Beber para esquecer? Não vale a pena. Álcool reforça as más recordações

Cientistas alertaram que a noção de que beber é prejudicial para a aprendizagem e memória não é errada

Investigadores acreditam que os resultados do estudo podem ajudar no tratamento de pessoas que sofrem de stresse pós traumático

A velha máxima de beber "para afogar as mágoas" pode até funcionar, mas só durante algumas horas. Um estudo feito nos Estados Unidos revela que as más recordações, aquelas que normalmente se procuram esquecer, parecem fixar-se melhor na memória após o consumo de quantidades significativas de álcool.
O trabalho conduzido por investigadores da Universidade John Hopkins, de Baltimore, nos EUA, foi publicado recentemente na revista Translational Psychiatry. Para estudar os efeitos do consumo de bebidas alcoólicas, os cientistas usaram ratos de laboratório, divididos em dois grupos: um bebeu água, outro grandes quantidades de álcool. De seguida, os animais ouviram um som, que antecedeu uma descarga elétrica. No dia seguinte, conta o El País, quando ouviram o mesmo som, os ratos que tinham bebido álcool tinham mais medo do que aqueles que tinham ingerido água, o que leva a concluir que recordavam melhor a descarga elétrica. Esse medo foi medido pelo tempo de "congelamento" aquando do toque.
Uma das conclusões a que chegaram os investigadores é que o álcool perpetua a sensação de medo, o que está relacionado com a forma como os seus compostos se ligam aos recetores do neurotransmissor glutamato. Esta interfere com as sinapses - comunicação entre os neurónios -, fazendo com que os animais não se esqueçam da má experiência anterior.
De acordo com os autores do estudo, 60 a 80% das pessoas com stresse pós-traumático bebem álcool frequentemente.
Para já, a pesquisa ainda não foi feita com seres humanos, mas os investigadores acreditam que, no futuro, poderá conduzir a novas opções de tratamento de alguns problemas de saúde mental. "Se os efeitos do álcool nas memórias desagradáveis forem semelhantes nos humanos ao que observámos nos ratos, o nosso trabalho ajuda a perceber melhor como funcionam estas memórias e a direcionar melhor as terapias em pessoas que sofram de stresse pós-traumático", disse Norman Haughey, professor de neurologia na Universidade John Hopkins, citado pela News Medical. A ideia de que o álcool tem benefícios na memória já não é nova. Em 2011, investigadores da Universidade do Texas, nos EUA, descobriram que o consumo de bebidas alcoólicas estimula certas partes do cérebro para aprender e lembrar melhor. No entanto, os cientistas alertaram que a noção de que beber é prejudicial para a aprendizagem e memória não é errada. O que se passa, explicaram, é que o consumo regular de álcool aumenta a plasticidade sinática numa área-chave do cérebro. Se por um lado faz esquecer o nome do colega de trabalho, do lugar onde deixou o carro ou a definição de uma palavra, também torna os consumidores mais recetivos, no que diz respeito à memória subconsciente relativa a comida e músicas, por exemplo.
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Contactado pelo DN, o neurologista Lopes Lima mostrou-se surpreendido com os resultados da pesquisa. "O que está provado cientificamente é que a memória tem a ver com o aumento das sinapses - ligações dos neurónios uns com os outros - e que fica prejudicada quando a pessoa toma benzodiazepinas. Estas diminuem a intensidade das ligações. E o álcool tem um mecanismo de ação parecido", explica.
Ressalvando que não conhece os pormenores da investigação, o neurologista adiantou ao DN que se sabe que "as bebidas alcoólicas relaxam e, ao acalmar, a pessoa deixa de se importar tanto com as notícias más".

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