Da Suíça ao Alentejo: as minhas 24 horas de carro para vir em vacances

Quando era miúda, todos os agostos a rotina se repetia: carregar o carro e partir rumo a Montemor por essas estradas suíças, francesas, espanholas. O regresso a Écublens era um desafio ainda maior para meter no porta-bagagens, além das malas, essas linguiças que por vezes acabavam no lixo dos guardas fronteiriços suíços.

As malas metidas no carro, o porta-bagagens atafulhado, o termo com água fresca aos pés da minha mãe, Joaquina, no lugar da frente, um saco com comida para aguentar 24 horas e, sempre, um livro para me fazer companhia. Terminadas as aulas e chegado o mês de agosto, todos os anos era hora de deixar Écublens, nos arredores de Lausanne, e partir em direção a Montemor (o Novo!), nesse Alentejo onde me esperavam avós, tios, primos e um quintal onde tanto podia fazer "bolos" de terra como apanhar couve para dar aos pintos.

Era de véspera que "carregávamos o carro" para "a viagem". A partida fazia-se bem cedinho, ainda o Sol muitas vezes não se tinha levantado. Eu devia ter uns 6 anos na primeira vez em que entrei no Opel branco acabadinho de comprar que seria a minha casa nas muitas horas pelas estradas suíças, francesas, espanholas e, finalmente, portuguesas.

Autoestradas significavam portagens e naqueles anos 1980, numa Europa ainda sem moeda única, a minha mãe tinha de dividir os francos suíços e franceses, as pesetas e os escudos para facilitar a vida no momento do pagamento. Hoje, a ideia de numa viagem de dois mil quilómetros precisarmos de quatro moedas diferentes é impensável, mas na altura era a realidade. Mesmo se nos primeiros anos grande parte do percurso por Espanha era feito por estrada. E, passada Badajoz, era fácil perceber que já estávamos em Portugal, nem que fosse pelos buracos da estrada.

Com apenas três semanas de férias, a viagem não era para apreciar as vistas. O objetivo era chegar o mais rapidamente possível. É verdade que nos dois primeiros anos, cedendo à pressão do Costa e da Dona Maria, o casal de portugueses que, com o cão Chapeau, foram nossos companheiros de viagem durante algum tempo, até parámos para dormir umas horas no parque de campismo de Calatayud, ali entre Saragoça e Madrid, mas depressa desistimos da ideia, vista como uma perda de tempo.

Quando o Duarte, o meu irmão, tirou a carta e passou a alternar com o meu pai, Daniel, atrás do volante, parar só mesmo para meter gasolina e ir à casa de banho. E ai de quem se distraísse. Uma vez fomos encontrar a minha mãe já meio chorosa, convencida de que tínhamos seguido caminho deixando-a para trás, quando apenas tínhamos mudado o carro de sítio enquanto ela foi à casa de banho!

Para quem sempre viveu na Suíça, as vacances - bom, na verdade nunca usámos esta expressão mesmo se, por vezes, se usavam palavras em francês lá em casa, apesar de os meus pais sempre terem insistido em que a filha falasse português e cedo me tenham mandado para a escola portuguesa ao sábado, apesar dos meus protestos por juntar mais uma língua ao francês, inglês, italiano e alemão da escola suíça - eram como um recreio que passava demasiado depressa. Primeiro era a oportunidade de ver o avô Manel e a avó Maria, que viviam no rés-do-chão e tomavam conta da casa durante o ano. Mas era também tempo de visitar os tios em São Geraldo, de ir às festas da aldeia, de brincar com os primos e de umas sempre desejadas idas até à praia, Troia, a mais próxima.

Voltando às linguiças, muitas vezes escaparam ao olhar dos guardas. Algumas vezes encontraram algumas. E houve aquela noite fatídica em que as encontraram todas. Todinhas

Com tanta solicitação, depressa chegava o dia de voltar. E aí é que as coisas se tornavam um desafio para a capacidade de arrumação dos meus pais. É que às malas que tinham vindo era preciso juntar as iguarias que queríamos levar. Queijinhos alentejanos e, claro, essas linguiças que sabíamos perfeitamente não poder levar. Mas levávamos. Escondidas nalgum recanto da mala do carro, metidas no meio da roupa, bem embrulhadas em papel e dentro de sacos de plástico, lá vinham as benditas linguiças. E um ou outro chouriço das roscas também. O pior, claro, era quando chegávamos à fronteira suíça. É que fosse verão ou inverno - sim, também fiz algumas viagens destas no Natal -, estivessem 30 graus ou 15 negativos, fossem cinco da tarde ou três da manhã, parecia haver algo no nosso carro que atraía os guardas fronteiriços. E lá vinham os helvéticos perguntar se tínhamos alguma coisa a declarar. E nós a declarar umas garrafas de bebida, daquelas que podíamos levar. E eles a desconfiar. A pedir para abrirmos o porta-bagagens. Para tirarmos as malas. A remexer nas roupas. A romper um saco de grão. Sim, um dia levámos um saco de grão! E também houve uma taça de arroz-doce que chegou à Suíça sem se entornar! Mas voltando às linguiças, muitas vezes escaparam ao olhar dos guardas. Algumas vezes encontraram algumas. E houve aquela noite fatídica em que as encontraram todas. Todinhas. E iam pondo em cima da mesa... Em cima da mesa... Até nos dizerem que não as podíamos levar, atirando-as para o lixo à nossa frente, assim mesmo, cumprindo as regras, à suíço.

Claro que numa viagem deste tamanho havia sempre imprevistos. E episódios engraçados. Como no dia em que a Dona Maria decidiu servir a canja ao Costa num prato de papel. Raso. E à medida que ela deitava a sopa, esta ia escorrendo em bica, de cada lado do prato. Ou o dia em que a ventania levantou a tampa da caixa onde eles traziam as roupas para um casamento e acabámos todos a correr pela área de serviço atrás dos vestidos que se arrastavam pelo pó. Também apanhámos sustos. Como no dia em que um semáforo intermitente à entrada de Talavera de la Reina ficou vermelho quando íamos a ultrapassar e acabámos no meio das duas faixas, entalados entre os carros à nossa direita e dois camiões gigantes que vinham de frente.

Felizmente tudo correu sempre bem. Apesar dos nervos sempre que atravessávamos Madrid para não nos enganarmos e acabarmos perdidos no meio da cidade ou das travagens sem qualquer motivo aparente nas autoestradas do sul de França.

O belo do Opel não tinha ar condicionado, obrigando os seus ocupantes a escolher entre derreter lá dentro com os vidros fechados ou suportar o barulho ensurdecedor do vento se os abríssemos

Ah, e já vos disse que tudo isto era feito num carro sem ar condicionado? É verdade. O belo do Opel não tinha ar condicionado, obrigando os seus ocupantes a escolher entre derreter lá dentro com os vidros fechados ou suportar o barulho ensurdecedor do vento se os abríssemos. Só nas duas últimas viagens que fiz, já se aproximava o meado da década de 1990, é que o carro, o BMW preto que o meu pai continua a guardar religiosamente dentro da garagem, já tinha ar condicionado. E mesmo assim, uma delas foi no inverno!

De volta à nossa casa de toldo amarelo e branco cuja varanda a dar para a floresta fazia jus ao nome da rua, Chemin de la Forêt, era hora de desfazer as malas, aproveitar os petiscos trazidos do Alentejo e voltar à rotina. Por ali as férias de verão da escola só duravam seis semanas. E seria preciso esperar mais um ano para nos voltarmos a fazer à estrada. Rumo ao Alentejo. Rumo às vacances em Portugal.

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