A simplificar transfusões e dar uma ajuda em oncologia

Num dos laboratórios da ESTeSC, Sofia Galvão (á esquerda) e Ana Sofia Ferreira fazem análises a amostras de sangue

Ciências biomédicas laboratoriais. Em Coimbra, à boleia de um sistema sanguíneo quase desconhecido, procura-se tornar transfusões e transplantes mais seguros

Quando se fala de grupos sanguíneos quase desconhecidos, anticorpos ou antigénios e se trata de temas como medicina transfusional e de transplantação ou oncologia, o assunto não é para leigos. No entanto, o tema é do interesse e pode mexer com a vida de qualquer um. Para o descomplicar, uma equipa da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC) está a de-senvolver o projeto Fors Cells, de células que exprimem o antigénio Forssman, com o objetivo de reduzir as complicações associadas a transplantes e transfusões de sangue e eventualmente dar uma ajuda na luta contra o cancro.

O projeto, coordenado por Fernando Mendes, professor, investigador e diretor do Departamento de Ciências Biomédicas Laboratoriais da ESTeSC, é um primeiro passo paralelo a uma outra caminhada mais abrangente, com a ambição de criar um dispositivo que permita fazer testes de compatibilidade de sangue de forma mais rápida, segura e barata (algo que pode revolucionar a realização de transfusões e transplantes em cenários de crise). Enquanto essa tecnologia inovadora - em estudo no mesmo departamento - está no segredo dos deuses, são a investigação sobre o sistema Forssman e as Fors Cells, igualmente pioneiras, que dão que falar.

A explicação do objeto desta investigação é quase tão complexa como as relações entre antigénios (substâncias estranhas ao organismo) e anticorpos (a resposta do sistema imunológico perante eles). "O nosso sistema imunológico identifica o que é nosso e o que não é nosso e tem uma resposta imunológica com a produção de anticorpos. Esta reação antigénio/anticorpo pode significar a rejeição do que está a ser transfundido [uma transfusão de sangue ou o transplante de um órgão e, se for aguda, causar a morte", descreve Fernando Mendes. Ora, as Fors Cells, células que permitem o fazer o rastreio do anticorpo anti-Forssman (relativo ao grupo sanguíneo homónimo), servirão para tentar evitar episódios do género, em utentes que poderiam rejeitar sangue ou órgãos provenientes de dadores do tipo sanguíneo Forssman. "Apesar de a incidência deste antigénio ser baixa, o nosso objetivo é contribuir para aumentar a segurança transfusional. Isso permitirá uma mais eficaz monitorização clínica do transplantado e uma melhor utilização dos parcos recursos do Serviço Nacional de Saúde", ressalva o responsável.

Um sistema pouco estudado

Iniciada em 2015/16, a investigação da ESTeSC começou à boleia dos conhecimentos e contactos trazidos pelo investigador Carlos Gaspar Jesus, que se familiarizara com o tema enquanto estudante, ao passar pela Universidade de Gotemburgo (Suécia), ao abrigo do programa Erasmus. "Ao contrário do que acontece com outros antigénios, dos quais sabemos quais são os efeitos e como é que os podemos mitigar, o sistema Forssman está pouco estudado a nível mundial: não se sabe qual é o impacto dele na transfusão e na transplantação", nota Fernando Mendes.

É essa lacuna que este projeto tenta preencher, procurando "perceber qual o impacto do anticorpo anti-Forssman na transplantação e qual a sua incidência e prevalência na população, para entender se as reações transfusionais de causa desconhecida não têm que ver especificamente com este grupo sanguíneo. "Na maior parte das reações transfusionais, em Portugal, conseguimos ter a causa identificada, mas entre 3% e 7% dos casos não se consegue descobrir porquê e contra o que é que a pessoa fez a reação", lembra o professor da ESTeSC.

As Fors Cells vêm simplificar essas tarefas. "O procedimento que era utilizado para fazermos o despiste de quem tem anticorpo e de quem não tem era demorado, necessitava de um tempo prolongado com incubação noturna e depois só poderíamos trabalhar com as células manipuladas por um máximo de 10/12 horas. A tecnologia não estava acessível à maioria da população e obrigava a muito trabalho e a ter pessoas com um know how muito específico para produzir estas células", recorda Fernando Mendes.

"Nós começámos a procurar soluções que nos permitissem rotineiramente, de forma estandardizada e reprodutível, a pesquisa deste anticorpo. E apresentámos uma solução que permite termos umas células que durante cerca de 40 dias expressam o antigénio, são viáveis e se podem manter rotineiramente num serviço de medicina e transplantação, para fazer o despiste do anticorpo", conclui o investigador e docente universitário.

O caminho do projeto Fors Cells está traçado - ao mesmo tempo que o grupo multidisciplinar da ESTeSC (composto por Ana Sofia Ferreira, Carlos Gaspar, Fernando Mendes, Paulo Teixeira e Sofia Galvão) continua a investigação sobre o sistema Forssman, em parcerias com instituições da Suécia, Palestina e Uganda, entre outras. Fernando Mendes espera que, depois de terminado o aperfeiçoamento da solução que contém as células e comprovada a sua viabilidade comercial, "no prazo máximo de dois anos", as Fors Cells possam chegar ao mercado, um pouco por todo o mundo.

Biomarcadores em oncologia

No entanto, a história não termina aí, já que o coletivo está a estudar a possibilidade de as Fors Cells funcionarem como biomarcadores [indicadores do estado e evolução da doença] em tumores gástricos, de pulmão, e colorretais - ou seja, darem uma eventual ajuda na luta contra o cancro. "Algumas publicações referem que há uma alteração deste biomarcador, deste anticorpo, após se retirar um tumor ou a sua diminuição de tamanho com tratamento e com a eventual recidiva ou metastatização. Nós [com a colaboração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e do Hospital Distrital da Figueira da Foz] estamos a estudar precisamente este biomarcador ao longo da doença, desde o momento zero (em que um indivíduo é diagnosticado), para perceber como se relaciona com ela", descreve Fernando Mendes. Caso a melhor expectativa da equipa se confirme, isso significa que se poderá "utilizar este biomarcador e sinalizar a evolução da doença quando um qualquer doente neoplásico faz análises de rotina". Ou seja, "ajudará imenso a fazer a monitorização" de doentes oncológicos e permitirá que os médicos, "no momento da decisão terapêutica, tenham acesso a mais dados que contribuam para um melhor tratamento".

"Hoje em dia o tratamento do cancro evolui cada vez mais para este tailored fit ("feito à medida). O que nós estamos a fazer é adicionar mais um parâmetro a esta medicina personalizada, que depois vai ter de ser correlacionado com o tumor, com o estádio do tumor, com o tratamento e com as próprias mutações que o tumor apresente", nota o docente universitário.

"Ter impacto na vida das pessoas"

"É uma solução simples, eficaz, que pode ser utilizada diariamente, de forma estandardizada, junto com análises de rotina. Não significa uma colheita extra [de sangue], nem é algo complexo de realizar a nível laboratorial", ressalva Fernando Mendes, admitindo que também esta evolução poderá ser de fácil utilização e despertar interesse comercial em qualquer canto do mundo, "seja China, Austrália, Argentina, EUA ou Cabo Verde". "O que queremos é aumentar o tempo de sobrevida dos doentes, livre de doença, e com qualidade", conclui.

Este trabalho de investigação é igualmente moroso. "Estamos a fazer um a triagem mais alargada para verificar a presença desse antigénio e, a partir dai, conseguir relacioná-lo com tudo aquilo que já foi referido, como os estádios da doença e o tempo de sobrevida. Como a incidência é relativamente baixa, provavelmente vamos demorar algum tempo", descreve Paulo Teixeira, especialista em anatomia patológica, também investigador e professor da ESTeSC.

No limite, as Fors Cells podem acabar por ser um projeto dois em um, uma solução para a medicina transfusional e de transplantação e também em oncologia. "Isto é sair do laboratório e ter impacto na vida de qualquer pessoa que precise de uma transfusão ou de um transplante ou que seja doente oncológico", completa Fernando Mendes: assim se pode facilitar a vida até dos que acham que este assunto não é para leigos.

Equipa multifacetada é "máquina bem oleada"

A fórmula junta professores e ex-alunos da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC), numa equipa multifacetada, que tem funcionado na perfeição. Com Fernando Mendes, de 44 anos, professor e investigador e diretor do Departamento de Ciências Biomédicas Laboratoriais, trabalham no projeto das Fors Cells Ana Sofia Ferreira (22 anos), Carlos Gaspar Jesus (23 anos) e Sofia Galvão (23 anos), técnicos de análises laboratoriais e ex-estudantes da instituição, e Paulo Teixeira (53 anos), técnico de anatomia patológica e professor da ESTeSC, que, "ao fim de uma série de anos a fazer o mesmo trabalho no dia--a-dia", sentiu o chamamento da investigação. Apesar das diferenças de idades e perfis entre todos, "a máquina está bem oleada", nota Fernando Mendes. "Está tão oleada que já sabemos o que o outro vai responder e o que é preciso fazer", sublinha. O espírito de camaradagem, que muitas vezes se estende noite dentro, "com conferências Skype a fazer trabalho científico, entre humor e gargalhadas", está na base do sucesso da equipa, diz o coordenador. "O nosso trabalho de equipa é fabuloso. Isto é único na vida", remata.

Desafio: "uma loucura que nos fez crescer muito"

Para Ana Sofia Ferreira e Sofia Galvão, a participação no projeto de investigação da ESTeSC em torno do sistema Forssman tem sido uma aventura, que nem estava nos planos - quando terminaram a licenciatura, em 2016 - mas rapidamente as conquistou. "Quando nos apresentaram isto - nunca pensámos na área da investigação - foi um desafio muito grande: tivemos de aprender a fazer projetos, organizarmo-nos ao minuto ou até ao segundo, fazer a parte laboratorial, ter reuniões, escrever projetos, procurar financiamento... É uma loucura, que nos fez crescer muito enquanto pessoas e enquanto profissionais", nota Sofia Galvão, feliz por ter evitado "cair numa rotina laboratorial em que todos os dias é feita mais ou menos a mesma coisa". Para Ana Sofia Ferreira, o projeto também abriu novos horizontes. "O objetivo era licenciarmo-nos e encontrar trabalho na área. Graças a esta investigação, pensamos de maneira completamente diferente. Estamos a aprender muito. E o que me entusiasma mais foi ter entrado assim nesta vertente, quando não estava à espera que acontecesse", ressalva.

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