A nova estrada constrói-se com muitas nacionalidades

Se é para falar de Luanda-Quibala, há que fazer Luanda-Quibala. Há oito anos era uma pista, há três anos virou um empecilho. E agora já funciona, e está a ser reconstruída por chineses e lusófonos, a estrada essencial e imprescindível.

Vou ali fazer 350 quilómetros e já volto. Vou e venho, vou inspecionar a estrada de Luanda à Quibala. Vejo os troços, falo com os donos da obra, naturalmente do Estado, pois as estradas são públicas. Falo com os empreiteiros, certamente chineses, porque foi a China que adiantou o dinheiro para aqueles troços, e mais longe, indo até Waku Kungo, a antiga Cela. Falo com os fiscais e os operários chineses e angolanos. E se quiserem tiro a carote, uma amostra do pavimento e explico-vos os resultados laboratoriais. Não vos aconselho esta viagem comigo, não tenho jeitinho nenhum para jornais técnicos.

Ou então meto-me à estrada e vou. Mas têm de me controlar. Se é para falar de Luanda-Quibala, há que fazer Luanda-Quibala. E é necessário fazer e falar dessa estrada. Há oito anos era uma pista, há três anos virou um empecilho. As empresas de transporte deixaram de passar por ela, os camiões de carga também. Calculem o que é a capital ter de ir à volta (em Angola significa centenas de quilómetros mais) para se dirigir à segunda cidade do país, Huambo.

Declara-se que a prioridade económica é diversificar, resgatar-se da dependência exclusiva do petróleo, e depois dá-se conta do corte da ligação mais direta da megalópole (Luanda, seis a sete milhões de habitantes) com as províncias agrícolas mais prometedores, Huambo e Bié... Mais importante do que a EN 120, a estrada que refiro, só a EN 100, de Luanda a Benguela. Deixem-me espreitar e contar o importante: já funciona a estrada essencial e imprescindível?

Venham, então, lá. Se já perceberam o meu método e estão interessados no assunto (podem não estar, mas olhem que Angola é-nos mesmo importante), deixem-me falar e desviar de assunto, como se faz em viagem por gosto. Partamos de Catete porque os 60 quilómetros até lá são quase urbanos, Luanda não para de crescer. Começo por chamar a atenção para embondeiros e os catos de candelabro. E alerto-vos para os sons das terras por onde passamos: Catete, Cassoneca, Maria Teresa, Zenza do Itombe, Dondo, Cambambe... É só a mim que parece o anunciar de uma equipa-maravilha de um desporto mágico?

Talvez só a mim. O meu tio Afonso veio para estas terras baixas, de plantio de algodão, tinha ele 16 anos, acabara de se despedir do seu único familiar neste hemisfério, Álvaro, seu irmão e meu pai, de 17 anos, que ficara também solitário em Luanda. Está a fazer 90 anos... Talvez, porque daqui se vira para a Muxima, a quem (é lugar e é pessoa) devo a vida. Quando a minha mãe ficou grávida, a avó Maria, avó mulata dos meus primos, fez a promessa de ir à igreja da Muxima caso tudo corresse bem. Ela era desta estrada, que vai ter ao Kwanza e a devoção por Muxima a avó Maria trazia-a de sua mãe, que a trazia de sua mãe...

Aquela santa, Nossa Senhora da Conceição, de manto azul e branco, ouve promessas desde 1645. Agora é estátua mas diz-se que por duas vezes, nessa distante época, apareceu em pessoa com aquele jeito de pairar próprio das santas. Os portugueses tinham-se refugiado na margem esquerda do Kwanza, bem dentro do sertão, fugidos dos holandeses que ocuparam Luanda. Antes de chegarem os brasileiros, Salvador Correia de Sá à cabeça, que devolveram a cidade à sua língua, os portugueses fizeram naquele mato um forte e uma igreja, ambos de paredes grossas para durar, e entronizaram a santa. Depois, voltaram à cidade.

Como as boas mangueiras que não precisam de rega nem cuidados, a Nossa Senhora da Conceição ficou na curva do rio. As gentes da Kissama, ali à volta, passaram a ir falar com ela com pedidos mais urgentes do que aqueles que reservavam aos ambaquistas, aos letrados a quem expunham as queixas às autoridades. À santa, elas pediam a volta do marido enrolado numa guerra do mato, a cura do filho que ficou sem uma perna por dentada de jacaré, uma boa colheita de ginguba. Algumas rezam de joelhos e braços abertos. Às vezes, das mãos pendem bilhetes com letra tosca. Pela santa, os crentes fazem tudo, menos chamar-lhe Nossa Senhora da Conceição. Dizem Nossa Senhora da Muxima, Mamã Muxima ou, tão-só, Muxima. É sempre bonito porque em quimbundo quer dizer coração.

Desculpem, deambulei. Já chegámos à Quibala. Tirando a entrada no Dondo, os troços voltaram a ser pista. Repararam? A povoaçãozinha que passámos há bocado tem placa na estrada com nome: "XELE", em maiúsculas. Os chineses perguntaram ao soba como se chamava a terra, ele disse e os chineses fizeram a placa. O soba preferiu não adiantar que era Xele porque antigamente havia ali um posto de gasolina Shell.

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