André Couto: "Quero que Campolide deixe de ser o primo pobre de Campo de Ourique"

A abertura às questões de quem o elegeu e a disponibilidade para consultá-los e recebê-los na Junta de Freguesia de Campolide, para a qual foi eleito aos 26 anos e que lidera há dois mandatos, é a sua marca. A par das obras desenvolvidas no bairro que diz ser ainda o primo pobre de Campo de Ourique

Tem quase 35 anos, é presidente da junta há oito. O que lhe falta fazer neste último mandato?

Concluir o trabalho que já fiz, nomeadamente o Campolide 100% Seguro. O projeto é uma parceria com a Câmara Municipal de Lisboa que tinha como objetivo pôr uma zona antiga da cidade 100% segura para a circulação pedonal. Fernando Medina escolheu Campolide, também pela questão da consulta popular que fizemos sobre a calçada. Outro projeto tem que ver com as duas zonas mais carenciadas da freguesia: a conclusão do trabalho na Quinta da Bela Flor e nos bairros da Serafina e da Liberdade, para lá do Eixo Norte-Sul, uma zona esquecida da cidade para onde passou todo o tráfico de droga. Já foi assinado o plano de delegação de competências para o programa de intervenção prioritário para reabilitar toda aquela zona em termos sociais e urbanos e concluímos as três primeiras obras, mas também é um projeto a vários anos. E o resto vem por si, que é a afirmação de Campolide para deixar de ser aquele primo pobre de Campo de Ourique e passar a ser o que sempre devia ter sido, um bairro com história, identidade, tradições populares, que se afirma por si e não como parente pobre de outros.

A consulta aos moradores é um traço da sua liderança. Em 2012, já pedia por Facebook conselhos sobre empresas para fazer obras...

Ainda hoje muitas delas são consultadas. Quando é valor que implique concurso público usamos a plataforma de contratação, mas sempre que se trata de ajustes diretos convidamos as cerca de 17 empresas que temos na base de dados a apresentar propostas. Tem sido ótimo porque conseguimos esmagar preços e fazer intervenções mais baratas.

A comunicação direta com quem é afetado pela sua atividade foi pensada?

Quando fui eleito pela primeira vez, pensei: vou pôr-me na posição do cidadão comum. Sobretudo quando se vive uma crise de democracia tão profunda, na relação entre eleitores e eleitos, tinha de quebrar todas as barreiras. Isto é pensado, é o vetor mais importante da minha ação: demonstrar que pode haver proximidade entre cidadãos e quem gere a coisa pública em nome deles.

Mas pôr nas mãos dos cidadãos as decisões que foi eleito para tomar, não o desresponsabiliza de alguma forma?

As decisões são tomadas por mim.

Não vai contra a vontade da maioria.

Nós sentamo-nos e fazemos o projeto, pensamos a rua e o que queremos, e depois mostramo-lo às pessoas, pedimos sugestões, e vemos o que é incorporável e pode melhorar. Porque eu estou aqui mais dez meses, mas quem ali vive vai viver aquela obra mais dez, 20, 30 anos. Mas em última análise somos nós que decidimos. Por exemplo, havia alguma divisão sobre se devíamos criar mais estacionamento ou passeio e tive de chamar a minha decisão. Portanto, não estou a abdicar do meu poder mas a construir a cidade ouvindo as pessoas.

Porquê este ódio tão grande aos carros, porque é que não se pode ter espaço para peões e para automóveis?

Falo por Campolide e aqui estamos a tentar ter ambos. Temo-lo garantido no Campolide 100% Seguro, que há lugar para os carros e para as pessoas. E se na rua Professor Sousa da Câmara tirámos alguns lugares, criámos 50 na rua de Campolide.

Mas se calhar as pessoas que vivem na rua Professor Sousa da Câmara não querem ter de estacionar na rua de Campolide...

Nas sessões que tivemos conseguimos sair com quase unanimidade e até posso dizer que o foco de discussão na rua Professor Sousa da Câmara foi por não eliminarmos o estacionamento na segunda fase de intervenção. Optámos por não o fazer. Mas temos tentado criar equilíbrio. Não há aqui ódio aos automóveis, temos feito parcerias para abrir parques de estacionamento, usámos um terreno da paróquia de Santo António de Campolide ali na Villa Maria para isso, outro da câmara na Rua Conde de Nova Goa, o Mercado de Campolide, que estava fechado. Portanto temos tentado criar alternativas às pessoas e não acho que Campolide seja uma freguesia onde se odeia o estacionamento.

E isso não tem de ser acompanhado por uma rede de transportes que de facto sirva a freguesia?

Sem dúvida, mas nisso acho que a municipalização da Carris vai resolver em grande medida. Faz sentido que quem gere a via, as prioridades, a sinalização, gira também os transportes públicos, para lhes dar prioridade. No modelo que existia só estava a haver desinvestimento na Carris e agora passando para a CML, com os meios de que a câmara dispõe e a forma como pode direcionar alguma da sua receita para a Carris, não tenho dúvidas de que o serviço de transportes em Lisboa vai sair a ganhar.

A sua abertura estende-se à oposição?

Tenho aqui um problema de falta de oposição: chamei CDU e PSD para construir o programa da freguesia para 2017 e eles faltaram; faltaram à primeira reunião da Assembleia de Freguesia. Para mim é importante ter uma oposição forte, que participe, proponha, tenha intervenção.

Essa abertura democrática é o oposto do que diz toda a oposição do presidente da CML. Como é que se relaciona com Fernando Medina?

Está a pedir-me para comentar a ação política do presidente da CML.

Estou a perguntar como se relaciona.

A nossa relação com o presidente da CML é boa, ele tem tido momentos bons, sobretudo ao confiar muitas coisas às juntas, o que tem permitido que muitas pequenas obras em Lisboa acontecessem com mais rapidez. Depois há a questão mais polémica da reação dele com a oposição e quanto a isso também posso dar a minha opinião. A questão mais polémica foi o eixo central e eu hoje circulo ali, eu cidadão e não presidente da junta, e vejo um eixo diferente para melhor, não vejo problemas ou caos que a oposição disse que existiriam, portanto acho que em especial aqui se esvazia um pouco as críticas. Em relação a se ele devia ouvir mais, eu vi-o fazer muitas sessões participadas com as pessoas, aqui fizemos duas com o vereador Manuel Salgado sobre a praça de Campolide, houve muitas sobre o eixo central. Portanto também não acho que não tenha ouvido as pessoas, mas a uma escala de câmara é mais difícil do que a uma de junta.

Uma maior autonomia autárquica é uma vantagem?

É. O atual primeiro-ministro deixou um legado fantástico de delegação de competências nas juntas, que melhoraram muito o exercício destes poderes de proximidade, a nível de higiene urbana, espaços verdes, ação social, cuidados de manutenção nas escolas. Hoje a maioria está preparada para uma segunda geração de delegação de competências.

Já não há tanto risco de corrupção no poder local?

O nosso bloco legal e as regras de contratação reduziram muito essas possibilidades. As juntas são, felizmente, alvo de controlo e escrutínio não só político, por parte das pessoas, mas também do Tribunal de Contas, e somos obrigados a ser acompanhados por revisores oficiais de contas - que não atestam algo que acham que está a funcionar mal. Tudo isto dá uma série de garantias.

Portanto há um sistema de checks and balances que já filtra muito.

Sim. Não me passa pela cabeça que não continue a existir alguma corrupção, no público como no privado - tendemos a fazer um tipo de julgamento do que acontece no público e achar que não se passa no privado, mas acontece em todo o lado. Mas essa questão que antigamente se punha já não se coloca.

Disse que andou os primeiros dois anos a pagar dívidas. Como é que estão as contas de Campolide hoje?

A primeira coisa que fizemos aqui foi um pedido de auditoria, cujo resultado entregámos ao Ministério Público e tanto quanto sei a última sessão desse julgamento aconteceu há 15 dias - o caso está em segredo de justiça. Mas posso dizer que encontrámos a junta em falência técnica. Para um orçamento anual de 800 mil euros, havia 300 mil de dívidas, meses de salários em atraso, foi muito complicado. A nossa preocupação foi resolver isto, aumentando a dimensão da junta. Passámos o orçamento para 2 mil milhões ainda antes da reforma administrativa e já subiu mais. Portanto, a ideia foi criar cada vez mais serviços e fazer a gestão o melhor possível. Hoje temos passivo de curto prazo, somos exemplares nos prazos... e conseguimos criar algum equilíbrio e captar investimento, tanto municipal como, com parceiros locais, ir buscar fundos comunitários para realizar projetos.

Alguns deles visam ajudar a comunidade a melhorar-se, como o Pago com Lixo. Como está a correr?

Tivemos de parar no Natal para fazer ajustes porque alguns aspetos não estavam a funcionar - os portugueses são ótimos a encontrar falhas nos sistemas...

Mas havia quem tentasse fazer negócio com a moeda local?

Havia quem abusasse. Havia um limite de 5 euros por pessoa/dia, mas ia o pai às 10.00 trocar senhas por dinheiro, o filho às 10.15, o outro filho às 10.30, depois a mãe... Ora a ideia era que isto tivesse uma componente pedagógica e simbólica e tivemos de criar defesas no regulamento. Por exemplo, as crianças têm de ir acompanhadas por um dos pais e restringimos o acesso a recenseados em Campolide. Mas está a ter bons resultados - colocou as pessoas a debater a importância de separar os resíduos - e vamos mantê-lo no próximo ano.

O André não é um político de carreira, mas começou aqui ainda antes de terminar o curso.

É verdade, mas não, não no sentido de pertencer a uma juventude partidária, depois um partido político e por aí fora.

E como é que isto lhe aconteceu?

Eu fiz um percurso na Associação Académica e depois na direção da Faculdade de Direito de Lisboa e gostei muito. E pensei: quando sair quero inscrever-me num partido. Nessa altura estudei as opções que tinha e inscrevi-me no PS, apesar de a generalidade da minha família ser PSD. Então fui desafiado para a junta, para lançar um candidato novo e fazer oposição e acho que o facto de ser daqui e de as pessoas me conhecerem desde pequeno... ser tão novo foi o meu principal trunfo na altura.

Quando ganhou não ficou sem saber o que fazer?

Os primeiros tempos foram de aprendizagem e conhecimento, mas foi-se resolvendo tudo. E tenho tido o cuidado de não descurar o resto, a minha formação. Já fiz um MBA no ISCTE, estou a terminar a tese de mestrado e eventualmente irei para doutoramento. Não quero parar, acho essencial que um político tenha liberdade e independência.

Mas já se vê como um político?

Um político, para mim, é quem exerce funções políticas, o gestor da coisa pública que define políticas de gestão. Nesse aspeto, tenho de considerar-me político. Mas quero manter a liberdade e fazer o meu percurso, seja na política, fora ou dentro e fora. Saber que a qualquer altura tenho instrumentos para gerir a minha vida é muito importante.

A CML é um projeto para si?

Não estou pensar nisso. Quero terminar o mandato e criar condições pessoais para um dia poder agarrar qualquer oportunidade. Se é no privado, no setor empresarial do Estado, na câmara, não estou a pensar em nada. Não estou a fazer este percurso com um objetivo. Estou a evoluir nas minhas competências e ferramentas, para poder responder afirmativamente a qualquer competência um dia, se possível com a qualidade que acho que as pessoas reconhecem no meu trabalho aqui.

E se o chamassem para a CML?

Não vão chamar.

Um dia mais tarde.

Quem trabalha numa junta e gosta, nunca diria que não a um desafio de vereação na câmara. Mas não está na minha lista de preocupações, até porque sei que não é uma realidade. Neste momento estou focado na minha candidatura a Campolide.

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