O jovem sírio que se reviu em Cavani ajudado por Ronaldo

Vive em Évora, depois de ter fugido à guerra na Síria natal. Agarrou uma bolsa da plataforma de Jorge Sampaio para formar líderes e agora quer recompensar Portugal pelo que lhe deu. Cristiano Ronaldo é um modelo.

Miguel Marujo
Nour Machlah

Nour Machlah olhou para a televisão e viu algo diferente do que muitos viram: Cristiano Ronaldo, que é um modelo para si, acompanhava o seu adversário lesionado enquanto este abandonava o campo. Aos olhos deste jovem sírio, 27 anos, natural de Alepo, estudante finalista de Arquitetura em Évora, naquela imagem viu a sua própria história ao espelho, quando veio para Portugal, em 2014: um país que vivia em condições económicas muito difíceis e que acolhia sem pestanejar dezenas de estudantes sírios para poderem completar os seus estudos.


A iniciativa partiu do antigo presidente da República Jorge Sampaio, que promoveu a Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios, organização não-governamental que reconhece a importância da educação superior em situações de emergência e ajuda a formar líderes e quadros qualificados em países que terão de reconstruir-se após situações de guerra.


Nour é um desses jovens líderes em construção - e hoje tem os olhos postos no futuro. Membro do Migrant Advisory Board da Comissão Europeia, um conselho consultivo para a migração, o jovem sírio quer ajudar ao processo de integração de refugiados e migrantes na Europa. No próximo mês, conta ao DN, vai começar a ajudar neste processo a nível nacional, com o Governo português.

A integração de refugiados e migrantes é crucial, argumenta, porque quando um destes "vive bem integrado, isto reflete-se de forma positiva" nas comunidades em que está inserido. "Uma das coisas que quero verdadeiramente fazer é recompensar a comunidade portuguesa e o país pelo que me deram", insiste.


A guerra no seu país levou-o a deixar para trás o segundo ano da universidade, a cidade de Alepo e família e amigos. "Não sabíamos o que era viver em guerra. Sempre tínhamos visto refugiados da Palestina, do Iraque, até do Líbano, mas nunca tínhamos experimentado isto. Foi muito duro ver os bombardeamentos, tanques, pessoas a morrerem à tua volta. Isto é estranho, mas não sinto que aquela seja mais a minha casa." A explicação é desarmante: "Comecei a perder tudo, e não se trata de bens e dinheiro, mas pessoas, amigos meus que morreram, professores, vizinhos, até familiares. É muito duro ver isto a acontecer."

"Não preciso de papeis, já me sinto português


Deixou Alepo em 2011, viveu em Beirute, a capital do Líbano, e depois na Turquia, onde tentou fintar o destino pedindo visto para o Reino Unido, onde vive há cerca de dez anos o seu pai, doente com cancro e sem possibilidade de se deslocar. Insistiu junto das autoridades britânicas, mas recusaram-lhe essa possibilidade. Mesmo hoje, a viver e a estudar num país europeu, os britânicos recusam-se a dar-lhe um visto para visitar o pai. "Disseram-me que não têm provas que eu depois deixe Inglaterra." Numa das respostas escreveram que não era garantido que Nour regressasse a "Itália". "Eu vivo em Portugal, nem abriram o meu pedido."


O visto chegou-lhe através da bolsa proporcionada pela plataforma de Sampaio, na qual tropeçou quando estava na Turquia. Não olhou para trás. Candidatou-se e agora vive em Évora, na companhia da mãe, que se lhe juntou depois de uma visita em 2016.


Quando se desloca a Bruxelas ou a Estrasburgo para reuniões diz que tem "orgulho" em dizer que vem de Portugal. "É o país que me recebeu, que me integrou bem." No próximo ano, com cinco anos em território nacional, vai meter os papéis para adquirir a nacionalidade. "Vai ser importante para mim. Ser português será uma grande coisa na minha vida", aponta. "Não preciso de papéis para ser português, já me sinto português" - mesmo que peça ao jornalista para falar em inglês, língua em que ainda se sente mais à vontade. "Estou bem em Portugal."


Daí o seu amor também à seleção e a CR7. "Portugal perdeu o jogo, mas ganhou algo maior no meu coração", insiste. "Senti-me Cavani. Sei que vai perder mas não me importo de o ajudar. Como me lembro da situação em Portugal, dos tempos difíceis e de como me acolheram." E remata: "Eu vi-me nesta imagem."