Aos meus pais, ofereço tempo. E não sou o único

Os filhos crescem rápido e um dia descobrimos que são adultos e não conseguimos aproveitar bem o tempo - nunca conseguimos. Com os pais, à medida que envelhecem, passa-se o mesmo. Neste Natal, o extraordinário presente que podemos dar aos nossos pais é mesmo esse: o nosso tempo

É um clássico da época. Como o Sozinho em Casa e o Música no Coração. Natal que é Natal terá sempre filmes repetidos na televisão e presentes dos meus pais adiados até à última. A menos que eu tenha a certeza de que precisam mesmo de uma coisa específica, as compras para eles acabam por ficar quase sempre para o fim. E todos os anos digo que no ano seguinte não será assim. Lenços, cachecóis, boinas, livros, camisolas, camisas, garrafas, carteiras, fins de semana, bilhetes para o teatro. O que se dá a dois octogenários como símbolo da época e sinal de carinho e amor quando já não temos mais ideias de presentes? Que coelho tiramos da cartola - ou do saco do Pai Natal que vou levar aos ombros quando me mascarar para tentar iludir as minhas filhas novamente - para surpreender duas pessoas que passam o mês de dezembro a dizer para não gastarmos dinheiro com eles, que devemos é usá-lo no que mais precisamos, que o melhor presente é estarmos juntos?

Será neste ano que compro um telemóvel para o meu pai, para ele finalmente deixar de usar o velho Samsung de concha com os números de telefone dos filhos colados com fita-cola na tampa? Mas ele está tão habituado àquele aparelho jurássico que passa a vida a dizer que é melhor do que o smartphone da minha mãe, que tem funcionalidades de que ela não tira partido. E para a minha mãe? Um casaco quente, porque a ouvi há dias a dizer que estava a precisar de um? Ou mais um livro de receitas?

Estou há um par de horas com este dilema, enquanto vou deslizando os dedos no ecrã do meu telemóvel. Tenho tempo com fartura. São 16h35 de uma tarde de segunda-feira e não está ninguém aqui comigo na sala de espera junto ao acesso ao Internamento Geral e ao Laboratório de Técnicas Invasivas do Serviço de Cardiologia 1 do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. As outras 12 cadeiras azuis encostadas às paredes estão vazias. Há uns bons minutos que os elevadores 20 e 21 não trazem ninguém para o oitavo piso. De vez em quando algum enfermeiro ou auxiliar passam apressados lá para dentro ou saem cá para fora, enquanto se espantam por ver ali alguém a esta hora.

O secretariado do serviço fechou às 16h00 e sei que pelo menos até às 20h00 posso estar aqui. Lá dentro, para lá das portas amarelas com avisos que proíbem "a entrada a pessoas estranhas ao serviço", que recomendam que se toque à campainha "apenas se não estiver ninguém no secretariado" e que pedem para se manter "a porta fechada", há doentes internados ou à espera para realizar exames.

O meu pai veio fazer um cateterismo. Se tudo correr bem terá alta hoje. Se alguma coisa se complicar passa cá a noite. Entrou à hora de almoço, acompanhado pela minha mãe (que entretanto teve de ir embora porque tinha uma consulta), e não tenho estimativa nenhuma sobre o tempo que falta para o ver. Por isso só posso esperar.

Nos últimos anos entrei várias vezes neste hospital gigantesco - para entrevistas, para episódios de urgência, para consultas, para exames, para dar sangue. Mas hoje, enquanto espero pelo meu pai, sozinho, numa sala vazia, a pensar em presentes para ele e para a minha mãe, lembro-me do Natal de 1998 que ele passou aqui. É um estranho déjà-vu, este. Passam amanhã precisamente vinte anos que o meu pai foi operado ao coração para colocar uma válvula artificial na aorta - a mesma que obriga a medicação permanente e exames regulares. Há vinte anos, com o meu pai internado e longe da família, o nosso Natal teve um sabor diferente. Ele não estava.

A memória daquela estranha noite de 24 de dezembro vem-me à cabeça enquanto penso na quantidade de tempo que passo com os meus pais em sítios como este: salas de espera de hospitais, consultórios e laboratórios, viagens de carro ou de táxi para consultas ou exames. Na azáfama do dia-a-dia, do emprego, dos prazos, dos e-mails que têm de ser respondidos na hora, das corridas entre casa e a escola das miúdas e o trabalho, dos fins de semana passados em frente ao computador, de tudo o que é urgente e importante e para ontem... no rolo compressor que são as nossas vidas aceleradas, dou por mim a pensar que o tempo que tenho passado com os meus pais tem quase sempre um pretexto logístico ligado à saúde. Claro que também temos os jantares em casa deles, na nossa ou na das minhas irmãs, temos férias juntos na aldeia e temos aniversários da família, mas a verdade é que, para conversas só com o meu pai ou só com a minha mãe, aproveitamos melhor o tempo nas salas de espera do que o tempo de lazer. Não é bom nem é mau. É assim a nossa dinâmica. Eu é que nunca tinha pensado nisso.

E não sou caso único, tenho a certeza. Alguns amigos falam-me do mesmo, dos longos e enriquecedores minutos que passam com os pais que estão a envelhecer, a caminho de análises ou consultas. Por esse país adentro, por esse mundo fora, há milhões de filhos que passam milhares de milhões de horas com médicos ou à espera deles. Este enternecedor relato de uma médica britânica é um bom exemplo disso.

Hoje almocei com a minha mãe num dos snack-bars de Santa Maria. Falou-me da placa nos dentes que a está a magoar e do quanto lhe custa mastigar. Falou do sapato que a incomoda no calcanhar. E disse que este ar seco e quente dos ares condicionados lhe causa desconforto nos olhos. Eu não sabia disso. Suponho que... porque nunca lhe perguntei. Ou porque não tenho passado tempo suficiente com ela para saber coisas destas, as do dia-a-dia. O que almoçaram, onde vão agora, que consulta tem amanhã, para que serve este comprimido amarelo...

Mas tive direito a mais. À sobremesa falou-me do meu avô. Disse-me que, quando esteve internado neste mesmo serviço de Cardiologia, há mais de trinta anos, esteve desaparecido durante seis horas. As enfermeiras deram com ele de madrugada, num gabinete qualquer onde se enfiou, de pijama, encolhido de frio. Eu também não sabia disto.

Já passa das 20h00 quando o meu pai finalmente aparece à porta. Vem de pijama e pantufas, a rir-se como um miúdo. "O médico diz que eu tenho veias de um cachopo de 30 anos." Eu dou-lhe um beijo, digo que temos já de dar a notícia à mãe e às manas e pergunto-lhe se quer ajuda para vestir a roupa que ficou comigo. Ele só quer é despachar-se para ir para casa.

Enquanto o meu pai se vai vestir - é orgulhoso, faz questão de o fazer sozinho, só pedirá ajuda quando não houver alternativa - ligo novamente o telemóvel e o ecrã devolve-me a página de boinas de xadrez que eu estava a ver antes. Não, acho que ele não precisa de mais boinas. Se calhar, o melhor presente de Natal que posso dar, a ele e à minha mãe, é mesmo este: tempo. Tempo de qualidade. Tempo atento, sem ter de olhar para o telemóvel. Tempo para eles. Tempo com eles. E tempo sem cheiro a desinfetante hospitalar.

"Anda, pai, vamos para casa."

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