A lei seca, a bandeira das sufragistas, as máfias e a cerveja sem álcool

O proibicionismo foi germinando durante décadas, desde o século XIX, numa mistura de puritanistas religiosos, progressistas, moralistas sociais e... sufragistas. A lei seca vigorou 13 anos

Há quase cem anos, a 18 de dezembro de 1918, vivia o mundo o armistício da Primeira Guerra Mundial, 47 homens votaram a favor da 18.ª emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, contra apenas oito votos de senadores, impondo o que viria a ficar conhecido como a Prohibition, a lei seca que entraria em vigor um ano depois de aprovada pelo 36.º estado americano. A 17 de janeiro de 1920, com força de lei federal, os EUA passaram a ser um país "seco", onde o álcool se tornou proibido.

Álcool, brandy, whisky, rum, gin, cerveja, fosse ale ou preta, e vinho, ou licores fermentados, com mais de 0,5 graus de álcool, foram considerados "bebidas intoxicantes" e proibidas pelo 66.º Congresso dos EUA.

Até à sua aprovação, durante dezenas de anos, ainda no século XIX, começou a vingar a forte ideia de proibir a produção, a venda e o consumo de bebidas alcoólicas, numa mistura de puritanistas religiosos, progressistas, moralistas sociais e... sufragistas. As mulheres que defendiam o direito ao voto fizeram do proibicionismo de bebidas alcoólicas bandeira eleitoral. Não era uma novidade: no Reino Unido, ou na Nova Zelândia, o primeiro país a conceder o direito de voto às mulheres em 1893, as mulheres faziam da defesa de limitações à venda de bebidas alcoólicas uma importante luta política: o homem bêbedo não trabalhava, gastando o salário que lhe fugia, para além de se tornar violento - nas tabernas, nas ruas, em casa.

Esta foi também bandeira eleitoral de um partido, que é o mais antigo dos "terceiros partidos" nos bipartidários EUA: o Partido Proibicionista, assim mesmo, criado em 1869, que pediu e conseguiu esta emenda que proibiu produção, venda, transporte, importação e exportação de álcool. Mas viu a sua importância definhar logo depois da abolição da lei seca em 1933.

O movimento tornado lei obrigou ainda as empresas a adaptarem-se aos novos tempos. Ainda em 1919, num anúncio de jornal, a cervejeira Anheuser-Busch, de St. Louis, antecipava a "recriação da famosa Budweiser". Dirigindo-se a todos os seus "amigos e clientes", a empresa apontava os caminhos a seguir: "Os nossos planos de desenvolvimento incluem, entre outros novos produtos, uma bebida adicional de cereais à qual vamos aplicar um bem conhecido nome comercial Budweiser. Esta bebida será produzida, em todos os detalhes de acordo com o processo original da Budweiser e sem álcool, para estar conforme à lei federal. E possuirá a qualidade e o sabor genuínos da Budweiser." Explicado o novo produto, a empresa antecipava que estaria preparada para iniciar as encomendas a 1 de janeiro de 1920.

As ideias novas também se espalharam pelo mundo da literatura e da música. W.M. Jerome e Jack Mahoney cantaram que todos os dias iriam parecer domingo, o "dia do Senhor", em Every Day Will Be Sunday When the Town Goes Dry. A canção de 1918-1919 era um retrato do que viria. "When prohibition comes, they get the gate/ Good-bye Hunter, so long Scotch, farewell Haig and Haig/ Oh my darling old frappe, they will soon take you away/ At the table d"hote with Lola, they will serve us Coca Cola/ No more saying 'Let me buy', no more coming thru the Rye/ Old Manhattan and Martini have received the big subpoene/ Every day'll be Sunday when the town goes dry."

Servida a Coca-Cola, proibido o fruto apetecido, o mundo do crime organizado viu nesta secura uma oportunidade de negócio. As máfias explodiram e, com maior ou menor consenso, os analistas entendem que o crime aumentou - apesar de haver quem explique os níveis de criminalidade pelo urbanismo crescente da América, menos pela proibição. O imaginário de Hollywood, com a série de TV Os Intocáveis, alimentou esta ideia - e o mito de Eliot Ness e de Al Capone.

Onde se reconhece o sucesso do proibicionismo é na saúde: as mortes por cirrose passaram de 29,5 por cem mil em 1911 para 10,7 em 1929. Eleito Roosevelt, com a promessa de acabar com a 18.ª emenda, a mesma foi banida em 1933. As mulheres só alcançariam o voto em 1920. Seria a 19.ª emenda.

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