Fernão Mendes Pinto, o nosso Marco Polo

Dizem que o português mentiu no livro Peregrinação o suficiente para lhe mudarem o nome para Fernão, Mentes? Minto! Um trocadilho de que Marco Polo se livrou, apesar de ter sido acusado de inventar muitos dos seus relatos.

Marco Polo teve mais sorte do que Fernão Mendes Pinto ao relatar a um colega de prisão as suas viagens para lá da Europa conhecida na sua época e assim terem ficado registadas sob o nome As Viagens de Marco Polo. Desde então, a aventura de Polo até à China foi publicada e reeditada vezes sem conta em todo o mundo e mesmo que a Peregrinação também tenha tido um enorme sucesso mundial em dezenas de línguas, e à medida de Portugal, nunca atingiu a internacionalização das histórias do mercador veneziano.

Fernão Mendes Pinto não ficou esquecido, tendo-lhe sido feita em 1983 uma estátua na terra onde nasceu, Pragal (Almada), aparece cunhado numa moeda de dois euros em 2011, o seu nome voa no nariz de um avião da TAP e, principalmente, é um dos poucos protagonistas da História de Portugal a ter direito a figurar desde os anos 1940 no Padrão dos Descobrimentos, em Belém. Mas para a história nacional ficou mais o trocadilho sobre o seu nome do que a importância de um excecional relato: Fernão Mendes Pinto transformado em Fernão, Mentes? Minto!

Ambos escreveram os seus relatos em tempos de reclusão, Polo durante dois anos de prisão e Mendes Pinto na sua quinta na Caparica ao longo de nove anos, sendo que depois de terminada a Peregrinação a obra ficou 31 anos à espera da morte do autor e foi fruto da censura da Inquisição.

Não é difícil perceber o porquê deste achincalhamento, é que, tal como Marco Polo, deu a conhecer um mundo - esqueceu-se de referir a Grande Muralha na sua viagem chinesa - que era impossível aceitar na sua época. Se em 1299 o veneziano contava maravilhas de uma civilização inimaginável para os seus contemporâneos, quando em 1614 foi publicada a obra póstuma de Mendes Pinto era difícil acreditar que os navegadores portugueses tinham estado em sítios como ele confessava ter conhecido ou sabido existir.

Ambos escreveram os seus relatos em tempos de reclusão, Polo durante dois anos de prisão e Mendes Pinto na sua quinta na Caparica ao longo de nove anos, sendo que depois de terminada a Peregrinação a obra ficou 31 anos à espera da morte do autor e foi fruto da censura da Inquisição. Eram ainda viajantes unidos por duas inverdades, nem Polo fora o primeiro ocidental a entrar na China nem Mendes Pinto a fazer o mesmo no Japão, mas são as suas descrições posteriores que deram a conhecer estas partes do mundo e foram estes dois relatos que deram o primeiro grande retrato de duas terras distantes.

Viagem refeita cinco séculos depois

Peregrinação resulta da viagem de 21 anos do Mendes Pinto pelo Oriente a partir de 1537, desde a Etiópia à Ásia, em todo o tipo de transporte e perante um confronto inédito com várias visões do que era o mundo real. Uma expedição que o escritor/viajante Joaquim Magalhães de Castro refez para escrever o seu livro Na Senda de Fernão Mendes Pinto, publicado em 2013, no qual incorpora várias fotografias que permitem comparar descrições antigas com as que observou no seu périplo.

Para o autor o que mais o surpreendeu foi a "acuidade das descrições que Fernão Mendes Pinto faz das cidades chinesas de então, realidade com que ainda hoje nos podemos confrontar nos centros históricos de Suzhou, Hangzhou e Zhouzhuang".

Durante a sua expedição, Joaquim Magalhães de Castro reencontrou bastantes semelhanças com a cultura do tempo de Mendes Pinto: "Não só locais, mas também tipos de pessoas e as mais diversas tradições e bizarrias religiosas.

O mesmo se verifica com as "descrições das suas aventuras no Sudeste Asiático, nos reinos do Pegu e Arracão, nos reinos do Sião, Champa, Annam e Toquim, e nas múltiplas realidades sociopolíticas que compunham o vasto mundo malaio de então", de um modo que constitui "testemunhos fidedignos na primeira pessoa de factos historicamente comprovados".

Durante a sua expedição, Joaquim Magalhães de Castro reencontrou bastantes semelhanças com a cultura do tempo de Mendes Pinto: "Não só locais, mas também tipos de pessoas e as mais diversas tradições e bizarrias religiosas. Ele mencionava a devoção fanática de crentes que se atiravam para debaixo das rodas das carroças cerimoniais, imolando-se dessa forma aos deuses. Há festivais nessa região ainda hoje que chocam o visitante, como o de Thaipusam malaio e o Festival Vegetariano da ilha de Phuket, onde os devotos perfuram partes dos corpos com punhais, espetos, tridentes e anzóis."

Quando se lhe pergunta qual será a componente de fantasia que existe em Peregrinação, responde que "na época de Fernão Mendes Pinto não existiam guias de viagem nem viagens de recreio organizadas ou por conta própria. Quem partia ia ao desconhecido e frequentemente pagava a ousadia com a própria vida. Vivia-se então a verdadeira época das viagens e das descobertas, com tudo o que isso tem de fascinante e de horrível. Por isso mesmo 'desculpo' todas as inexatidões, exageros e até mesmo os cenários e episódios 'inventados' por Mendes Pinto com o claro objetivo de enriquecer e tornar mais atrativa e abrangente a sua narrativa. Tal não lhe tira qualquer mérito, pois o viajante de Montemor-o-Velho não foi mais ou menos 'inventor' do que os seus contemporâneos ou antecessores".

Quanto ao achincalhamento com o trocadilho "Mentes? Minto!", Magalhães de Castro considera que "é sinal de ignorância, pois no geral a Peregrinação tem mais de verdade do que de fantasia".

Acrescenta que utilizar o termo "fantasia" é desadequado porque "quanto mais se investiga sobre a obra, maior crédito se dá às descrições feitas pelo seu autor, que recriam experiências de dezenas de anos recuperadas através de uma memória prodigiosa". Para Magalhães de Castro a atuação da Inquisição no que respeita a Peregrinação não será culpada pela eternização do trocadilho: "Não creio que seja justo imputar a 'má reputação' de Mendes Pinto ao Santo Ofício, o problema somos nós, portugueses, useiros e vezeiros em tratarmos mal os nossos melhores."

Quanto à demora em publicar a obra, explica que Fernão Mendes Pinto começou a escrever a Peregrinação em 1560 e deu-a por concluída em 1580. "Entre a morte do autor, em 1583, e a edição da obra, em 1614, decorreram 31 anos, embora já em 1603, depois de passada a pente fino, houvesse licença para a sua edição. Pressupõe-se que Francisco de Andrada, cronista-mor do ainda chamado Reino de Portugal, tenha demorado dez anos a tomar o peso de cada uma das suas palavras e a castrar os parágrafos mais rudes para não ferir as suscetibilidades do monarca espanhol e dos novos inquilinos do Santo Ofício." Entre as várias razões para esta atenção a Peregrinação está, diz, o facto de "a obra do aventureiro português ser, sobretudo, um romance de crítica à sociedade do seu tempo que denuncia a hipocrisia, a falsa religiosidade e todo o tipo de atrocidades. Se calhar por essa razão ficou tanto tempo à espera de vez".

A Peregrinação é "uma obra independente, corajosa, fruto de iniciativa individual de alguém que soube escrever nas entrelinhas e não um mero relato sem muita opinião formada destinado a dar conta da situação vivida junto de uma determinada congregação ou paço real,

Quanto ao título Peregrinação, a razão de ter sido este o escolhido deve-se a "motivos religiosos". Segundo Magalhães de Castro, na segunda passagem por Goa, em novembro 1553, Fernão Mendes Pinto já tinha a ideia de um retorno definitivo a Portugal: "Nessa altura, Mendes Pinto não era mais um soldado e aventureiro, mas sim um homem religioso, irmão jesuíta durante algum tempo, fruto do contacto que tivera com Francisco Xavier, de quem se tornara amigo. Mendes Pinto teria então 40 e poucos anos e procurava através da espiritualidade redimir-se dos atos menos dignos do seu passado."

Para o autor, é importante não se esquecer quea Peregrinação é "uma obra independente, corajosa, fruto de iniciativa individual de alguém que soube escrever nas entrelinhas e não um mero relato sem muita opinião formada destinado a dar conta da situação vivida junto de uma determinada congregação ou paço real, como era o caso da maioria dos manuscritos da época". Por isso, considera que a Peregrinação "veio suprir uma lacuna na literatura de Quinhentos, e é, pela sua audácia e vivacidade descritiva, uma obra única".

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