Lawrence da Arábia: o deserto é uma coisa interior

Na representação do deserto e da sua grandeza, não há filme como "Lawrence da Arábia". Mais de meio século depois, a sua herança, tanto espetacular como política, envolve uma perturbante atualidade.

João Lopes
"Lawrence da Arábia", o filme, com Peter O"Toole, Alec Guinness, Jack Hawkins, Anthony Quinn, Omar Sharif, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy. A realização é de David Lean, a produção de Sam Spiegel, com argumento de Robert Bolt e Michael Wilson. | foto Direitos Reservados
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Faça-se um inquérito a jovens que vivam todos os dias empolgados pelos fenómenos "sociais" que, pelo menos uma vez por minuto, os vão convocando, acionando um bip nos seus telemóveis. Peça-se-lhes que identifiquem uma personagem épica que conheçam através do cinema. Quantos irão citar o coronel, arqueólogo e escritor britânico T.E. Lawrence (1888-1935)?Quantos dirão que sabem da sua existência através de Lawrence da Arábia, o filme que David Lean lhe dedicou em 1962, com Peter O'Toole no papel central?

Admito que possamos ser surpreendidos. E que haja muitos jovens que (ainda) não tenham sido intelectualmente afogados pela noção segundo a qual, para além do mais recente blockbuster cujos cartazes apoquentam as ruas das nossas cidades, a memória não é um vício nostálgico nem um luxo pretensioso, antes uma forma de entendimento e enriquecimento do nosso presente.

Convenhamos que o panorama global é terrível: para além da promoção de alguns jogadores de futebol a santos de uma religião planetária, a nossa miséria cultural pode medir-se através do metódico esvaziamento da noção de epopeia cinematográfica. Perante a nossa bonomia, não poucas vezes tingida de estúpido paternalismo, permitimos que as gerações mais jovens sejam ensinadas a confundir a pulsão épica do cinema (e não só) com a acumulação gratuita de efeitos especiais. Isto em paralelo com um cego liberalismo que nos tornou indiferentes ao triunfo quotidiano dos horrores da reality TV e seus derivados.

Como é possível que o talento de atores como Robert Downey Jr. seja banalizado (aliás, em boa verdade, ocultado) através da sua encarnação de figuras metalizadas, geradas por mecanismos digitais, como o Homem de Ferro? O nome dele aparece nas fichas dos filmes, mas o que vemos não passa de um fantasma virtual, uma marioneta sem alma que, para além da sofisticação da sua fabricação, nada deve à nobre arte de representar.

Bem sabemos que o artifício e as manipulações técnicas estão ligadas a muitas maravilhas da história do cinema. Não nos esquecemos de Georges Méliès (1861-1938), contemplamos com renovado fascínio o seu foguetão a aterrar no rosto acolhedor da Lua e deslumbramo-nos com as ilusões que ele soube criar há mais de um século, quando o cinema era ainda um sonho hesitante entre a fragilidade efémera da atração de feira e a glória de ser a forma mais universal de arte popular (que foi, de facto, durante o século XX).

Nada disso tem que ver com a contemplação beata dos feitos tecnológicos. Da angústia ao riso, o cinema foi - e continua a ser - uma linguagem capaz de celebrar as convulsões e contrastes da nossa muito humana condição. André Bazin (1918-1958), mestre do pensamento crítico, terno guru dos cineastas da Nova Vaga francesa, disse-o através de uma frase esplendorosa que continua a seduzir-nos como um enigma que importa, talvez, não tentar decifrar em absoluto: "O cinema substitui os nossos olhares por um mundo que se adequa aos nossos desejos."

Os nossos jovens poderão até conhecer o filme Lawrence da Arábia através do ecrã mágico do seu computador. Porque não? Contornemos a facilidade do cinismo: como Walter Benjamin nos avisou, sabemos que vivemos assombrados pela "reprodutibilidade técnica" das obras de arte; encararemos tal estado de coisas com euforia ou ceticismo, mas se não pudermos ir a Londres ver os quadros de Francis Bacon na Tate, isso não será uma boa razão para menosprezarmos as virtudes de um competente álbum de reproduções.

Acontece que Lean foi um cineasta da grandiosidade do ecrã. Grandiosidade física, antes do mais, por certo indissociável da sua grandeza mitológica. É verdade que Lawrence da Arábia pode "caber" no retângulo luminoso do nosso computador. Ou até, suprema insolência, no visor do nosso telemóvel. Mas importa perceber que se trata de um filme, não exatamente feito "contra" a atual proliferação de ecrãs, mas num contexto em que tal proliferação não existia, a não ser, talvez, como delírio de ficção científica.

Cada grão de areia do deserto de Lawrence da Arábia não é um píxel que um génio imberbe de Silicon Valley tenha associado a outro píxel, a outro e mais outro... revendo-se na performance impessoal dos seus maravilhosos gigabytes. Década após década, o filme preserva, porventura ampliando, uma visceral verdade física. Daí que o deserto não seja um cenário de fundo, muito menos uma decoração pitoresca para enquadrar as atribulações dos incautos humanos. Podemos mesmo arriscar dizer que o deserto é uma presença íntima, coisa absolutamente interior na epopeia de Lawrence. Daí também a sensação insubstituível de que houve gente humana, porventura demasiado humana, que protagonizou e registou aquelas imagens desejadas e pensadas para os maiores ecrãs do mundo.

Essa intimidade, de uma só vez secreta e sensorial, não pode ser separada da sua origem literária: Lawrence da Arábia baseia-se no livro de T. E. Lawrence Os Sete Pilares da Sabedoria (cuja primeira edição tem data de 1922). Estamos perante um desses clássicos capazes de nos confrontar com as infinitas tensões entre as vivências individuais e as convulsões coletivas, ziguezagueando entre a sedução das abstrações políticas e o misto de pragmatismo e crueza que os gestos políticos tendem a refletir.

Lawrence foi uma figura fundamental durante a Grande Guerra de 1914-18, emergindo como líder do envolvimento militar britânico com a revolta árabe contra a Turquia, aliada da Alemanha. A sua liderança trouxe-lhe uma dimensão simbólica de "arabização" de que as suas vestes do deserto constituem apenas os sinais mais óbvios: através da reconfiguração física e psicológica da sua identidade, Lawrence viveu um trágico processo de "ser ou não ser" que confere à sua epopeia um valor universal, profundamente atual.

Neste filme o deserto não é um cenário, é uma presença íntima.

Enredado nas contradições internas do mundo árabe, por vezes pontuadas por inusitadas formas de violência, mas também marcado pelas ambivalências hipócritas das diretrizes políticas do seu próprio país (e da Europa, hélas!), Lawrence é um homem rasgado pela fúria labiríntica da história. Por um lado, os seus esforços para viver e vestir-se "como os árabes" conduziram-no ao distanciamento do seu "ser inglês"; por outro lado, a sua descoberta do(s) outro(s) envolveu um drama prático e filosófico cujo desespero ele condensa nas palavras de abertura do capítulo II do seu livro: "A primeira dificuldade do movimento árabe era dizer quem eram os árabes."

Mais de meio século depois, o filme de David Lean continua a acompanhar-nos como um dedicado conselheiro existencial, não merecendo a acusação de Bosley Crowther, crítico do The New York Times, que em dezembro de 1962 o considerou "tão despido de humanidade como as areias secas do deserto que retrata". No ano seguinte, em Cannes, Crowther cruzou-se com Lean, dirigindo-lhe um caloroso cumprimento: "Nem penses, Bosley", foi a resposta. Digamos, para simplificar, que é preciso de tudo para tentarmos ser dignos da complexidade dos grandes filmes, incluindo prestar alguma atenção aos movimentos imponderáveis das areias.