necessários. Tudo estava cronometrado, até o perigo se incluía no esquema. Na maior aventura da história não houve lugar para a aventura."

"Reli-os agora para chegar à desconsolada conclusão de que afinal nenhum grande passo para a humanidade foi dado e que o nosso futuro não está nas estrelas, mas sempre e somente na terra em que assentamos os pés."

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.