Como Trump e Putin estão a mudar a Europa

Está tudo numa frase do Twitter: "Viva Trump, viva Putin, viva la Le Pen e viva la Lega!" A descrição do italiano Matteo Salvini tem a virtude de não precisar de tradução. Estes "vivas" resumem os dias que correm na União Europeia

Paulo Pena
Steve Bannon

Esta é uma novidade. Pela primeira vez, as duas maiores potências militares mundiais parecem agir concertadamente na Europa. A estratégia é clara: apoiar, financeira e politicamente, os partidos nacionalistas, que contestam a fragilizada "eurocracia". Os temas sentem-se à flor da pele e dão votos, um pouco por todo o lado. A pressão migratória, a identidade religiosa, o combate ao islamismo, a promessa de que com fronteiras fechadas a economia melhora, a quimera de uma "liderança forte". Muitos dos partidos que se reclamam deste ideário já conquistaram o poder, em vários países europeus, como a Itália, a Áustria, a Polónia, a Hungria, a República Checa, a Eslováquia. Outros estão a tentar, como Marine Le Pen, em França, Geert Wilders, na Holanda, Nigel Farage, na Inglaterra, ou a AfD, na Alemanha.

E, desde a semana passada, há uma internacional-nacionalista em formação. Chama-se O Movimento e tem como porta-voz informal Steve Bannon, um norte-americano que ajudou a criar Donald Trump."Tudo o que estou a tentar ser", afirmou em Itália ao The New York Times, "é a infra-estrutura do movimento populista global".

Em França, ao lado de Marine Le Pen, Bannon foi mais longe: "Deixem que vos chamem racistas. Deixem que vos chamem xenófobos. Usem isso como uma condecoração." Nesse momento em que apoiava publicamente a extrema-direita francesa, Bannon sabia que o partido recebera nove milhões de euros de empréstimo do First Cezch-Russian Bank, depois de contactos políticos com o Kremlin. Bannon sabia também que, em Itália, ou na Áustria, ou na Hungria, os seus companheiros políticos elogiam Putin e recebem o seu apoio. Em constante viagem entre capitais europeias, o antigo estratega-mor de Donald Trump, tem uma imagem do futuro da Europa em mente. "A história está do nosso lado."

Mas a história, a verdadeira, sobre o que passou, não guarda nenhum momento em que Washington e Moscovo tenham como preferência política comum o nacionalismo europeu. Pelo contrário: da última vez que convergiram, sobre a Europa, foi para combater o racismo e a xenofobia na segunda guerra mundial. Depois voltaram a divergir durante as décadas da guerra fria. Até agora.

Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, falou com o DN sobre esta mudança. Se está "preocupado" com o crescimento dos partidos nacionalistas europeus (ver texto no primeiro caderno), mostra-se quase sarcástico a comentar a estratégia comum de Trump e Putin. "Quanto a haver uma convergência, ambos negam. Quem sou eu para a afirmar?" Mas não deixa de avaliar o que a Casa Branca e o Kremlin mostram querer para a Europa. O apoio dos EUA à construção da União Europeia, que era até agora claro, parece ter mudado, diz. "Manifestamente, com esta administração, essa não é essa prioridade." Santos Silva também não vê "nenhum interesse estratégico russo para a construção europeia".

Por estes dias, Trump e Putin convidam-se, mutuamente, para encontros nas respetivas capitais - depois de terem tido uma reunião em Helsínquia - e decorrem investigações judiciais nos EUA para determinar se houve interferência russa na eleição presidencial americana.

Em quase todos os países europeus (Portugal é uma das exceções) há notícias sobre o envolvimento de uns e outros, ou dos dois, em eleições locais. Do referendo da Catalunha ao do Brexit, das eleições na Alemanha às da Holanda. Os principais apoiantes do nacionalismo europeu dominam a estranha máquina de convencimento em que se transformou a internet.

Os principais apoiantes do nacionalismo europeu dominam a estranha máquina de convencimento em que se transformou a internet

A Cambridge Analytica, que teve acesso aos dados de 87 milhões de utilizadores do Facebook, e trabalhou nas campanhas de Trump e pelo Brexit, foi criada por um dos principais financiadores políticos do presidente americano. Robert Mercer é também um mecenas da intrincada rede de "notícias falsas" que ajudam - apenas pela repetição de mentiras - a formar opinião entre os eleitores. A Europa é um destino privilegiado dessas campanhas, basta ver sites como o Gatestone Institute, de que a família Mercer é dona. Ali podemos ler mentiras escritas como verdades: Londres é uma colónia islâmica, os refugiados estão a espalhar doenças, ou fazem violações em massa.

Mercer foi um dos principais financiadores do jornal que Steve Bannon dirigiu, Breitbart. O director do Gatestone Institute foi John Bolton, até ser nomeado por Trump para seu conselheiro de segurança nacional.

A Rússia tornou-se especialista nessa batalha política online. Recentemente, a Comissão Europeia identificou 3500 casos de "fake news" difundidas da Rússia para a UE, em várias línguas. O comissário para a segurança, Julian King, afirmou no Parlamento Europeu que "parece haver, francamente, poucas dúvidas de que a campanha de desinformação pró-Kremlin é uma estratégia orquestrada".

Há vários anos que Bernardo Pires de Lima estuda a política europeia da Rússia. No seu livro Putinlândia (ed. Tinta da China) adverte: "Putin está a construir um império de influência na Europa. Não precisa de ocupar territórios inteiros - basta apoiar bolsas separatistas."

Ao DN, o investigador de política internacional vê uma semelhança na ação dos presidentes russo e americano, sobre a Europa: "O desenlace pretendido pelos dois círculos de poder é o mesmo." Entalada entre duas potências nucleares, que têm um discurso errático (Trump) ou hostil (Putin), "o problema europeu é saber como lidar com isto sem desagregar". "É um momento singular."

Porém, para Pires de Lima, "é prematuro olhar para Trump e Putin como dois pratos da mesma balança". Há, na sua opinião, uma diferença fundamental. O "clã que gravita à volta de Putin" tem uma influência decisiva na política do Kremlin. Em Washington "não é claro que o círculo de poder que esteve na origem de Trump tenha a mesma capacidade organizadora".

"É prematuro olhar para Trump e Putin como dois pratos da mesma balança"

Há, no entanto, garante Pires de Lima, uma vantagem que os partidos nacionalistas na Europa aprenderam a retirar. "Hoje em dia é vantajoso em muitos debates europeus que se anuncie a proximidade com Putin. É um trunfo eleitoral." Seja nos países de Leste, onde essa identificação é histórica, seja no Ocidente em que a figura "forte" de Putin - o líder que dá murros na mesa e mostra "fibra" - cativa insuspeitos democratas.

Em países como a Alemanha, a Áustria ou a Itália há coligações de governo em que ministros importantes já foram ao Kremlin saudar Putin. Alguns, como o ministro Horst Seehofer, da CSU, lideram partidos conservadores tradicionais. Esse é um risco. "Os partidos conservadores estão a enveredar pelo facilitismo", critica Bernardo Pires de Lima.

Seja por se coligarem com os nacionalistas, seja por terem nas suas fileiras o "herói" de Steve Bannon. Esse é Viktor Orbán, o húngaro que está a construir uma versão muito diferente daquilo a que chamamos democracia. Em Budapeste, tanto Trump como Putin são vistos como aliados.

Mas não é só entre os conservadores que o problema se põe. Na Eslováquia e na Roménia, os social-democratas também fazem parte desta rede de influência eurocéptica.

E mesmo na Polónia, onde a Rússia não cativa o partido nacionalista Lei e Justiça, a "história" a que se referia Steve Bannon parece estar a ser escrita do mesmo modo. Trump escolheu Varsóvia para a sua primeira visita à Europa. E o governo local - apesar das suspeitas, nunca confirmadas, que mantém sobre a ação de Moscovo na morte do ex-presidente Lech Kaczyński - defende o fim das sanções europeias à Rússia.

Que Trump, ou Putin, possam querer uma Europa com fronteiras nacionais, governos autoritários, liberdades reduzidas, identidade à flor da pele, tudo isso dependerá sempre de um detalhe importante: a valorização que os europeus façam do que têm a perder, ou a ganhar, com isso. Se Bannon tiver razão sobre o sentido da história, a mudança que já se vê será maior no futuro.