Contágio emocional. Felicidade e tristeza pegam-se como a gripe

Açao do Dia da Felicidade, feita pela Associação Terra dos Sonhos na Avenida da Liberdade, em Março do ano passado

Sentir o que os outros sentem é comum e muitas vezes inconsciente. Sucesso ou medo podem ser contagiados pelos mais próximos

Não é uma gripe, mas pode dizer-se que se contagia como tal. As emoções das outras pessoas, sobretudo as que nos são mais próximas, podem influenciar as nossas. Um mecanismo muitas vezes inconsciente que nos faz sentir alegres ou confiantes quando alguém de quem gostamos se sente assim, ou invadidos pelo medo e pela tristeza. Mas o contágio emocional, assim é chamado pela psicologia, também pode dar-se com acontecimentos extraordinários que nos fazem pensar, como os atentados de Paris.

"As emoções são contagiosas, parecem um fenómeno que apanha todos. Pode ser um fenómeno social explícito, em que é uma procura consciente de sentir o mesmo, como acontece com um jogo de futebol, pode ser social implícito em que não há consciência ou um fenómeno quase biológico, que não se percebe mas que acontece com a química da atração", explica ao DN o psicólogo Vítor Coelho.

Nos últimos anos vários investigadores, sobretudo ligados a universidades norte-americanas, têm estudado este contágio e a forma como as emoções dos outros influenciam as nossas. Caso do psicólogo da Universidade de Chicago, John Cacioppo, que refere num estudo que as pessoas que estão perto de outras que se sentem solitárias acabam por assumir essa sensação de falta de companhia. Também os investigadores Lisa Neff, da Universidade do Texas, e Benjamin Karney, da Universidade da Califórnia, estudaram o mesmo fenómeno em casais e como o stress influenciava o parceiro.

O sucesso que se pega

Os sentimentos bons também se pegam. "No caso do êxito também se aplica o contágio emocional. A razão é básica: as pessoas procuram as emoções positivas. Por exemplo, quem é vizinho do casal que ganhou o euromilhões vai querer falar disso. Procurar o sucesso faz-nos sentir bem connosco próprios. Há a forma como nos vemos, a autoestima, e a forma como gostaríamos de nos ver. Mesmo que seja inconscientemente", refere o psicólogo Vítor Coelho.

O mesmo acontece com pessoas que vivem juntas. "É a mimetização. Há uma sincronização inconsciente. Pessoas que moram juntas e que ficam com os tiques dos outros, que andam e falam da mesma maneira. Na paixão nota--se mais. Embora existam outras que querem partilhar os gostos", acrescenta, dando ainda mais um exemplo de partilha de emoções, embora mais consciente: "É o sentimento por osmose, em que nos associamos a outros, caso de um jogo de futebol ou pertencer a um clube, em que há partilha de vários elementos."

O contágio do medo e da angústia

O contágio das emoções também acontece com a angústia e com o medo. Os atentados em Paris são o exemplo mais recente. "Somos mais sensíveis às emoções das pessoas que nos são próximas, como o que aconteceu com os atentados. Há uma proximidade física, geográfica, de identificação de valores. Depois há também o pensamento atribucional, quando uma coisa muito importante ou relevante nos obriga a pensar nela. Quando vivemos o nosso dia-a-dia normal não esperamos ser arrastados pela tragédia ou por uma situação de pânico. São situações muito importantes que nos levam a pensar sobre aquilo, a refletir. Também somos contagiados pelo que os outros esperam de nós", diz Vítor Coelho.

Doenças imaginárias

São vários os casos de reações em massa sem explicações clínicas. Segundo vários investigadores não é preciso uma causa física para que as pessoas se sintam doentes. Entre alguns dos exemplos mais conhecidos está o caso de um grupo de 20 adolescentes que em 2012 mostrou sintomas semelhantes ao da síndrome de Tourette (um transtorno que se caracteriza por vários tiques de origem hereditária). O diagnóstico foi psicose coletiva. De acordo com a investigadora Martínez Selva, citada num artigo do jornal espanhol El País, são estas transmissões emocionais de psicose coletiva que podem levar pessoas a cometer atos violentos.

Há outros casos como ataques de comichão, um pouco à semelhança do que acontece com o bocejo, em que alguém se coça e a reação automática é sentir também comichão. O fenómeno foi estudado por um grupo de dermatologistas estrangeiros, que apontaram os neurónios-espelho como possíveis responsáveis por esta imitação.

O stress aqui ao lado

O stress dos outros é igualmente contagioso. Quando alguém está ansioso, nervoso, é normal que quem está ao seu lado tenha a mesma sensação. Acontece no trabalho e em casa, entre casais. Alguns estudos mostram que os homens acabam por ser mais afetados do que as mulheres, no último caso. A emoção pode ter consequências físicas, levando por exemplo a comportamentos mais compulsivos como exagerar na quantidade de comida ingerida.

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