O "caos" de uma vila cercada

Na Misericórdia de Castanheira de Pera, a solidariedade parece querer vingar sobre o pânico, com os profissionais a acalmar as pessoas que fugiram do fogo, com tantas dúvidas e poucas respostas, numa vila que esteve cercada e incomunicável.

Uma médica de Lisboa de passagem pela sua terra natal acabou a prestar cuidados durante dois dias na Santa Casa e uma enfermeira, com seis meses de experiência, teve de lidar com o "caos" de uma vila cercada.

A Santa Casa de Castanheira de Pera, um dos concelhos fustigados pelo incêndio que começou no sábado em Pedrógão Grande, distrito de Leiria, serviu para tudo nos últimos três dias. Foi descanso, amparo, posto de saúde, dormitório, refeitório, ponto de encontro e, até, o local de referência para ligar a familiares - o único sítio com rede na vila durante bastante tempo.

"Tivemos uma médica, chamada Rosa Tomás, dois dias aqui, connosco na Santa Casa, que veio oferecer-se para prestar apoio médico. É médica em Lisboa, mas estava em Sarzedas de São Pedro, terra natal. Foi incansável. Dois dias sem parar. E as nossas enfermeiras também sem parar", sublinhou Vítor Silva, provedor da instituição de Castanheira de Pera, com a voz rouca do fumo.

Dos 30 utentes a quem a instituição prestava apoio domiciliário e serviço de centro de dia, três morreram no incêndio, contabilizou, após uma visita às suas casas.

"Nunca tinha visto nada disto. Nunca desta dimensão. A vila ficou completamente rodeada. Ficámos sem comunicações. Quando entrei no centro de saúde, caiu-me tudo", disse à agência Lusa Vítor Silva.

O seu gabinete serviu de dormitório, sendo que pelos dois locais da instituição passaram mais de 150 pessoas.

"Algumas vieram só comer, outras vieram dormir, muita gente dormiu sentada, que não havia colchões para toda a gente", conta a contabilista da Santa Casa, Margarida, que ainda não pregou olho.

Até à instituição chegavam também pessoas à procura de familiares ou amigos, ou vinham apenas "para conseguirem fazer chamadas. Havia um sítio exato: nas escadas [de entrada], no terceiro degrau, em que o telemóvel tinha de estar numa determinada posição", contou.

O ambiente parece agora calmo. Apesar disso, há olhares apreensivos e cansados, idosos pedem para ir para casa - para saberem como está a sua habitação ou os seus animais - e, na cozinha da instituição, há sinais mais evidentes de uma terra em luto, ouvindo-se uma funcionária do estabelecimento a chorar.

Cristiana Rodrigues, enfermeira de 23 anos que começou a trabalhar em dezembro de 2016 na Santa Casa, teve de lidar com "o caos completo".

"Foi tudo muito rápido. Estava em casa, descansada, não tinha noção do que se estava a passar, que vivo no norte do concelho, e chamaram-me a mim e à minha colega Mariana [outra enfermeira da instituição]", disse, acrescentando que vieram logo acudir às pessoas.

Urgências, pessoas a precisarem de oxigénio, "bastantes hipertensões", ansiedade, agitação e nervosismo foram os problemas com que se depararam.

Até agora dormiu uma hora, sendo que sábado foi a noite de maior pânico, "com muitas pessoas a perguntarem por familiares e amigos".

"Não sabiam onde estava o pai, a filha, a tia, a prima e nós não conseguíamos responder", diz a enfermeira, que pelo meio teve de lidar com uma criança em choque, "que não sabia o que tinha acontecido".

"É uma experiência bastante traumatizante, principalmente para quem viu o perigo mais de perto, principalmente para as crianças", sublinhou Cristiana.

Em Castanheira, toda a gente parece cansada, numa vila onde o fumo continua muito presente, com o cheiro de mato queimado a sentir-se até dentro da Santa Casa da Misericórdia.

Apesar da situação, uma funcionária da Segurança Social de Leiria sublinhou que a solidariedade que se fez sentir foi crucial para um ambiente calmo, dentro do possível, com todos a procurarem dar apoio, principalmente aos idosos.

"Fale da humanidade, da solidariedade e da entreajuda que aqui se encontra. É impressionante", pediu a funcionária da Segurança Social.

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