Dá papas de pacote e às vezes gostava de desligar os filhos: confissões de uma mãe imperfeita

Carmen Garcia é uma blogger que se assume nas redes sociais como a "mãe imperfeita": dá papas industriais, às vezes gostava de desligar os filhos. As críticas chovem e não escapa às "justiceiras" da net, mas quer mostrar que a maternidade também tem um lado B. Sem fundamentalismos.

Quando o João nasceu, há quatro meses, Carmen Garcia recebeu na maternidade amostras de vários produtos. Entre as ofertas vinha um postal, com uma mãe muito sorridente e o filho recém-nascido, e que dizia: "Parabéns pelo momento mais bonito da sua vida". "Só pensei: blharg!", diz ela. "Passam a imagem de que o primeiro encontro com o bebé é maravilhoso, que a maternidade é uma experiência maravilhosa. E o outro lado, de que ninguém fala?"

Carmen é autora do livro Os 10 Mandamentos de Uma Mãe Imperfeita - e do blogue com o mesmo nome - e não tem medo de dizer que nunca gostou de estar grávida. Teve sempre gravidezes difíceis - e a própria mãe era a primeira a alertá-la: "Carmen, nem digas isso que Deus castiga", conta a enfermeira a rir-se. Com o João, segundo filho, a médica que a acompanhava chegou a propor-lhe a interrupção da gravidez por suspeita de placenta acreta. "A placenta adota o comportamento de um tumor e invade o útero e outros órgãos", explica.

Não foi capaz. "Assumi os riscos." Mesmo se o historial já não fosse famoso: com o primeiro filho, o parto demorado resultou numa cesariana de urgência e quatro costelas fraturadas para a mãe. Carmen só conseguiu ver o Pedro no dia seguinte. Um ano depois, após uma bateria de exames, a família recebeu o diagnóstico: Pedro tem surdez profunda e há grande probabilidade de ter resultado de negligência no parto."

"Achei que fazia falta alguém que mostrasse a vida real de uma mãe.

De João, soube que estava grávida a um domingo, 17 de dezembro. "Na quinta-feira anterior tínhamos recebido o diagnóstico de surdez do Pedro." A segunda gravidez em tão pouco tempo foi "um descuido", confessa esta enfermeira de 31 anos transformada em blogger que vive e trabalha em Évora. Por causa das complicações da gestação, ficou em casa, repouso absoluto desde as sete semanas. Via o mundo pelas redes sociais e não demorou muito tempo até começar a indignar-se com a perfeição virtual das famílias que por ali passavam.

"Achei que fazia falta alguém que mostrasse a vida real de uma mãe. Não digo que aquelas vidas não sejam reais, mas não são as da maioria das pessoas. Quis falar sobre isso, sobre a surdez do Pedro, mostrar a diferença." No início deste ano criou o blogue A Mãe Imperfeita, e começou a promovê-lo no Facebook. A resposta foi imediata, para o bom e para o mau: antes de o ano acabar já tem uma página com cerca de 26 mil seguidores, mas está na lista negra de muitos que lhe criticam os comentários e opções.

O problema das papas industriais

Não tem dúvidas de que, ao expor o lado B da maternidade, está a tornar-se alvo de quem aspira à perfeição. Mas desvaloriza: "Recebo críticas perfeitamente idiotas. Por causa dos problemas que tive, a cesariana do João foi programada. As críticas choveram porque há mulheres que defendem que temos de parir como na selva, quase", diz entre gargalhadas.

É mais criticada quando fala da amamentação - "se às vezes é um calvário, porque é que vamos insistir numa coisa que não está a ser benéfica para ninguém?"- e, sobretudo, quando diz que dá aos filhos papas industriais. "Dizem que não faço papas caseiras porque sou uma mãe preguiçosa. Há umas semanas fiz uma publicação sobre o tema e recebi mensagens e comentários a chamarem-me negligente. No princípio ficava muito sentida e respondia a tudo, agora só respondo às acusações que acho graves. Porque há quem use uma falsa linguagem científica, que é desmascarada facilmente."

Por ser da área da saúde, há coisas que não deixa passar, nomeadamente comentários antivacinação. "Há mães que fazem o caminho oposto ao da ciência e isso é perigoso." Quando sente que pode ser útil, é ela a primeira a tirar dúvidas, até nos grupos de mães que se formam no Facebook. Também os utiliza para a rubrica de maior sucesso no blogue: faz uma compilação das dúvidas mais estapafúrdias e responde com humor. "É terapêutico, garanto." A competição entre mães é outro assunto que não lhe escapa e que caracteriza como "doentia". "Começa-se a comparar tamanhos de barrigas ainda na gravidez, depois são percentis, depois é o concurso das habilidades. Lembram-me aqueles concursos dos cães. No outro dia, li uma mãe a pedir contacto de uma explicadora porque o filho de 4 anos não conhecia as vogais", diz indignada.

Um convite para escrever "os mandamentos"

A frontalidade e o humor com que desmonta os exageros das "mães perfeitas", os desabafos sem filtro sobre as nódoas que lhe caem na roupa antes de sair de casa de manhã ou a loucura que é ter dois filhos com idades tão próximas - "ainda tão tabu, às vezes só me apetece pedir socorro" - valeram-lhe uma comunidade de seguidoras fiéis e o convite de uma editora para escrever um livro, que chegou às bancas no passado mês de novembro. "Acho que consigo espelhar a realidade da maioria das famílias, o que não acontece com outras bloggers mais profissionais", explica. "Elas têm sempre crianças com personalidade forte; as nossas fazem birras. Os filhos delas fazem matchy-matchy, os nossos vestem-se de igual".

Custa-me acreditar que haja alguém que nunca desejou por 30 segundos que os filhos se desligassem um bocadinho. E isso não quer dizer que se goste menos deles

Assumir publicamente a imperfeição na maternidade não é para fracas, mas Carmen não tem medo das represálias. "A sociedade faz uma pressão muito grande. A maternidade é uma experiência maravilhosa, mas o outro lado também existe e desse ninguém fala." Fica estupefacta porque continua a dar polémica sempre que escreve que os filhos deviam ter um botão de desligar. Custa-lhe acreditar na "autenticidade" das mães que nunca se cansam, comenta. "Eles fazem birras, atiram os brinquedos ao ar, só querem ver aquele canal de TV. Isto cansa. Custa-me acreditar que haja alguém que nunca desejou por 30 segundos que os filhos se desligassem um bocadinho. E isso não quer dizer que se goste menos deles." No blogue, revelou também a solidão dos primeiros dias, quando chegou a casa com um filho recém-nascido nos braços. "A porta de casa fechou-se e eu tive uma vontade tão grande de chorar." Só então percebeu que não tinha sido a única, mas poucas mães até ali tinham admitido publicamente que os primeiros dias com um bebé eram muito diferentes das versões normalmente difundidas: muitos sorrisos, muita felicidade, stress nenhum. Também foi por isso que aceitou escrever Os 10 Mandamentos de Uma Mãe Imperfeita, para que outras mulheres soubessem que não estão sozinhas, que não estão a falhar. "Quando nasce uma criança também nasce uma mãe. Há uma adaptação", sublinha.

O livro é uma compilação de textos inéditos que nunca publicou no blogue. "É um livro leve, mas honesto. Traz às mulheres a sensação de que não estão sozinhas e mostra-lhes que o que estão a passar é normal."

O último capítulo é dedicado à surdez do Pedro, porque notou que ainda há muitos pais que escondem a diferença dos filhos. "Falamos muito da inclusão, mas são os pais que boicotam o conceito da inclusão quando os tentam hiperproteger. Não tenham vergonha da diferença. O meu filho é maravilhoso, as crianças autistas são maravilhosas, as que têm paralisia cerebral também." Já recebeu uma mensagem de uma mãe com um filho "com uma deficiência física importante" que ganhou coragem de sair com ele por causa da abertura com que Carmen escreve sobre a diferença no blogue. "Só por isto, começar o blogue já valeu a pena", resume.

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