À procura de Amadeu e de quem ficou a fazer frente ao fogo

DN esteve com os habitantes dos concelhos de Castanheira de Pera, Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos que procuram familiares e amigos

"O Amadeu? Viste o Amadeu? Não vem aí?" Mavilde Joaquim, 66 anos, professora reformada, pergunta pelo marido a quem entra no lar de Castanheira de Pera, onde está um dos cinco centros de apoio às vítimas dos fogos. Conhece todos, são vizinhos e/ou familiares. "Não havia lugar no carro que a trouxe de Pera, onde mora, até ao centro da cidade. O Amadeu ficou com um agente de GNR, à espera de novo socorro. Dizem-lhe para ficar tranquila, que o Amadeu há de aparecer, que está bem acompanhado. Ela justifica: "Se o fogo chegar à aldeia, a minha casa é a primeira a arder" "Olha a Paula! Paula, viste o Amadeu?" Outra mulher corre para a Paula. Abraçam-se.

Não há praticamente comunicações. Há uma operadora que ficou sem rede, não há internet nem televisão, falhou a luz e até a água de rede. Essa terá sido uma das razões, segundo os populares, pelas quais morreu tanta gente. Estavam no meio de chamas e não sabiam para onde fugir. Uma equipa de seis pessoas do Instituto de Medicina Legal ocupa-se dos mortos, que posteriormente serão transportados de Pedrógão Grande para a sede, em Coimbra. E há sempre alguém que pergunta por um familiar ou vizinho.

Nas palavras de Mavilde está a ansiedade de muitos habitantes dos concelhos de Castanheira de Pera, Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos, procuram pelos tios, sobrinhos, pais e mães. "As pessoas não querem sair de casa. Tentamos que percebam que a vida é mais importante, que não são os bens materiais. Querem tirar os animais. Querem saber o que se passa com quem ainda ficou em casa, como estão as coisas", conta Margarida Ferreira, psicóloga, voluntária da Cruz Vermelha, como todos os que estão a prestar apoio no Gimnodesportivo de Figueiró dos Vinhos.

A meio da tarde, são sobretudo idosos ou pessoas com problemas de saúde. A médica Tânia Ralha coordena as operações. São mais quatro médicos, quatro enfermeiros e várias equipas de socorristas e técnicos. Estão apetrechados com materiais de primeiros socorros e medicamentos, explicam a quem apoiam que estão preparadas para fazer face às suas necessidades médicas. "Nós vamos voltar para a nossa casa, o meu marido tem os remédios da noite para tomar. Vocês não sabem o que ele anda a tomar." Maria Fernanda, 84 anos, veio com o marido do lugar de Chão de Bairro, com a roupa que tinham, nem objetos pessoais trouxeram. "Está tudo a arder, mas temos esperança de que não chegue às casas. Com eles veio também o vizinho Manuel Alves, 70 anos, que tem "problemas de asma", conta.

Sem contar com as crianças e seus pais, Maria de Fátima Carvalho, 44 anos, doméstica, é das mais novas que se encontram no gimnodesportivo: "Sou doente, tomo muitos medicamentos", desabafa. Teve o cuidado de os trazer. E chora. "Vim eu e o meu irmão, tem os olhos muito vermelhos, está a ser tratado. Ele e o meu pai estiveram toda a noite a molhar a casa, tudo à volta, a limpar, para que as chamas não chegassem ao pé de nós. Mas o meu pai ficou lá, a tomar conta da oficina."

Há sopa mas ninguém quer comer, também não se agarram à fruta, talvez mais para a noite. Só a água sai com rapidez. Mas de todo o lado vem ajuda, muitos litros de água são doados, para quem ali mora, para os bombeiros e todas as equipas de socorro ou, simplesmente, para quem se encontra na IC8, interrompida à saída de Pedrógão Grande. Também entregam fraldas, roupas e outros bens.

Sem fim à vista

As labaredas entram em Castanheira de Pêra, a cinco metros da Urbanização das Piscinas, vivendas com dez anos, onde havia uma piscina municipal, que agora está desativada e bem perto foi construída uma praia artificial, com ondas mecânicas, a praia das Rocas. A preocupação são as casas, bombeiros e populares combatem as chamas e tentam evitar que as "projeções" se transformem em fogo.

Ana Abreu, 39 anos, desempregada, está em frente à casa. Uma vigilância que já dura desde as quatro da manhã, sem descanso. Com a cunhada, Ana Isabel, 37 anos, auxiliar de Educação, a quem apoiou na noite anterior, de guarda à habitação desta no Troviscal. Os filhos estão com uma tia, numa zona ardida o ano passado e esse facto é a única garantia de que não terão chamas por perto.

Fogo ativo perto da urbanização, 26 homens e oito carros de bombeiros que vieram de Pataias, Marinha Grande, Óbidos, Bombarral e Batalha, tudo corporações de Leiria. Pedem a Ana se podem encher o depósito de água na sua piscina. "Claro", ouvem como resposta. Chega entretanto um novo carro com água, não vai ser preciso para já.

O céu tem um capacete de fumo, parece que está a anoitecer quando são cinco horas da tarde. Calor intenso, fumo quase insuportável no centro de Castanheira de Pêra. Várias aldeias evacuadas, os habitantes chegam ao lar que está e frente ao quartel dos bombeiros. Vêm de Pera, Amial, Vilar, Torgal e Bolo, entre outros lugares.

"A minha filha mais velha disse para irmos para Lisboa ontem quando viu as chamas. Ainda bem que não fui, agora não sei quando vou regressar, mas houve pessoas que estavam na praia das Rocas, viram o fumo e decidiram regressar, ficaram na estrada. É uma tragédia "António Oliveira, 53 anos, está com mulher, Paula Oliveira, 52, a cunhada, Olinda, 56 e a filha, Carina, de 28. Umas mini-férias passada numa casa de família recuperada, moram na Sobreda, em Almada. "Isto era lindo. Mostrava fotografias e as pessoas nem acreditavam que pudesse haver paisagens destas no centro do país", conta Paula.

As aldeias mais atingidas ficam num vale, um imenso manto verde, pinheiros mas também muitos eucaliptos, agora vestido de preto e transformado em cinzas. Era uma paisagem lindíssima, com praia artificial e praias fluviais, para onde muita gente corre a partir de junho. Também muitos turistas, ainda mais esta semana de feriados.

Em Pedrógão Grande parece que tudo ardeu, que já não há mais nada para queimar. Mas continuam a evacuar lugares no concelho para a Santa Casa da Misericórdia. É a GNR que faz a evacuação, como na generalidade dos outros concelhos. As pessoas são registadas, os problemas de saúde tratados, depois levadas para uma sala onde irão dormir. Colchões e sacos-cama por todo o lado, em todos os centros de apoio.

Choram por familiares que vieram com eles, pelos animais, pelas casas, pelas terras. Um agente da GNR conta que teve de ir buscar um idoso ao telhado de casa, não queria sair. Acabam de chegar de Derreadas Cimeira. Conceição Raposo, 81 anos, diz que "o fogo está mesmo à porta", E dormiu esta noite? "Tanto como estou a dormir agora". Estava em casa da vizinha, Irene Martins, 61 anos, a quem um acidente de trabalho antecipou a reforma. Irene recebe uma chamada, do outro lado perguntam-lhe pelo cão. "Ficou lá, não o podia trazer. Não lhe vai acontecer nada, descansa, estão lá os bombeiros".

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