1864

Halloween

Minha mãe preta era uma bruxa

Minha mãe preta era uma bruxa. O rosto coalhado de rugas e a boca sem dentes. Uma índia cuspida do mato no meio da cidade, como ela mesma dizia, antes de soltar a gargalhada infernal. O nome dela era Jurema, "espinho suculento" em tupi-guarani, a língua dos caetés, povo selvagem do litoral brasileiro. Selvagem e antropófago. Os caetés devoraram dom Sardinha, religioso nascido em Évora, primeiro bispo do Brasil. Não só ele, mas toda a desafortunada tripulação da nau encalhada no São Francisco. Quem mandou ter nome de peixe? Melhor sorte conheceu dom Leitão, o substituto do bispo. Escapou ileso. Vai ver os caetés não gostavam de porco.

Nuno Artur Silva

Variações sobre o Tempo

O que é o tempo? Mistério maior, o tempo - é a substância de que somos feitos? E se não passar de uma ilusão, somos nós que o sonhamos ou é ele que nos sonha? Heráclito proclamou que tudo flui, num permanente devir, e que ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio: o rio já não é o mesmo e nós já não somos os mesmos numa segunda vez. A consciência do presente é uma perceção do nosso eu individual num momento impossível de isolar da sucessão de momentos a que chamamos a nossa vida. O presente é como uma fotografia. Um instante que se detém do que nunca se detém. Com essas fixações de sucessivos presentes construímos a nossa vida, como uma banda desenhada, ligando as várias imagens com o fio de uma história a que chamamos memória. Uma ficção. Se o instante é uma fotografia, pode o tempo ser como o cinema: não um continuum, mas uma ilusão de continuidade? Vinte e quatro imagens por segundo: não um rio, mas o contrário do rio, sucessivamente. Acontece que o que somos no presente é tanto a memória de termos sido quanto a antecipação do que podemos ser. No conto "O Relatório de Brodie" de Jorge Luís Borges, David Brodie, a personagem a que o título se refere, descreve no seu relatório a tribo dos Mlch ou Yahoos, um povo bárbaro, remoto e desconhecido*. Uma das suas particularidades seria a incapacidade de memória, outra a capacidade de previsão: "A memória falta aos Yahoos, ou quase não a têm. Falam dos estragos causados por uma invasão de leopardos, mas não sabem se os viram ou se foram os seus pais ou se estão a contar um sonho (...) Gozam também da faculdade de previsão. Declaram, com tranquila certeza, o que sucederá dentro de dez ou quinze minutos. Preveem, por exemplo: (...) Não tardaremos a ouvir o som de um pássaro (...) Sabemos que o passado, o presente e o futuro já estão, minúcia por minúcia, na profética memória de Deus, na Sua eternidade; o estranho é que os homens possam olhar indefinidamente para trás mas não para diante. Se me lembro com toda a nitidez daquele veleiro de alto bordo que veio da Noruega quando eu tinha apenas quatro anos, por que razão me surpreende o facto de que alguém seja capaz de prever o que está a ponto de ocorrer? Filosoficamente, a memória não é menos prodigiosa do que a adivinhação do futuro". Na novela "Story of Your Life", de Ted Chiang, tal como no filme que a adaptou para o cinema, "Arrival (Primeiro Encontro)", Louise, a personagem principal, uma linguista escolhida para decifrar a linguagem dos extraterrestres que chegaram à Terra, percebe que essa comunicação implica um conhecimento da sua vida futura. Esse conhecimento determina que Louise passe a viver a sua vida sabendo toda a alegria e plenitude que ela lhe trará e a inevitável e determinante tragédia que irá suceder. É uma maravilhosa fábula sobre o determinismo e o livre-arbítrio, a comunicação e a solidão, e o inextricável feitiço do tempo. O mistério do tempo tem desde sempre fascinado a espécie humana. A única espécie animal que sabe que vai morrer. Embora possa não saber como, nem quando. Mors certa, hora incerta. Se calhar, por isso, também somos o único animal que ri. Fintamos a inevitabilidade do tempo e da morte com o que a vida nos dá: o riso, a alegria e a beleza das histórias com que nos encantamos. Sabemos que elas são para as nossas vidas o que os relógios são para o tempo. Uma medida que nos une - temporariamente - na imparável entropia do universo. Ficções. Há uns anos escrevi um livro de pequenas prosas que eram variações sobre a ideia do tempo e a que dei o título: "As Passagens do Tempo". Nele constava este texto, intitulado "Diferença Horária", com que termino esta crónica: "Os relógios na parede marcam a diferença horária das cidades do mundo. São ainda oito horas em Nova Iorque, nove no Rio de janeiro, enquanto aqui, em Lisboa, são treze. Em Roma são catorze horas, no Cairo quinze, em Hong-Kong vinte horas, em Sidney vinte e duas, e na ilha deserta de Tu, no Pacífico Sul, a sul de Tonga-Tapu, zero horas de outro dia. De pessoa para pessoa também há uma diferença horária, de minutos, segundos, menos de um segundo, quase impercetível. Uma diferença não assinalada pelos relógios. Impossível de medir, a não ser pelo amor, sempre tão desacertado".