A cinefilia "on the rocks"

O álcool percorre todos os géneros cinematográficos, mesmo os aparentemente mais ligeiros - de Humphrey Bogart a Nicolas Cage, os copos de whisky contam a história dos nossos usos e costumes

No filme Perfume de Mulher (1992), Al Pacino, interpretando um velho militar, cego, habitado por muitas formas de amargura, exprimia o seu desejo de ter o bar do hotel cheio de John Daniel"s... Deduzindo que se estava a referir ao seu whisky preferido, Chris O"Donnell perguntava-lhe se ele não teria querido dizer Jack Daniel"s. Ao que Pacino respondia: "Pode ser Jack para ti, miúdo, mas conhecendo-o há tanto tempo como eu..." E perante a perplexidade do jovem, acrescentava: "É uma piada."

A perceção - e, por certo, também o consumo - do álcool muda de época para época, refletindo as convulsões sociais, as clivagens morais e as diferenças das gerações. E se é verdade que, hoje em dia, o cinema vive dominado por super-heróis que já não têm vícios carnais (dedicando-se a coisas infinitamente mais esquemáticas e pueris como salvar o mundo), não é menos verdade que podemos compreender um pouco das nossas relações com os prazeres e os demónios etílicos através de alguns filmes de épocas talvez menos moralistas do que a nossa.

Não há maneira de dizermos que Humphrey Bogart a beber um whisky em Casablanca (1942), habitado por memórias românticas de Paris, seja um "equivalente" dramático de Nicolas Cage a morrer lentamente em Leaving Las Vegas (1995), esse filme que, entre nós, recebeu o título inequívoco de Morrer em Las Vegas.

Ainda assim, vislumbramos um perturbante parentesco. A paixão cinéfila leva-nos a reconhecer a personagem de Cage com um descendente, em linha direta, da de Bogart. Para o proprietário do Rick"s Café, mas também para o homem que vai para Las Vegas morrer, literalmente, através da bebida, o álcool emerge como fantasma de uma solidão radical.

No caso de Bogart, o fantasma é "apenas" romântico: a bebida remete para as memórias de Paris, na companhia de Ilsa (Ingrid Bergman), mas nunca se irá sobrepor aos desígnios morais do herói. Porquê? Porque, no seu misto de idealismo e pragmatismo, Rick/Bogart é, de facto, um dos primeiros símbolos antinazis gerado pelo grande cinema clássico de Hollywood.

Mais de meio século mais tarde, Cage pertence a um mundo outro, uma paisagem de néones e angústias coloridas, em que triunfa a decomposição de todos os romantismos. A solidão passou a ignorar a possibilidade de um qualquer resgate moral: a vida vivida on the rocks pode ser, afinal, uma saga suicida.

Se quisermos ler a história como uma colagem perversa de símbolos, podemos mesmo lembrar que 1995, o ano em que Ben Sanderson, a personagem de Cage, decide ir morrer a Las Vegas, é o mesmo ano em que são comercializados os primeiros browsers que irão permitir ao cidadão comum circular por todos os recantos da internet. Ou seja: Ben Sanderson não foi salvo pelo admirável mundo novo em rede. E quando Sera (Elizabeth Shue), a prostituta com quem ele vive uma derradeira ilusão afetiva, lhe pergunta se beber é uma maneira de se matar, ele responde-lhe com uma interrogação simétrica: "Ou será que matar-me é uma maneira de beber?"

Humanismo clássico

Convenhamos que não é fácil sermos apóstolos das boas consciências, sobretudo quando, em nome da cinefilia, continuamos a celebrar o modo como James Bond exige que o seu martini seja "shaken, not stirred" (à letra: "batido, não mexido"). Afinal, Sean Connery, primeiro e mítico intérprete do agente secreto 007, protagonizou radiosos anúncios de bebidas em meados dos anos 1960 (por exemplo, em 1967, em campanha da marca Jim Beam, paralela à estreia de 007 - Só Se Vive Duas Vezes).

O certo é que também não podemos esquecer que o cinema clássico produziu alguns contundentes retratos da decomposição do fator humano através do álcool. Recordemos, desde logo, o exemplo desse filme de admirável depuração que é Farrapo Humano (título original: The Lost Weekend), realizado por Billy Wilder, com o prodigioso Ray Milland no papel de um escritor tragicamente dependente do álcool. E sublinhemos a sua simbologia industrial: filmes como Farrapo Humano pertencem a um tempo em que os grandes estúdios de Hollywood (neste caso, a Paramount), longe de terem vendido a alma aos super-heróis digitais, investiam convictamente em temas adultos. E ganhavam Óscares com isso: Farrapo Humano foi distinguido com quatro estatuetas douradas, incluindo a de melhor filme de 1945.

Só mesmo por distração ou cinismo se poderá ignorar como os géneros clássicos, da comédia ao musical, passando pelo melodrama, integraram elementos tão graves como a reconversão das relações sociais no pós-Segunda Guerra Mundial ou a evolução dos costumes sexuais - com o álcool a pontuar tudo isso.

Veja-se ou reveja-se a obra-prima de George Cukor, Assim Nasce Uma Estrela (1954), com James Mason no papel de um ator veterano, perdido no seu alcoólico desencanto, que patrocina a ascensão de uma jovem atriz interpretada pela sublime Judy Garland - trata-se, aliás, de uma história com várias versões (a primeira dos anos 1930, a mais recente, ainda por estrear, com Bradley Cooper e Lady Gaga). Descubra-se também essa personagem admirável, de raiz trágica, interpretada por Dean Martin em Rio Bravo (1959), de Howard Hawks: quando, sob o olhar atento de John Wayne, ele repõe no interior da garrafa o whisky que decide não beber ("sem deixar cair uma gota"), percebemos que falar em humanismo no cinema clássico não é coisa vã.

Memórias de Charlot

Enfim, é preciso olhar atentamente o par de Gata em Telhado de Zinco Quente (1958). Primeiro, por respeito pela escrita de Tennessee Williams; depois, para entender que a reconversão crítica do masculino/feminino não foi exatamente uma descoberta das militâncias pós-modernas: entre Elizabeth Taylor e Paul Newman desenha-se uma equação sexual, complexa e perturbante, de que a bebida dele é já não um sinal de poder, antes o elo mais fraco.

Na sua exuberância narrativa, o cinema dos anos 1950-60 desenha um território pontuado por fascínio e medo que funciona como espelho de toda uma agitada reconversão dos papéis tradicionais de homens e mulheres. Sabemo-lo bem através das filmografias de autores emblemáticos como Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, respetivamente na Suécia e em Itália. Mas podemos também detetar os seus sinais dispersos na Nova Vaga francesa - lembremos o caso belíssimo, e tão esquecido, de Le Beau Serge (1958), entre nós chamado... Um Vinho Difícil, longa-metragem de estreia de Claude Chabrol em que encontramos uma invulgar personagem de alcoólico, a cargo do comovente Gérard Blain. Isto sem esquecer o modo como o alcoolismo se inscreve em diversas narrativas dos novos talentos de Hollywood, como Blake Edwards (Escravos do Vício, 1962) ou Mike Nichols (Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, 1966).

O álcool não é, em boa verdade, um "tema" que os filmes "acrescentem" às relações que encenam - não estamos a falar do maniqueísmo moralista das telenovelas. Revisitemos o didatismo de Charlie Chaplin na curta-metragem The Cure (1917), encenando as atribulações de um homem que vai para umas termas a fim de combater a sua dependência da bebida (chamou-se, entre nós Charlot nas Termas): o que ele nos dá a ver é o facto essencial de que todos os gestos envolvem valores, tudo é cultural, incluindo a relação com o álcool.

O mesmo se dirá de filmes tão singulares como O Pântano (2001), crónica argentina da sempre brilhante Lucrecia Martel sobre uma burguesia etilizada, ou Crazy Heart (2009), subtil fábula made in USA centrada num cantor country grande consumidor de álcool que valeu um Óscar a Jeff Bridges. Isto sem esquecer que este filme não teve estreia comercial em Portugal... O que, naturalmente, não se explica por qualquer vertigem alcoólica - se é que se explica.

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