A química do beijo: água, ADN e uma cascata de hormonas

Já foi cantado, esculpido, pintado, desenhado e filmado. Mas afinal o que acontece em nós quando beijamos alguém que amamos? Que nervos à flor da pele se eriçam? Que química nos percorre as veias e as células, que sinais elétricos se apoderam do nosso cérebro?

Rodin materializou-o delicadamente na pedra, no enlace amoroso entre uma mulher e um homem nus. Klimt pintou-o com os seus inconfundíveis dourados e Toulouse Lautrec com as cores fortes da época. Walt Disney fez dele desenho animado, Hollywood repetiu-o mil vezes pelos mais míticos dos seus atores. A literatura desfiou páginas sobre ele e os poetas cantaram-no. Fernando Pessoa, por exemplo: "(...) Dá-me beijos, dá-me tantos/ Que enleado em teus encantos/ Preso nos abraços teus/Eu não sinta a própria vida/ Nem minh"alma ave perdida/ No azul amor dos teus céus (...)". E muitos outros, em muitas outras línguas. Com criatividade e imaginação, a arte soube captar a força e o enigma do beijo, esse tocar de lábios e línguas, que arrasta corpos e almas, que sela o amor - ou o cancela - para falar apenas da sua faceta erótica, talvez a mais a evidente.

Mas, cantado, esculpido, pintado, desenhado e filmado o beijo, sobram então as perguntas: afinal o que acontece em nós quando beijamos alguém que amamos? Que nervos à flor da pele se eriçam? Que química nos percorre as veias e as células, que sinais elétricos se apoderam do nosso cérebro?

Há muito que ainda não se sabe sobre o beijo, mas a ciência já tem respostas para algumas questões, mesmo se em grande parte elas ainda são provisórias. Desde logo há uma contabilidade objetiva já feita. Assim: quando os casais se beijam, não é só amor que exprimem. Em média, trocam também 9 mililitros de água, 0,7 miligramas de proteínas, 0,18 miligramas de compostos orgânicos, 0,71 miligramas de gorduras e 0,45 miligramas de sódio, para além de uns dez milhões de bactérias, umas melhores do que outras. As constipações podem transmitir-se num roçar de lábios, mas também doenças mais sérias, como a tuberculose.

Os amorosos não pensam nisso, nem lhes ocorre, porque beijar é algo que está profundamente enraizado na biologia humana, embora a forma concreta como isso acontece ainda tenha muito de misterioso. O que se sabe é que o beijo produz uma cascata de reações fisiológicas, químicas, neuroquímicas e cerebrais que em conjunto fazem dele aquilo que é. As pupilas dilatam-se - há quem sugira que é por isso que instintivamente fechamos os olhos quando beijamos -, a pulsação acelera, a respiração pode ficar irregular e, a um nível ainda mais básico, da química propriamente dita, há muitas coisas a acontecer.

quando os casais se beijam, não é só amor que exprimem. Em média, trocam também 9 mililitros de água, 0,7 miligramas de proteínas, 0,18 miligramas de compostos orgânicos, 0,71 miligramas de gorduras e 0,45 miligramas de sódio, para além de uns dez milhões de bactérias, umas melhores do que outras.

Uma delas é a alteração nos níveis de hormonas-chave nas estruturas cerebrais ligada ao processamento das emoções: a oxitocina e o cortisol. A primeira - associada ao estreitamento das relações interpessoais, desde a ligação entre mãe e bebé ao amor entre os dois membros de casal - aumenta. A segunda - que está ligada a situações de stress - diminui. Ou seja, correndo tudo bem, o beijo é anti-stress. Mas há mais. Quando duas pessoas se beijam, segundo os especialistas, há uma cascata de sinais que são enviados ao cérebro, onde se libertam então os neurotransmissores ligados ao prazer e ao bem-estar, como a dopamina.

O psicólogo experimental Gordon Gallup, da Universidade de Albany, nos EUA, que estudou os processos fisiológicos e psicológicos associados ao beijo, diz por seu lado que ele é a forma que a biologia evolutiva humana encontrou para o despiste rápido de um potencial parceiro sexual e amoroso. Segundo Gallup, "o beijo envolve uma troca complexa de informação olfativa, tátil e postural que, com base em mecanismos inconscientes", permite às pessoas perceber, mesmo que não o saibam, "se são geneticamente compatíveis".

O olfato, sobretudo, deverá ter um papel decisivo. De acordo com uma experiência do biólogo suíço Claus Wedekind, as mulheres sentem mais atração pelo cheiro de homens com uma base genética do sistema imunitário diferente da sua. Isso favorece a probabilidades de sobrevivência de um potencial filho, que nascerá equipado com um sistema imunitário de "largo espectro", conferindo-lhe mais armas para a vida. E tudo a partir de um simples beijo. Outro estudo, que mostra que mais de metade das mulheres (contra pouco mais de 40% dos homens) já mudaram de ideias, desistindo de uma relação depois de beijarem um eventual parceiro, aponta para o beijo como momento decisivo para a o casal se formar - ou não.

E que dizer do beijo não sexual? Daqueles primeiros beijos de uma mãe ao seu bebé, dos beijos que manifestam a proximidade e a amizade entre dois seres humanos? Rafael Wlodarsky, um neurocientista da Universidade de Oxford, que tem estudado o tema, acredita que esse gesto de carinho básico tão humano - entre os primatas, só os bonobos fazem também algo parecido - evoluiu como um sinal de respeito e de admiração em sociedades mais complexas. A maior certeza de todas, porém, é que ainda vai ser preciso estudar muito mais para se conseguir apreender o beijo em toda a sua complexidade.

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