A Google é muito mais do que a Google

A cada minuto há mais de dois milhões de pesquisas no motor de busca. Mas a empresa está a desenvolver várias tecnologias que podem vir a resolver outros problemas num espaço de cinco anos: inteligência artificial é o core da empresa, mas desde drones a saúde tudo está incluído no futuro da Google.

Catarina Carvalho
Larry Page e Sergey Brin, os fundadores da Google. | foto Kim Kulish/Getty Images

A estrutura empresarial da Google foi repensada de forma a racionalizar a lógica de negócios e permitir que a liderança esmagadora em setores chave não afete o investimento em tecnologias promissoras.

Por isso, em 2015, nasceu a Alphabet, um conglomerado que demonstra que os seus fundadores sabem que a Google é apenas um dos investimentos - e, apesar de ser o mais conhecido e o que mais retorno traz, terá um futuro limitado no médio prazo. Os resultados continuam a mostrar que 90% do retorno financeiro da Google vem do negócio de publicidade online, mas a diversificação dos investimentos confirma que a aposta no futuro vai muito para lá dos anúncios.

Em 2017 a Alphabet contratou 12 mil novos funcionários e entre o segundo trimestre de 2017 e o período equivalente em 2018 aumentou os investimentos nas novas unidades de negócio em 93%.

Isto significa que pouco muda na alínea do lucro da empresa, para já. A Google nasceu à volta do motor de pesquisa e ganhou dimensão com o crescimento brutal do negócio da publicidade online , um negócio que escala de forma quase automática, sem necessitar de um aumento relevante da força de trabalho ou de investimentos massivos. Isso explica a enorme rentabilidade da Google, que cresceu ao mesmo ritmo da internet.

O próximo passo lógico seria diversificar o negócio, aplicando as montanhas de dinheiro em investimentos relevantes. Quando há três anos a Alphabetfoi criada, os fundadores Sergey Brin e Larry Page explicaram precisamente esta vontade de investir no futuro. E isto corresponde ao modelo tradicional dos líderes de Silicon Valley,que se veem como gurus do melhor futuro possível para a humanidade. Nesse sentido pouco distingue os fundadores da Google dos outros empreendedores como Mark Zuckerberg e mesmo de investidores como Peter Thiel.

As ideias de base são comuns: o conceito de destruição criativa de Schumpeter, o idealismo libertário de Ayn Rand e a defesa do monopólio como princípio de dominação tecnológica. O modelo americano capitalista ultraliberal que pouco taxa e menos regula é altamente propício ao desenvolvimento destas empresas, o que explica o domínio das grandes empresas americanas sobre grande parte da internet - e a visão quase totalitária que têm sobre conceitos como a privacidade e a preferência pelos automatismos algorítmicos da máquina face ao homem.

E é aí que a Google se destaca, sendo até conhecida como "a homepage da internet". Na remodelação de 2015 Sundar Pichai ficou como CEO da Google e as áreas de negócio foram entregues a diferentes empreendedores. Na constante reorganização tem ficado patente a crescente importância de Ruth Porat, a administradora financeira que os fundadores foram buscar à Morgan Stanley para profissionalizar toda a gestão da nova estrutura.

Isso implicou a aposta em novos negócios e o abandono de outros, pelo que a melhor forma para tentar perceber o que será o futuro da Alphabet é mesmo uma análise do seu portfólio. Por exemplo, a empresa vendeu a Boston Dynamics e abdicou de ter uma unidade de negócios próprios relacionada com a robotização, embora mantenha investimentos relevantes em várias empresas da área. Com a tecnologia Blockchain aconteceu o inverso: a Google chegou tarde à corrida e só a partir de 2016 começou a apostar em desenvolver uma área própria, nomeadamente para aproveitar o potencial na área da informação em cloud, apesar de ter feito diversos investimentos em empresas da área.

A nova configuração da Alphabet é uma aposta em vários cenários, alguns de curto/médio prazo, outros de visão estratégica para o futuro. Os negócios que trarão retorno imediato são os que se posicionam em mercados que já existem e, embora a maioria seja desenvolvida dentro de casa, há investimentos relevantes em empresas externas.

Para isso tem a GV (Google Ventures), que investiu em mais de 300 start-ups e tem no portfolio nomes como a Uber, a Slack (plataforma de comunicações empresarial), a Lime (partilha de bicicletas e motas elétricas) e a Skimm (notícias para millenials). Ao mesmo tempo tem a CapitalG, que gere os fundos de investimento puros em empresas maduras e tem participações relevantes em empresas como a Airbnb, a Lyft (concorrente da Uber) e a Duolingo (plataforma de educação online), para além dos referidos investimentos em Blockchain (na LedgerX, na Veem e na Storj).

De todo o universo da Alphabet, a Google continua a ser a empresa que maior retorno oferece e a que tem maior relevância. É lá que estão os produtos mais tradicionais e conhecidos, como o browser Chrome e o serviço Maps, os smartphones Pixel e as plataformas Home, Cloud e Play. Mas este braço armado tem também investido na compra de outras empresas que podem contribuir para a construção da internet das coisas em que a Google continua a investir fortemente, razão pela qual tem uma unidade de hardware bastante ativa - que tanto aposta em smartphones como no desenvolvimento de tecidos inteligentes, aplicações de realidade virtual e interfaces digitais através de gestos e pensamentos para realidade aumentada.

É também a partir da Google que estão a ser desenvolvidos os esforços de computação quântica, uma tecnologia revolucionária que deverão resolver problemas reais no prazo de cinco anos. A empresa anunciou que pretendia apresentar algo surpreendente relacionado com a computação quântica durante o ano de 2018, para competir com empresas como a Microsoft, a IBM e mais um par de empresas chinesas que trabalham de forma bastante discreta com apoio governamental.

O YouTube continua a ser uma subsidiária da Google e, embora seja a plataforma dominante para conteúdos de vídeo na internet, não há planos para a autonomizar. A razão para isso é a profunda ligação entre o negócio da publicidade que a Google serve nos seus motores de pesquisa e a colocação dessa mesma publicidade nos vídeos. Por fim, ainda dentro da Google, continua o Android, o sistema operativo que a empresa continua a empurrar e que tem também uma profunda integração com o Chrome e o motor de pesquisa.

Estes, embora sejam negócios de curto prazo já estrategicamente sólidos, não podem ser menosprezados: a cada minuto que passa, há mais de dois milhões de pesquisas no motor Google, garantindo um domínio do mercado que por sua vez viabiliza a força do negócio publicitário e a dimensão das plataformas YouTube. A aposta será a integração estratégica das novas plataformas como o Home neste universo, reforçando uma liderança global.

Mas é também contra a Google que têm vindo as maiores ameaças, nomeadamente as acusações de monopólio - a Comissária Europeia para a competitividade, Margrethe Vestager, aplicou em julho deste ano uma multa recorde de 4.34 biliões de euros por causa da imposição do Android a operadores, mas já no ano passado tinha decidido uma outra multa de 2,73 biliões por causa de abuso de posição dominante dos negócios parceiros nos resultados do seu motor de pesquisa (a empresa contestou ambas e os processos de apelo estão a decorrer).

Google Fiber - oferece internet ultrarrápida e serviços de televisão digital em concorrência com os serviços tradicionais e que contará já com duzentos mil subscritores em 9 cidades norte-americanas. É possível que, num prazo de um ano, esta subsidiária seja reconvertida em função da aposta na prestação de serviços de comunicações sem fios que foi criada na Project Loom - que quer servir internet a dois terços da população mundial através de balões de ar quente a baixa altitude.

Project Wing - outro investimento inovador, na distribuição de bens através de drones. Já fez algumas experiências mas não tem sido muito bem-sucedida, pelo que ainda precisa de ganhar músculo para competir neste mercado que parece ser liderado pela Amazon.

Waymo - O nome é uma contração da frase "way forward in mobility", qualquer coisa como "o futuro da mobilidade" e consiste na aposta em veículos não tripulados. A empresa já realizou testes que redundaram em milhões de quilómetros percorridos, incluindo em vias públicas, mas ainda sem aplicação prática acessível aos consumidores. De qualquer forma continua a ser vista como a líder destacada neste negócio que, assim que estiver maduro, pode proporcionar um imenso retorno à casa-mãe. A Waymo é também o símbolo da postura da Alphabet no mercado tecnológico: apesar de investir em serviços de car-sharing e de plataformas de transporte como a Uber, ao mesmo tempo lança negócios com potencial para matar esses mesmos investimentos.

Sidewalk Labs - Esta é uma unidade de negócios dedicada à gestão de cidades, aproveitando todo o manancial de serviços que a Google pode fornecer - desde a fibra aos carros sem condutor, passando pela internet das coisas, pelos mapas, pela informação de trânsito e pela gestão de dados de forma a tornar mais eficiente os consumos e toda a organização de uma malha urbana. Toronto, no Canadá, ofereceu à empresa um terreno com cinco hectares para que seja revitalizado de forma "inteligente", num negócio que deverá ser fechado ainda em 2018.

Verily - a unidade de produtos de saúde está no mercado com produtos de aplicação prática como lentes de contacto que medem a glucose e talheres com estabilização automática para quem sofre tremores nas mãos, como por exemplo doentes de Parkinson.

Jigsaw - esta empresa nasce de um grupo de pensamento estratégico dentro da Google e visa criar mecanismos comerciais para combater a censura online, o extremismo e o assédio. A ironia do nome, que em português se traduzirá por "quebra-cabeças" não se perde na tradução: é que a Google é precisamente uma das principais responsáveis por estes problemas, ao permitir que a sua plataforma Youtube seja um repositório de discursos de ódio, de propagação de notícias falsas e de ataques a minorias.

Deep Mind - é o braço armado da inteligência artificial do grupo, funcionando não como uma empresa com produtos ou conceitos próprios mas como um agregador que serve todas as parceiras do grupo e que deverá contribuir para o contínuo crescimento

X - A secreta unidade de investigação conhecida apenas pela antepenúltima letra do alfabeto é o laboratório onde nasceram muitas ideias que hoje são unidades de negócio autónomas. Pouco se sabe sobre o que está a ser desenvolvido, mas espera-se sempre algo altamente inovador e surpreendente.

Calico - um projeto que pode ser apelidado de tudo, menos de modéstia. A empresa nasceu há cinco anos com o simples objetivo de "curar a morte". Para além de representar uma mentalidade típica da engenharia informática em que tudo é um problema que precisa de solução (incluindo a morte), a Calico é extremamente interessante porque corresponde a uma tendência crescente no mundo da alta tecnologia e da grande finança em que cada vez mais se procuram formas de combater o envelhecimento e adiar a morte para um futuro distante e no limite eliminá-la. Por isso a investigação de ponta da empresa está a tentar desconstruir o envelhecimento enquanto aposta na cura para o cancro e para doenças degenerativas como Alzheimer.