Da estreia ao fim da linha: Cristiano Ronaldo ainda está aqui

Observando o seu comportamento no final dos jogos desde que começou a entrar em campo, uma coisa é óbvia: qualquer que seja o resultado, Ronaldo não concorda com ele; quer um diferente, de preferência por sua causa. Desde o início, a sua carreira foi um esforço para escalar os cumes da sua própria autoconfiança.

Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, o adolescente que queria ser o melhor do mundo, está connosco há tanto tempo que já se tornou tão difícil recordá-lo quando era novo como imaginá-lo quando for velho. Várias dinâmicas recentes contribuíram para alterar a cronologia tradicional que leva um percurso desportivo a fixar-se na memória, desde a crescente longevidade dos atletas contemporâneos às tecnologias que permitem a constante recapitulação do que costumavam ser apenas recordações. A ilusão criada é a de um perpétuo presente, no qual é possível passar tantas horas seguidas no YouTube a rever jogos de Maradona na época 1987-88 que o verdadeiro choque anacrónico ocorre quando ele aparece na televisão com o aspecto actual: um ataque cardíaco de noventa quilos entretido a fazer piretes a fotógrafos.

Na semana em que Cristiano Ronaldo fez o primeiro jogo oficial ao serviço da Juventus, circulou pela internet um vídeo de dois minutos transportando o sumário de outra efeméride: a sua estreia no futebol sénior, num Sporting-Inter de Milão em Agosto de 2002.

O Ronaldo de 2002 não é, com toda a franqueza, muito impressionante. Em parte é uma questão conjuntural (encontram-se momentos assombrosos em jogos realizados pouco tempo antes, pelas selecções jovens, ou pouco tempo depois), mas a diferença para aquilo em que veio a transformar-se é notoriamente superior à mesma diferença em casos semelhantes: vídeos de Messi, Ronaldo (o outro) ou Maradona aos 17 anos parecem profecias mais exactas do futuro.

Entrando em campo ao minuto 58, a sua melhor intervenção é a primeira: um rodopio perto da linha que ludibria dois italianos e lhe permite ganhar um metro em meio segundo. O resto é uma sucessão de fugazes entusiasmos e perdas de bola - de um velocista tão concentrado no lugar utópico aonde pretende chegar que acaba por ser desarmado pelo primeiro adversário que lhe aparece no caminho (e que é quase sempre Materazzi).

Apenas é possível saber que, qualquer que seja o resultado, Ronaldo não concorda com ele; quer um diferente, de preferência por sua causa

Mas mesmo nesse vídeo remoto, e mesmo que técnica e fisicamente pareça pertencer a um universo alternativo, Ronaldo mostra já alguma da postura entretanto familiar: a de quem joga sempre num desespero eufórico, e com uma frustração que parece revigorante e não debilitante. O jogo terminou 0-0, mas nunca é possível adivinhar o resultado pelo seu rosto ou pela urgência dos seus movimentos. Quase nunca é, mesmo hoje: apenas é possível saber que, qualquer que seja o resultado, Ronaldo não concorda com ele; quer um diferente, de preferência por sua causa.

Embora o vídeo mostre qualidades embrionárias suficientes para merecer a classificação retrospectiva (sempre cheia de dioptrias) como prova de um "talento em bruto", não permite nem de longe nem de perto extrapolar a dimensão desse talento. É significativo que muitos (talvez a maioria) dos que o viram jogar nesse início de época não lhe auguravam um futuro obviamente superior ao de, por exemplo, Ricardo Quaresma. Quem já suspeitava de algo mais era quem conhecia os bastidores e teve acesso precoce aos rudimentos daquilo que hoje é a mitologia consolidada de "CR7, Melhor do Mundo®": a vontade, a tenacidade, a "cabeça", o chegar primeiro aos treinos, o ser o último a sair, o ir ao ginásio às escondidas, o ficar acordado de madrugada no dormitório a treinar toques com pesos atados aos tornozelos. Tudo isto e as proclamações de grandeza que precederam em vários anos as câmaras de televisão e a permanente canópia de holofotes. "Quero ser o melhor do mundo", dizia. E naquela altura era uma promessa mais fácil de levar a sério para os poucos que a ouviam de perto do que para os muitos que (já) o aplaudiam ao longe. Desde o início, a sua carreira foi um esforço para escalar os cumes da sua própria autoconfiança.

Os termos não mudaram muito, e continuam a ser alavancados na mesma fulgurante tautologia: Ronaldo é o melhor do mundo porque quis ser o melhor do mundo

A propaganda, essa, há muito que deixou de ser autogerida. É hoje uma actividade profissional e transnacional, uma vasta estrutura de promoção no centro da qual se encontra Jorge Mendes, a encarnação moderna de Shiva, segurando um telemóvel em cada um dos seus quatro braços. Mas os termos não mudaram muito, e continuam a ser alavancados na mesma fulgurante tautologia: Ronaldo é o melhor do mundo porque quis ser o melhor do mundo.

É uma ambição que pertence propriamente à infância, mas à qual Ronaldo deu o cunho da adolescência. A fantasia de uma criança sobre o estrelato futebolístico seria qualquer coisa como jogar sempre no mesmo clube, e ganhar tudo o que há para ganhar na companhia dos amigos. Só na adolescência se chega à modulação seguinte, que já contempla uma certa insurgência contra a autoridade (ou contra inimigos) e uma dose de superação de dificuldades, mas no interior de um heróico envelope de solipsismo, para ser aberto por um mundo grato, receptivo e deslumbrado.

Cristiano Ronaldo, de todos os grandes jogadores, é talvez o menos espontâneo e o que menos fez da imprevisibilidade um recurso; não há nele nenhum mistério que não pareça mecânico

Como é evidente, a primeira fantasia também evoca alguém, e faz parte do fardo e do mérito de ambos que se tenha tornado impossível falar de um sem um falar do outro, como se fizessem parte de um Universo Marvel, em que protagonista e antagonista disputam um panteão de soma zero.

É um exercício inescapável: procurar o contraponto que permita a paralaxe e a visão binocular. E no caso específico do conceito de "grandeza" futebolística - a gramática implícita que organiza hierarquicamente as nossas impressões e preferências - um hábito pelo menos tão antigo como o paralelo entre Pelé e Garrincha, que procurou não tanto inventar uma rivalidade, mas um contraste: entre o "rei" perfeito, e a falível e humana "alegria do povo". E é um exercício em que Cristiano Ronaldo parte sempre em desvantagem.

Acidente divino vs. exigência

O nosso modelo cultural para génios desportivos manifesta uma predilecção não confessada pelo acidente divino. O modo como estas narrativas são articuladas privilegia as personalidades inconscientes dos seus próprios efeitos: o milagreiro que executa os seus milagres de modo quase inadvertido, o talento como uma secreção involuntária, a meio caminho entre o fenómeno místico e a pura fisiologia, o génio que não sabe explicar o seu génio.

Cristiano Ronaldo, de todos os grandes jogadores, é talvez o menos espontâneo e o que menos fez da imprevisibilidade um recurso; não há nele nenhum mistério que não pareça mecânico. E pode não saber explicar o seu valor, mas sabe certamente enunciá-lo: cada momento vem acompanhado de orquestra, pirotecnia e #hashtag: não se trata apenas da constante reiteração verbal de que tenciona ficar "entre os melhores da história"; é o facto de o transmitir em cada golo, em cada festejo, em cada preparação para bater um livre directo, e até nos seus esporádicos acessos de incredulidade, quando a realidade nas quatro linhas não se acomoda aos seus desejos.

Cada momento vem acompanhado de orquestra, pirotecnia e #hashtag: não se trata apenas da constante reiteração verbal de que tenciona ficar "entre os melhores da história"

Na nossa complicada relação com os ícones que elegemos para lugares de grandeza há uma exigência tácita e absurda: que a admiração seja paga através do tributo da inconsciência e da imaterialidade. Para lá das outras exóticas desconfianças que Ronaldo por vezes inspira - a de que, atrás dos sucessivos recordes batidos, se esconde (mal escondida) uma pura avareza estatística - há duas bastante curiosas: uma é a de que toda a mitologia de estóico profissionalismo é um subterfúgio, uma tentativa para oferecer ao privilégio genético e ao talento natural a caução da meritocracia. Outra, ainda mais estranha e complexa, é a suspeita de que a sua intenção é perpetrar um acto de vandalismo temporal, invertendo o ónus da prova e o processo correcto da formação de hierarquias. Questões de "legado" e "lugar na história" pertencem ao futuro imparcial, onde as distorções podem ser suavizadas pela distância. Até lá chegarmos, a tarefa vai sendo nossa.

Mas o seu estilo competitivo tornou-se tão indissociável da retórica de exaltação que o acompanha, que se deu este fenómeno insólito, em que um futebolista que claramente gosta de ser apreciado é visto como o portador de uma auto-suficiência tão ostensiva que não depende da aclamação transitória do público para a sustentar, subversão inaceitável de uma ordem natural do desporto que remonta tanto às suas origens amadoras como ao seu presente como produto consumido (e avaliado) por milhões. Ronaldo, por culpa própria ou defeito nosso, parece menos preocupado em ser admirado por nós do que em ser reconhecido por eles, os que ainda não nasceram, tentando moldar directamente o futuro sem a trabalheira intermédia de inventar uma máquina do tempo e resolver paradoxos. Tudo uma enorme maçada, que ele provavelmente merece ainda menos do que nós.

"Eu estou aqui"

E entretanto aproxima-se o momento inevitável em que a décalage entre o seu estatuto galáctico e a sua eficácia dentro de campo se tornará demasiado grande para ser ignorada por qualquer clube com ambições, condenando-o a um exílio dourado numa das várias Floridas disponíveis do futebol internacional (Turquia, China, golfo Pérsico ou a liga do soccer americano).

Para alguém que sempre se autodefiniu através de metas extravagantes, em que bastaria tão pouco para falhar, onde vai ser escoada essa vitalidade competitiva? "Eu estou aqui" foi a condição que passou nos últimos anos a proclamar e a concretizar; que acontece quando deixar de estar?

O talento para a reinvenção técnica, táctica e física que demonstrou ao longo da carreira - e que já o faz ir na terceira encarnação como jogador quase completamente diferente - torna todas estas especulações potencialmente risíveis de tão prematuras, mas não deixa de ser fascinante contemplar o que se segue, mesmo que depois demais uma ou outra Liga dos Campeões, e de mais uma ou outra centena de golos em Itália. Para alguém que sempre se autodefiniu através de metas extravagantes, em que bastaria tão pouco para falhar, onde vai ser escoada essa vitalidade competitiva? "Eu estou aqui" foi a condição que passou nos últimos anos a proclamar e a concretizar; que acontece quando deixar de estar?

"Viver como um rei"

A penosa e irrelevante ubiquidade do talento desvanecido é sempre inimaginável e, em qualquer caso, Ronaldo já resolveu atempadamente grande parte da burocracia associada à reforma. Estamos a falar de um homem que, além de já ter um museu, uma estátua e um documentário biográfico narrado por Benedict Cumberbatch, também cobriu meio hemisfério com o seu logótipo; é duvidoso que o futuro o veja seguir o rumo-Pelé: o sorriso ambulante promovendo tristemente a sua própria reputação, vendendo comprimidos para a disfunção eréctil na televisão japonesa ou inaugurando "projectos" da FIFA de braço dado com oligarcas.

Em Janeiro de 2016, numa entrevista ao El Mundo em que ponderou publicamente a sua vida pós-profissional falou - num característico assomo de modéstia e sentido de proporção - na intenção de "descomprimir" e "viver como um rei". Descodificada, a intenção parece remeter para dentro, e para a família alargada que já vai em quatro filhos. E eis, surpreendentemente, algo fácil de imaginar: Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, soberano de um reino doméstico, patriarca de uma confortável dinastia, com um anexo cheio de troféus que visita regularmente, mas agora 100% dedicado a uma nova gama de projectos: planear o melhor piquenique de sempre; bater o recorde do mundo do pequeno-almoço com os suplementos vitamínicos mais saborosos; organizar a melhor festa de aniversário de todos os tempos.

*Escreve de acordo com a antiga ortografia

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