A vida de quem toma conta do "lugar sagrado"

Otília Vieira trabalha há 40 anos no Santuário. É a responsável pelo serviço de paramentaria - trata das hóstias, das alfaias e das flores - e é quem enfeita o andor de Nossa Senhora de Fátima

Há uma história por detrás de cada uma dos 311 funcionários do Santuário, que o departamento de recursos humanos organiza como se fora uma empresa. É lá que trabalham Otília, Madalena, André, Joaquim, Pedro ou Manuel. Orçamentista da construção civil que agora é vigilante, a técnica de turismo que nunca conheceu outro emprego, o empresário que mudou de vida e é hoje assistente espiritual, o posto de trabalho que mais curiosidade suscita em Fátima

As águas de março varreram o pó das ruas, mas no piso do recinto fica a impressão de nunca ter chovido, de nunca o vento ter levado ali uma folha, como se aquele fosse (mesmo) um lugar sagrado, à prova de todas as condições meteorológicas. A limpeza faz-se a horas certas, na rua e no interior, e dentro dos diversos edifícios que integram o Santuário de Fátima tudo está no seu lugar, graças ao trabalho de mais de 300 funcionários. Estão distribuídos por serviços tão diversos como a Reitoria, Ambiente e Construções, Alojamentos, Administração, Doentes, Estudos e Difusão, Promoção e Preservação do Ambiente, Pastoral Litúrgica, Peregrinos e o serviço Executivo do Centenário das Aparições, que a 13 de maio próximo atingirá o apogeu, com a vinda do Papa Francisco.

Otília Vieira - Da paramentaria ao andor

Fez agora 40 anos que Otília Vieira ali começou a trabalhar a menina nascida em Santa Catarina da Serra, 16 anos acabados de fazer, levada pelas irmãs que já trabalhavam por ali. Hoje, que já tem 56, não se imagina a fazer mais nada na vida. Nesta manhã clara que antecede abril, o serviço de paramentaria está quase deserto, mas as mochilas de dois jovens padres ali pousadas denunciam que já teve atividade, mesmo cedo. "Por vezes há missas às quatro ou cinco manhã, por isso convém deixar tudo pronto no dia anterior", conta Otília, enquanto arruma as vestes de padres e bispos. Cumpre habitualmente um horário fixo, das 08.00 às 17.00. Com ela trabalham mais nove pessoas, um grupo que trata da limpeza de todos os espaços litúrgicos e cuida dos paramentos, a maioria lavados na rouparia. "Outros mandamos limpar a seco. Depende dos tecidos", conta a mulher que também tem outra tarefa importante: enfeitar o andor de Nossa Senhora. Desta vez haverá uma florista "que se ofereceu" para ajudar nas celebrações do 13 de Maio, mas quando o papa Bento XVI visitou o Santuário, em 2010, foi Otília quem colocou cada uma das 20 rosas brancas multiplicadas por 30 molhos. Já trabalhava naquele serviço quando o papa João Paulo II ali esteve, por duas vezes, mas nesse tempo o andor não era tarefa sua. Na última das visitas, aconteceu-lhe um dos episódios que mais a marcou. "Uma das maiorias alegrias que tive aqui foi conhecer a irmã Lúcia. Foi o padre [Luís] Kondor que me veio chamar quando ela foi visitar os túmulos dos primos." De resto, quase toda a gente que trabalha no Santuário tem para contar uma história com o postulador da causa da beatificação dos pastorinhos, falecido em 2009.

Pedro Santa Marta - O engenheiro que preside os Servitas

"Era um homem extraordinário", há de dizer mais tarde Pedro Santa Marta, o engenheiro químico de profissão, que em junho comemora 40 anos ao serviço da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima. Alentejano de nascimento, foi parar ao Ribatejo pela via do casamento com uma médica. "E logo no ano em que me casei, a minha mulher veio acompanhar um grupo na peregrinação dos doentes. Estava ali sentado junto à Capela de Nossa Senhora das Dores, à espera dela, quando um irmão meu que já era servita me perguntou se não queria ajudar. Puseram-me uma braçadeira amarela no braço, e foi assim, até hoje." Era junho de 1977, tinha apenas 25 anos, e começou aí uma caminhada de voluntariado que já o levou a todos os serviços da organização nascida em 1924. Agora preside a direção, mas já coordenou os serviços de saúde, por exemplo, que os peregrinos conhecem como o "lava-pés", onde médicos e enfermeiros tratam das mazelas causadas pelas longas caminhadas até Fátima. "É um serviço destinado aos que chegam a pé. Fazem-se massagens, desinfetam-se feridas, mas é o serviço que tem notado menos afluência de pessoas nos últimos anos", revela Pedro Santa Marta, justificando a mudança com os sinais dos tempos: "Hoje as pessoas vêm mais organizadas e com outros cuidados. Depois, ao longo do caminho, quer a Ordem de Malta quer a associação da Mensagem de Fátima dão muito apoio." Apesar de voluntário, o trabalho dos servitas é feito de forma bastante organizada, em estreita articulação com o Santuário. "Recebemos muito mais do que damos", considera o presidente, um entre os mais de 400 servitas que se distribuem pelas várias peregrinações ao longo do ano, e que passam por processos de seleção, formação e experiência. "Nós não somos melhores que os outros. É uma maneira que temos de servir, dentro da Igreja. Aqui não atendemos utentes, acolhemos peregrinos", insiste Santa Marta, o homem que um dia, nessa peregrinação de 2000, durante a missa de João Paulo II, estava incumbido de acompanhar a irmã Lúcia à comunhão e trazê-la para o lugar. No final, depois das cerimónias, levava-a para o carro (a ela e à madre superiora do Carmelo), na parte de trás da basílica. Acabada a missa, começa a Procissão do Adeus. "O senhor padre Kondor disse: "Ó irmã, chegue-se à frente para ver melhor." Há quem olhe para cima e grite "olha a Lúcia!" Veio tudo por aí acima. Apanhei o susto da minha vida. Estava apavorado, pois que a amassavam! Subimos as escadas. Não estava lá carro nenhum. Peguei nelas e meti-as na basílica." E ali ficaram fechadas, até que o servita encontrasse o carro e as conduzisse ao Carmelo. No mês seguinte, quando chegou a Fátima, Pedro Santa Marta tinha uma carta da madre e lá dentro um terço feito pela irmã Lúcia, que durante a viagem não lhe dissera uma palavra.

Joaquim Dias - O leigo do serviço de escuta

Ao telefone com um jovem de Paredes, Joaquim Dias espera pelo DN no átrio da Casa Nossa Senhora do Carmo. Do lado de lá está um jovem cuja mulher acabou de sofrer um aborto espontâneo, o que deixou o casal muito perturbado. Não tarda há de meter-se no carro e vir ao serviço de Escuta, inaugurado em dezembro de 2015 e entregue ao leigo Joaquim Dias. "Até do estrangeiro vêm cá. Não é um serviço anunciado mas não temos mãos a medir." Os mais de 700 atendimentos feitos em 2016 atestam essa procura crescente daquele "assistentes espiritual". Joaquim está à beira dos 50, é funcionário do Santuário, mas não vê esta missão como um trabalho. "Encaro como uma oferta que faço aos meus irmãos. Se Deus me deu esta graça de saber escutar, de nos momentos certos saber orientar... se fosse um trabalho não o faria tão bem feito." Em Fátima e na diocese cresce a curiosidade à volta deste ex-empresário formado em Sistemas de Refrigeração Automóvel, nascido em Miramar, Vila Nova de Gaia, a quem um acidente de viação fez mudar de vida. "Eu era uma pessoa muito ambiciosa, gananciosa, que só vivia para ter dinheiro. Tinha uma firma, que está hoje com o meu irmão mais novo." Naquele 4 de maio de 2002, "ia de carro na A28, a discutir ao telemóvel com a minha esposa, a mais de 160 km/hora, e fiz oito piões. Estava a chover, era hora de ponta. Não bati em ninguém. Pensaram que eu estava bêbado ou drogado. Quando entrei no carro da polícia, um deles diz: "Hoje, o de lá de cima olhou para si." E aquilo mexeu comigo", conta ao DN Joaquim Dias. De tal forma que mudou de vida. Um ano depois, numa visita ao Santuário de Fátima, a filha mais nova tropeçou nas pernas de D. Serafim Silva, então bispo da Diocese de Leiria. "Foi ele a chave para isto tudo", sublinha Joaquim, que em menos de nada se mudou para a comunidade Canção Nova, em Fátima, com a família. E de lá nunca mais saiu.

André - O vigilante

Foi a crise, em 2008, que levou André Silva a trocar a profissão de medidor orçamentista pela de vigilante no Santuário. E tem feito carreira nessa área o rapaz que desde 2013 chefia o vasto grupo de vigilantes do espaço, sem nunca revelar o número exato. No fato azul-escuro tem bordado o emblema do Santuário, por fora e por dentro. Afinal, André adaptou-se "muito facilmente". Gosta do que faz, considera-o um privilégio, mas acredita que nem toda a gente o pode fazer. "Lidamos muito com as pessoas, que chegam muitas vezes fragilizadas, e é preciso ter um certo treino de emoções, que só se ganha fazendo todos os dias."

Madalena - E o serviço informações

Após terminar o curso de Turismo, Madalena Jesus fez uma candidatura espontânea para trabalhar no Santuário. Ia lá muitas vezes, a partir de Alvados (Porto de Mós), onde ainda mora. Foi em 2003 e chamaram-na instantaneamente. Hoje é uma das sete pessoas que trabalham no serviço de informações aos peregrinos, numa das funções que considera mais importante ali: comunicar.

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