Das cassetes piratas a braçadeiras vendidas numa curva da praia

Há 42 anos, Luís montou a barraca pela primeira vez na Fonte da Telha. Há 25 anos que Elvira lhe faz companhia. Passam ali três meses e podem nem sequer pôr os pés na areia.

Maria João Caetano
Elvira e a filha, Ana, na barraca na Fonte da Telha. | foto Orlando Almeida/ Global Imagens
Elvira vende naquela praia há 25 anos. | foto Orlando Almeida/ Global Imagens
Nos meses do verão, Ana deixa a empresa onde trabalha com o marido e vem ajudar a mãe. | foto Orlando Almeida/ Global Imagens

Bom dia, dona Elvira. Bom dia, Rosinha. Bom dia, Elvira. Bom dia, dona Ana. Há já tanto tempo que não a via, e o seu marido como está? Ai que crescido o menino, cresceu tanto desde o ano passado. Vamos lá ver se o tempo melhora que isto neste ano não tem estado nada de jeito. Até logo, boa praia. Já voltamos. E Elvira ali fica. Vê-os passar para baixo e depois vê-os passar para cima. Acena para as camionetas dos miúdos, vende bonés às crianças e pareos coloridos às mães, vende toalhas com a bandeira de Portugal e boias enormes em forma de cisne. Da sua barraca, a única que fica do lado esquerdo de quem desce a rampa para a praia da Fonte da Telha, na Costa da Caparica, Elvira não vê o mar. Pode ficar ali três meses a vender biquínis e não pôr um pé na areia. Que isso não lhe tire o sorriso. "Diga lá, menina, o que é que quer saber?"

Elvira Honório tem 62 anos, quatro filhos, mais uma que é como se fosse de sangue, dez netos entre os que são e os emprestados e já contando com o bisneto, tem a pele morena do sol, gosta de cozinhar feijoadas de todas as maneiras e de ser simpática para toda a gente, mas não é mulher de se deixar ficar quando tem alguma coisa para dizer.

Se lhe perguntamos pelo passado fala-nos da Covilhã, onde nasceu, e da mãe, que, ela não o diz assim, mas foi certamente o seu modelo. "Criou-nos muito pobrezinhos mas com muito amor e carinho, a verdade seja dita." E lembra-se ainda de quando ela dizia: "Elvira, Elvirinha, lê para a mãe." E Elvira sentava-se ao lado dela e "lia o filme em voz a alta". A mãe não sabia ler nem escrever e Elvira gostava tanto de ver filmes, ainda hoje, depois do jantar, nas noites em que não adormece no sofá, de cansaço, "ver um bom filme é das melhores coisas", diz. Ainda mais se for uma história de amor. "As pessoas admiravam-se como é que eu tinha paciência. E eu às vezes nem percebia muito bem o filme para estar com atenção a ler as legendas. Mas gostava tanto de ler para ela."

Só por isso já tinha valido a pena andar na escola primária. A mais nova de seis irmãos, Elvira veio com a família da Covilhã para Lisboa ainda criança. Aos 11 anos, já andava "na venda" no Terreiro do Paço. De manhã ia à escola e à tarde vendia chapéus-de-chuva nos dias de chuva e lenços de seda nos dias melhores. Fez o exame da quarta classe "e foi uma sorte". "Nessa altura havia crianças que nem à escola iam", recorda. Foi a mãe que insistiu para que todos, rapazes e raparigas, fossem à escola. "O meu pai dizia: para que é que as miúdas vão à escola? Não têm necessidade disso. Mas a minha mãe dizia que tínhamos de ir. Depois, na venda, se não tivesse a carta de condução, se não soubesse ler e escrever, tinha os pés atados, ficava dependente de um marido, isso é que era bom."

O pai ainda tentou pô-la a aprender costura, mas Elvira odiava. Mentiu-lhe: "A senhora mandou-me para casa, diz que tenho os dedos muito grossos, que não posso ser costureira", conta, rindo e estendendo as mãos para mostrar os tais dedos grossos. "Não gostava de fazer outra coisa, não me via fechada entre quatro paredes, só em caso de muita necessidade." Foi feita para isto. Para estar na rua e para falar com pessoas. "Gosto disto, gosto do ar livre, gosto da venda, de conviver, de falar. Às vezes quando estou maldisposta sou um bocadinho asneirenta mas não sou má pessoa."

Foi no Terreiro do Paço, miúda ainda, que conheceu o Luís. "Ele também tinha a mesma sina do que eu, vendia roupas, rádios, o que fosse. Quando foi o 25 de Abril vendia-se as cassetes piratas, foi com isso que a gente ganhou algum dinheirinho", lembra Elvira. Às seis da manhã já ali estavam, à chegada do primeiro barco. Ficaram amigos mas depois cada um seguiu com a sua vida e com o seu casamento. Ela teve quatro filhos e passou maus bocados que não vale a pena agora aqui lembrar. "Passados muitos anos, eu divorciei-me, ele divorciou-se e juntámos os trapos. Continuamos divorciados. Mas estamos juntos. Faz 25 anos que vivemos mesmo, mesmo juntos." Ela chama-lhe marido. 25 anos juntos, a trabalharem um com o outro e a partilharem a mesa e a cama, já dá direito a ser marido, não é?

Quando Elvira se juntou a Luís já ele era o "Luís das bolas", ali mesmo, naquela curva da praia da Fonte da Telha onde ele se fixou há 42 anos, logo que saiu da tropa. "Bolas mas não é de comer, é de jogar", avisa ela, para evitar mal-entendidos. "A vida era difícil. Ele vendia bolas, óculos de sol, protetores... Ainda não vendia chapéus-de-sol mas, depois, quando eu vim, tivemos de pôr mais vendas, eu tinha filhos para criar. Este é o nosso cantinho, nunca mudámos de sítio."

No resto do ano, moram em Carnide e vendem no Colégio Militar: roupa, malas, cachecóis do Benfica em dias de jogo. Em junho mudam-se para a casa da Fonte da Telha e ali vendem bolas de todas as cores a 5 ou a 7,5 euros, dependendo do tamanho, raquetas, vestidos curtinhos, vestidos compridos, todos a 15 euros (negociáveis), toalhas de praia e pareos, fatos de banho e biquínis, baldinhos e pás, as boias da moda, sejam flamingos ou ananases, cisnes ou melancias, protetores solares, bonés, chapéus-de-sol, corta-ventos e o que mais for preciso.

"Isto é quase como um apoio de praia", garante Ana, a filha mais nova de Elvira, de 30 anos, que nos meses de verão deixa a empresa onde trabalha com o marido e vem ajudar os pais na venda da praia. "É quase, não. É mesmo um apoio de praia", interrompe Elvira. "As pessoas vêm aqui e pedem de tudo." Já aconteceu elas besuntarem bebés com os seus próprios cremes protetores porque as avós se esqueceram do creme em casa e "um creme é muito caro". E até têm "lá atrás" um saquito com fraldas e pensos femininos para o caso de haver uma necessidade. "São coisas que não vendemos mas às vezes as pessoas vêm aqui perguntar e nós desenrascamos. Até perguntam se temos jornais, porque não há jornais nem revistas à venda na Fonte da Telha."

Dos antigos vendedores da praia só restaram quatro, aqueles que têm licença e que pagam à Câmara de Almada para estar ali. "As pessoas pensam que a venda da rua é só estar aqui e vender, mas não é", queixa-se Elvira. "Descontamos para a Segurança Social. Temos de ter as faturas. Temos livro de reclamações. Temos multibanco. E temos tudo marcado, com os preços à vista. Ainda há quatro ou cinco dias esteve aí um fiscal da ASAE. Temos de ter tudo em dia. Não podemos ter nada contrafeito, nem eu quero. Muitas pessoas perguntam: não tem Havaianas? Não tem T-shirts oficiais do Benfica? Não posso, a única coisa que posso ter é toalhas de praia do Benfica, do Sporting e do Porto. As pessoas pensam que isto é praça, mas isto não é praça."

Quanto ao resto, o negócio mantém-se mais ou menos na mesma ao longo dos anos. A Fonte da Telha é, como lhe chama Ana, o "Algarve dos pobres". "Uma pessoa chega lá acima e vê este areal todo e é muito bonito, é difícil haver outra praia assim. Mas, depois, pronto, está tudo muito mal-arranjado. A estrada está uma porcaria e não há estacionamento, levanta imenso pó. À noite, quando estamos a arrumar a barraca, temos de limpar o pó todo das coisas, é uma trabalheira. Só que fosse empedrado deste lado já era bom. E depois é este caos das camionetas, às vezes nem sobem uns nem descem outros. Merecia mesmo uns melhoramentos."

Por não ter parque de estacionamento pago, a Fonte da Telha é uma das praias preferidas pelas escolas e outras instituições que nos meses de junho e julho levam para ali centenas de crianças. As camionetas começam a chegar por volta das nove horas. A essa hora, já Luís e Elvira têm a a barraca montada e já levam mais de duas de trabalho. "E depois ficamos até haver clientes, tanto pode ser às sete como às oito como às nove. Costuma dizer-se que quando há vento é que se dá à manivela", ri-se Elvira.

Mas ela não se importa com essa parte do trabalho. Tem clientes de há muitos anos. Meninos pequenos a quem vendeu baldes de praia e que agora são jovens de 15 anos que vêm comprar pranchas de bodyboard. O rádio está sempre ligado. E os clientes vão aparecendo. "Eu é que já não tenho idade, mas, se tivesse, uma das coisas que eu gostava era de aprender inglês para falar com os estrangeiros", lamenta-se.

Não tarda nada é hora do almoço. Há muita gente a sair da praia. Até logo, Elvira!, gritam-lhe. Filas de crianças de mãos dadas a caminho da camioneta. Hoje não há muito sol. É bom para os pequenos, é mau para o negócio. Vendem-se menos chapéus. Mas o pior de tudo é a chuva. "Temos de tirar tudo à pressa, fico muito nervosa. O meu marido diz assim: ó Elvira, tem calma. Mas eu fico com o coração aos saltos." Elvira coloca a mão em pala sobre a testa e olha para as nuvens, apreensiva. "Deus queira que não chova."