Do vazio nasceu a cultura do movimento Okupa

Içaram pela primeira vez as suas bandeiras na Europa, durante a década de 1960, para fazer a diferença nos edifícios esquecidos das suas cidades. Da Alemanha a Portugal, passando pela Holanda, a história de um país também se conta através deles.

Quantos gritos de revolta cabem numa única cidade? Em Berlim, na Alemanha, há quem os tenha transformado num movimento cultural com morada em prédios devolutos. Ficaram popularmente conhecidos como okupas. Na Holanda, como krakers. E também existiram em Portugal, embora já pouco ou nada se ouça falar sobre o que resta deste movimento no país.

Corria o mês de abril de 2012 quando, na Rua de São Lázaro, junto às urgências do Hospital de São José, um grupo de pessoas ocupou um prédio camarário vazio. A ideia era criar ali um centro comunitário virado para a cultura da cidade. Queriam "tirar as pessoas da rua", lutar contra as regras habitacionais de Lisboa que estavam a deixar tantos sem teto, "para ensinar profissões" a estas pessoas, contava na altura uma das envolvidas.

Começaram a varrer o pó, o cimento descascado e caído com o tempo e os fragmentos de mobília que um dia fizeram a casa de alguém naquele espaço. Preparavam-no para ser agora deles. Sonhavam com projetos "culturais, sociais e educativos", workshops de pintura e carpintaria.

Mas o principal objetivo da ocupação do n.º 94 daquela rua era ser um grito de guerra pelos inúmeros imóveis que estavam esquecidos pelas entidades públicas e que poderiam ter utilidade para a comunidade. Os avisos de despejo não tardaram a chegar. Eram carta frequente na caixa de correio que não tinham. Acabariam por ter de abandonar o edifício e ali morreram os planos.

Um ano antes, no Porto, nascia na antiga escola primária do Alto da Fontinha, no Porto, o Espaço Coletivo Autogestionado (Es.Col.A), com oficinas abertas e várias outras atividades culturais. Instalaram-se no edifício camarário, desativado desde 2006, mas também eles foram obrigados a retirar-se dali.

Mais recentemente, em janeiro do ano passado, também um outro grupo de ativistas foi despejado de um prédio que tinha ocupado em Arroios. Protestavam contra a especulação imobiliária. E apesar de esta ser a motivação base destes movimentos, o que os distingue de todos os outros fenómenos que lutam pelo direito à habitação é o sentido político-cultural pelo qual se conduzem.

Esporadicamente, lá se ia noticiando o aparecimento de mais um ou outro conjunto de pessoas dispostas a exercer a mudança. Mas costumam nascer com a morte anunciada, fruto das questões legais - as mesmas contra as quais, ironicamente, lutam.

O movimento de okupas, ou squatters (como também são conhecidos), não é uma prática recente e conta a história de vários países. Nasceu na Europa por volta dos anos 1960, tendo em vista a ocupação de edifícios abandonados, onde instalam centros de resistência cultural. Não só se limitam a ocupar um vazio, mas a investir na vida que ali pode existir. Artistas, estudantes, desalojados e ativistas juntam-se para uma reforma social e cultural na zona onde vivem.

A parte esquecida de Berlim, onde tudo (re)nasceu

Se em Portugal pouco se ouviu falar destes movimentos, em Berlim ganharam tanto espaço na cultura que acabaram como peças imprescindíveis dos roteiros turísticos. Integraram o museu exterior da capital alemã, como símbolo da sua regeneração após as marcas da guerra.

Até 2012, as maiores atrações da cidade iam além da famosa East Side Gallery ou a ilha dos Museus. Entre elas estava um célebre prédio de cinco andares, o Kunsthaus Tacheles. Não era uma obra arquitetónica de renome e muito menos tinha um ar apelativo - cinzento, fora as paredes cobertas de várias camadas de graffiti, com janelas de vidros partidos (ou sem vidros de todo) e faixas penduradas no exterior com motes revolucionários. Tratava-se de um edifício há muito abandonado e, entretanto, ocupado por artistas independentes que ali fizeram nascer uma comunidade artística.

Com a queda do Muro de Berlim, no início da década de 1990, grande parte dos residentes na zona leste fizeram as malas para morar no lado ocidental. Um fluxo migratório que teve como consequência o abandono de milhares de edifícios - casas e fábricas entretanto falidas - que formaram zonas fantasma na cidade. Mas alguns destes voltaram a ganhar vida quando grupos de artistas e ativistas resolveram fazer deles o espaço onde partilhar a sua arte.

O Tacheles ficou o mais conhecido. A partir dele, surgiram bares, cinemas, palcos de teatro, salas de ensaio que assistiram ao aparecimento de algumas celebridades como o cantor australiano Nick Cave, espaços para eventos. Mais de uma centena de artistas de diversas nacionalidades - ou não fosse Berlim -conviviam diariamente no mesmo espaço, aberto 24 sobre 24 horas.

Mas após mais de mais de duas décadas de existência, este edifício emblemático fechou. O banco proprietário acabaria por falir e decidiu lucrar com a venda do prédio.

Por cada edifício abandonado que renascia em Berlim, um outro ganhava vida também em Amesterdão, capital da Holanda. Sempre que a porta ou fachada de um imóvel aparecia pintada de branco, a mensagem era clara: estava ocupado, mesmo que as condições físicas do edifício não o fizessem adivinhar. Mas, neste país, quem ocupava ficou conhecido por um nome bem diferente: krakers (proveniente do inglês crack, que significa quebrar).

Na década de 1980, estes movimentos concretizaram milhares de ocupações. Para oficinas, rádios clandestinas, livrarias, bares e até escritório de apoio jurídico. Era só dar asas à imaginação. Em Amesterdão, qualquer edifício era uma nova possibilidade - ou centenas delas.

E porque estavam ilegalmente a ocupar um espaço, toda a prevenção era pouca. Por isso, os krakers organizavam-se por rede para resistir às ações policiais, às quais escolhiam responder com armadilhas e até recurso a cocktails molotov. Em 2010, a legislação holandesa passa a contemplar o que ficou conhecido como lei antikraak, que prevê a criminalização de qualquer tipo de ocupação de edifícios devolutos.

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