Como não gritar com os miúdos quando se está à beira de um ataque de nervos

Magda Dias é a autora do livro

Os berros provocam afastamento. Identificar as situações que o deixam fora de si é o primeiro passo para deixar de gritar com o seu filho. Quanto mais treinar, mais rapidamente chega ao tom em que quer falar

Na infância, Daniel Tavares era "um miúdo complicado". A mãe gritava imenso, o que, na maioria das vezes, só piorava a situação. Quando foi pai, há seis anos, decidiu que não iria berrar com o filho. "Claro que às vezes tenho vontade, mas contenho-me. Se o fizer, o João vai ficar ansioso e stressado e com vontade de ripostar. O mais certo é entrarmos em conflito." Sempre que é preciso, Daniel usa um tom "um pouco mais ríspido". E geralmente só grita numa situação de perigo eminente.

Nenhum pai gosta de passar os dias a berrar com os filhos. É esta a convicção de Magda Gomes Dias (formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais), que esta semana lançou o livro "Berra-me baixo." Contudo, muitos pais "permitem" que isso aconteça. Na verdade, diz, a culpa de gritarem é dos pais e não dos filhos. A maior parte dos educadores, prossegue, sente-se "culpada e perdida porque não sabe gerir" aquilo que os faz gritar. E quando o fazem, os pais estão a "provocar afastamento: com crianças pequenas a situação só vai piorar, porque ela tende a chorar. Fica com a ideia que é desadequada e que não sabe fazer as coisas."A longo termo, isso provocará "baixa auto-estima."

Há uma grande diferença entre ralhar e gritar. "Os pais ralham para corrigir comportamentos. E isso tem de ser feito continuamente." Mas gritar "é desnecessário". Ao longo de mais de 150 páginas, Magda Gomes Dias dá algumas dicas para que os pais deixem de berrar com as crianças em 21 dias. Mas o objetivo, esclarece, "não é que deixem de gritar, é que possam ter melhores relações com os filhos." Além de ser "frustrante" começar a manhã aos berros, "depois dos gritos, as crianças não ouvem o que é dito pelos pais."

O que faz os pais gritarem?

Na primeira semana, os pais devem tomar consciência do que os faz gritar, do que os deixa com o chamado "nervoso miudinho." Formadora na área da parentalidade, Magda conta quais os momentos em que os pais mais frequentemente perdem a cabeça: quando os filhos não os ouvem, se pegam com os irmãos, desarrumam a casa, não se despacham, choramingam sem parar, não cooperam.

Segue-se a semana do "vínculo", aquela em que é trabalhada a relação entre pais e filhos, com "três ingredientes: firmeza, mimo e paciência". Em primeiro lugar, é importante que passem tempo de qualidade juntos. Depois, sabendo o que o faz gritar, deve pensar como quer atuar da próxima vez. Quanto mais treinar, refere Magda, mais rapidamente chega ao tom em que quer dizer as coisas. Nesta fase, a formadora aconselha os pais a "aprenderem a respirar e a terem tempo para si." Isto porque quando se sentem bem, "têm mais jogo de cintura para lidar com os miúdos."

"Aprender a escutar", ou seja, entender as motivações da criança é outra sugestão para a segunda semana. Por fim, Magda Dias destaca o mimo, o colo e as brincadeiras, sem no entanto, esquecer a imposição de limites. As crianças devem conhecer as regras e saber quais as consequências para quando as infringem. Por exemplo, o pai avisa o filho que não há tablets em cima da mesa. Se não cumprir, fica sem tablet nesse dia e no dia seguinte. "Quando a criança infringe, não tenho de gritar. Aplico a consequência. E da próxima vez vai estar atenta", explica.

Na terceira semana, a proposta é para os pais entrarem em "estágio". Como o nome indica, é a semana em que vão lidar com aquilo que os faz descontrolarem-se, tentando agir da forma adequada. Por último, a semana da "maturidade". Ao fim de três semanas, é suposto os pais estarem mais serenos e conseguirem perceber "aquilo que querem ser enquanto pais." Uma das sugestões de Magda Dias é que seja usado o humor como forma de "aligeirar as situações". Também sugere, por exemplo, que as crianças sejam acordadas com mimos, "devagarinho e em sussurro".

Desde 2010, altura em que lançou o desafio no blogue "Mum's the boss", Magda conta já com a participação de 14 mil pessoas. "Algumas deixaram de gritar, outras não." Mas, na maioria dos casos, "as relações transformam-se." Não custa tentar.

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