Premium Com poetas antifascistas, os slogans davam nas vistas

Perseguidos pela ditadura, foi na publicidade que muitos poetas e escritores comunistas e antifascistas encontraram o ganha-pão antes do 25 de Abril. Orlando da Costa chamou-lhe poesia por encomenda. José Carlos Ary dos Santos autorretratou-se como lãzudo publicitário, poeta castrado é que não. Alexandre O'Neill criou slogans que se tornaram provérbio ou até anedota. No tempo das palavras proibidas, saber jogar com elas valia ouro.

Há mar e mar, há ir e voltar". O slogan que se fez provérbio, criado para o Instituto de Socorros a Náufragos na década de 1960 e repetido até hoje, geração após geração, é do poeta Alexandre O'Neill [1924-1986], que quis ser marinheiro mas não foi, por causa da miopia. Há quem diga que antes deste propôs outro - "Tenha um verão desafogado" -, que não foi aceite.

Anedotas não faltam em torno da carreira do poeta enquanto publicitário. Lá chegaremos. Antes conviria perceber como chegou ao mundo da publicidade um dos maiores poetas portugueses que, num assomo de modéstia em entrevista a Clara Ferreira Alves (Expresso, 1985), um ano antes de morrer, se definiu como "grande poeta menor".

Nem ele sabia, a acreditar no que disse à jornalista: "Não sei como fui lá parar mas fui. Fiz-me aprendiz de publicidade porque era uma maneira pouco trabalhosa de ganhar para o sustento. Talvez fosse essa a razão. Já lá vão 30 anos." Seria. Sobretudo para quem brincava com as palavras desde a adolescência. Aos 17 começou com a poesia e com ela se quedou até à morte. A publicidade foi só sustento. E barrigada de riso. O'Neill gostava de rir (e de fazer rir), como confessou em Autorretrato - "... ri-se do que neste soneto sobre si mesmo disse" -, e como contou a alguém um dos seus patrões, o publicitário Rui de Brito: "Era impossível levá-lo a uma reunião com um cliente. Desmanchava tudo, troçava, ria à gargalhada batendo com os pés no chão."



Antes da publicidade, o fundador do Grupo Surrealista de Lisboa militou no MUD Juvenil e trabalhou como escriturário na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio, de onde saiu em 1952 por se ter recusado a pôr luto por Óscar Carmona. Expulso da função pública e preso no ano seguinte por ter ido esperar a jornalista feminista e antifascista Maria Lamas ao aeroporto, passou a estar debaixo da vigilância da polícia política.

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