O Centro Comercial Babilónia, na Amadora, foi inaugurado em 1984, um ano antes do Amoreiras. Além de

1864

Babilónia. No centro da periferia está o mundo inteiro

Nos corredores apertados e labirínticos do Centro Comercial Babilónia, na Amadora, cruzam-se nacionalidades, línguas e culturas diversas. As dos imigrantes que aqui encontraram o eldorado. E as de muitos clientes, que aqui procuram um pouco do que deixaram para trás

Entra-se pela porta da frente, que dá para a Elias Garcia, eixo central da cidade da Amadora, e é como se se voltasse aos anos 1980. Sem o brilho da época em que o Babilónia gozou de prestígio, atraiu marcas de renome e estabeleceu clientela em toda a linha de Sintra e mais além. São óbvias as marcas dos 34 anos que passaram desde a sua inauguração, a 8 de dezembro de 1984, um ano antes das Amoreiras,

Outro centro comercial decrépito e fantasma por conta dos gigantes que foram abrindo nos anos 1990, em Lisboa e arredores? Não. Uma vez transposta a porta, a história que o Babilónia tem para contar é outra: de resiliência e resistência.

O espaço, que deve o batismo aos jardins suspensos que (ninguém diria) inspiraram o átrio central, começou a fazer jus ao nome que lhe deram vinte e tal anos depois da sua inauguração. E talvez tenha sido isso que o salvou.

"Todos temos um sonho", dirá adiante o paquistanês Nadeem, dono de uma das cerca de 50 lojas de telemóveis do Babilónia. Já lá vamos. Por agora, sonhos só os daqueles que lá em baixo, ao centro, fazem fila para as raspadinhas e os euromilhões. É sexta-feira. Entre a uma e as três, muitas lojas fecham e os lojistas rumam à sua mesquita. É dia de oração para os muçulmanos.

Os brasileiros preferem coxinha de galinha ou pão de queijo e o Original Coffe promete os melhores."Tem muitos brasileiros que vêm aqui matar saudades dos sabores de lá, mas também tem muito português e africano. Tem de tudo aqui", diz Maria, a funcionária. Do outro lado do átrio, no Brasil Caipirinha, duas brasileiras há pouco tempo em Portugal procuram trabalho. Deixam o nome com a compatriota Cláudia, que chegou cá há seis meses e está a ajudar a sobrinha. "Pode ser que apareça alguma coisa. A gente não tem medo de trabalhar", diz uma das mulheres, falando pelas duas. "Vem muita gente aqui à procura de trabalho", explica Cláudia.

Normalmente é isso que os imigrantes procuram quando saem dos seus países. Trabalho e uma vida melhor. Foi o que fez Faisal, 42 anos, sair do Paquistão. Isso e o amor por uma dinamarquesa. Passou por EUA, Noruega e Dinamarca e, terminada a relação, veio parar à Amadora, em 2007. "Portugal é perto [da Dinamarca] e assim posso visitar o meu filho."

Os telemóveis foram a opção, em 2008, quando alugou a sua primeira loja no Babilónia, mas a concorrência excessiva no negócio dominado por compatriotas levou-o a mudar para os produtos de beleza. "Trabalho das dez da manhã às dez da noite, seis dias por semana. Não tenho férias nem funcionários, tenho menos despesa. Nós, estrangeiros, trabalhamos muito para pouco lucro. Estamos a lutar pelo futuro dos nossos filhos", diz Faisal, que vê aí a razão para que, entre as 200 lojas do Babilónia, não exista nenhuma vaga. "À volta do Babilónia, tudo vazio. Nós estamos cheios."

"Cheios de lojas de telemóveis, cabeleireiros africanos e lojas de cabelo natural", diz Celso, 65 anos, português, que aqui está desde 1984, hoje numa pequena loja - a ElectroBabilónia -, um cubículo ao pé das duas grandes lojas de eletrodomésticos de que já foi proprietário. À beira da reforma, é com nostalgia que fala do passado e com resignação que olha para o presente. "Isto quando abriu era muito airoso, alegre, com dinâmica. Agora é tudo a mesma coisa. Antes havia montras, agora atende-se no corredor. Para mim, não tem muito jeito, mas a verdade é que temos clientes, a maioria africanos. Valha-nos isso."

São esses clientes que dão também negócio às três agências de viagens que têm nos imigrantes o público-alvo. «A maioria dos que aqui vêm são brasileiros, africanos, indianos e paquistaneses, para viagens à terra natal», diz Juliana, funcionária da MZ, que se queixa do ambiente pesado no centro e de alguma insegurança.

Amaro, 67 anos, português, membro da administração, dono de duas ourivesarias e fundador do Babilónia, garante que problemas são os mesmos que há em todo o lado: «De certeza que no Vasco da Gama e no Colombo têm mais insegurança do que nós, que somos mais pequenos.» A diminuição do espaço de esplanada no átrio central e a renovação da equipa de segurança, 24 horas por dia, e ela própria «multicultural», melhorou o ambiente, segundo o empresário, que, seja como for, também fala com entusiasmo dos primeiros tempos do centro comercial que viu erguer, quando se enchia de gente e tinha outra oferta, que incluía os famosos croissants e o cinema até à meia-noite.

"Outros tempos. Depois vieram os colombos e a crise e muitos lojistas não aguentaram. Nós tivemos de fazer uma opção. Abrir a quem queria alugar, o que resultou neste multiculturalismo que aqui vê, gente de todas as nacionalidades. Mas não tenha dúvidas, isto é um espelho do concelho da Amadora. Tivemos de nos adaptar e, quem não se adaptou, fechou", diz Amaro.

Latif, 44 anos, conhece estes corredores (e o senhor Amaro) desde miúdo. O pai, moçambicano de origem indiana (como ele), tinha aqui uma loja de roupa, a que Latif, hoje um dos administradores do centro, deu continuidade, adaptando-se. "Se vendesse fatos clássicos, já tinha fechado." Emporio Armani, Versace, Miguel Vieira. Marcas topo de gama não faltam nas duas lojas Publik Charm. Nem isso nem os clientes, apesar de uns mocassins do estilista português custarem à volta de 300 euros, em saldos. "O poder de compra também é uma questão de prioridades", diz o empresário.

Os irmãos João Paulo e Zé Manuel, da Manosport, que têm duas lojas de desporto no Babilónia desde 1997, partilham a opinião: "Eles não olham a preços. Topo de gama no pé, telemóveis, cabelos. Um penteado daqueles com extensões chega facilmente aos 300 euros", garante João Paulo, que ergue resignado as sobrancelhas perante a atual configuração do Babilónia.

"São 25% de portugueses e 75% de africanos, indianos e brasileiros. Mas damo-nos todos bem. Não temos razão de queixa. Lojas fechadas não há e clientes não faltam. Pronto, não vê famílias que venham para aqui passear, não há montras para olhar, mas quem vem, vem para comprar". E isso é o que interessa. Aos irmãos da Manosport, que ficaram sem concorrência e garantem «ter uma variedade de oferta como não há em muito lado», o negócio corre bem.

E a estratégia adotada pela administração de abrir o centro a quem tantas vezes fica nas margens parece bem-sucedida. Maria, Mamady e Adulai, da Guiné Conacri, que trabalhavam, eles na construção civil, ela nas limpezas, fizeram uma sociedade para alugar duas lojas que vendem cabelo natural, ao peso. "Bom negócio, muita procura", dizem, sem grande vontade de falar. Também parca em palavras, mas com o salão cheio, é a dona do cabeleireiro africano Angela. Meia dúzia de mulheres e dois bebés, a quem os cabelos estavam a ser entrançados, dão a ideia de que, além de salão de beleza, o pequeno espaço funciona como ponto de encontro.

Mais à frente, a brasileira Djane, 41 anos, que conta uma história de provações vencidas à custa de muito trabalho "a costurar cabelos", já conseguiu trazer para Portugal os filhos e tem clientes que vêm de todo o lado. Desde 2005 na Amadora, foram muitos os avanços e revezes, as solidariedades e desilusões, mas o saldo é positivo, diz numa voz serena. Casada hpje com um indiano que vende cabelos naturais também no Babilónia, queixa-se da concorrência desmesurada, que por vezes leva à diminuição do preço e da qualidade, mas o sorriso abre-se de novo para falar da sua participação no filme Sangue do Meu Sangue, de João Canijo, como patroa de Ivete. "Eles ficaram tão surpreendidos com o Babilónia que filmaram aqui algumas cenas", diz.

Finalmente, Nadeem, aquele que no início deste texto dizia que todos temos um sonho. Ele pôde concretizar o seu, aqui: ser comerciante. Vindo do Paquistão há vinte anos, conseguiu a sua loja há sete. E está feliz, apesar dos "corredores apertados e da concorrência".

Ao contrário da margem de lucro ("é preciso lutar muito no dia a dia"), a clientela é muita e vem de todo o lado. "O senhor Vítor, por exemplo, vem de Cascais. É preciso ser atencioso, ter sinceridade e dar atenção ao cliente, para ele voltar", diz com o mesmo sorriso que usa para devolver o cumprimento a duas clientes que passam ou para responder "sim, somos parecidos" a um homem que atira, agressivo: "Vocês são todos iguais."

Sim, aqui são todos iguais. Mas de forma diferente.

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