"Se quem tem mais desse um bocadinho a quem tem menos, o mundo era melhor. É tão simples"

Passou a vida a fotografar mas aos 50 anos atirou-se de cabeça a um projeto de solidariedade que se revelou um êxito: a Cozinha Popular da Mouraria. Agora chegou a Muita Fruta, ou o sonho de aproveitar a fruta dos quintais da cidade

É fotógrafa de profissão, vive na Mouraria e é presidente da associação Cozinha Popular. Por que se meteu nesta aventura?

Nem sei bem como as coisas começam. Quando comecei a ficar sem trabalho como fotógrafa jornalista.

Freelancer?

Sim, freelancer. Começaram as limpezas nas revistas e pensei que tinha de encontrar alguma coisa para a minha vida. Quando uma pessoa faz 50 anos, começa a pensar o que é que interessa verdadeiramente, de tudo o que fez até aí qual é o fim que se pode dar a isto. Nos últimos 15 anos o meu trabalho foi sempre dar à cozinha, acompanhei a evolução toda dos chefs, fotografei-os, fiz artigos com eles, viajei muito. A cozinha interessa-me desde pequena.

Aqui não põe as mãos na cozinha, tem um cozinheiro.

Temos o cozinheiro, a equipa da cozinha e temos muita gente que vem aqui cozinhar. A minha intenção aqui não é ser cozinheira, mas ganhei fama de boa cozinheira entre os amigos, porque sempre fiz muitos jantares em casa. Isto é uma extensão da casa. Sempre quis ter uma família grande e gostei de mesas com muita gente e muita vida. Tudo foi dar a este projeto. E há o lado de ajudar os outros, não no sentido da caridade mas de tentar melhorar a vida das pessoas, melhorar um bocadinho o mundo à nossa volta. Fazer alguma coisa. A minha vida não tem interesse, ou só tem interesse se eu achar que estou a fazer bem a alguém, no sentido de mostrar outros caminhos ou partilhar coisas que vi ou que vivi.

O que acontece aqui no dia-a-dia?

Não há um dia igual a outro. Acontecem aqui as coisas mais inacreditáveis e inesperadas. Não é uma associação daquelas muito certinhas com plano de atividades e calendário, tudo muito bem planeado e pensado. Aqui é impossível fazer isso, até por minha causa, porque gosto de viver mais ao sabor os acontecimentos. Vêm pessoas de todo o género, de todos os países, umas porque um amigo falou, vêm cá dar, começamos a falar e vão surgindo ideias.

O ambiente reflete isso, têm objetos de todo o mundo.

Tudo o que está nesta cozinha veio aqui parar. Quando alugámos isto, tinha sido uma oficina de estofador e tinha muito lixo. O lixo tem muita coisa útil. Há imensas cadeiras que já cá estavam. No início era só sofás, demos alguns aos vizinhos, começámos a ter necessidade de mais mesas e os sofás foram desaparecendo. Há vizinhos que batem à porta e oferecem coisas: um candeeiro, uma panela de ferro, uma cesta de vime, utensílios de cozinha. Temos um quadro lindíssimo bordado a ponto cruz que uma vizinha ofereceu, feito por ela. Sentem que isto é deles e gostam de oferecer.

Qualquer pessoa pode vir aqui comer? Como se processa isso?

Qualquer pessoa pode vir aqui comer, temos preços quase simbólicos. Há pessoas que temporariamente estão com problemas e batem à porta, perguntam se podem vir almoçar todos os dias, ou almoçar e jantar. Os vizinhos encaminharam um viúvo para aqui. É um projeto de solidariedade e temos uma espécie de família. As pessoas não têm de preencher papeis nem provar que são pobres, até porque isso normalmente não corresponde à verdade. Às vezes os que sabem provar que são pobres não são os que precisam mais. Nós conhecemo-nos uns aos outros, sabemos da vida das pessoas do bairro.

Este bairro e a zona em volta têm nacionalidades muito variadas. Isso reflete-se aqui?

O bairro é riquíssimo nesse aspeto. O ponto forte desta Cozinha são as cozinhas do mundo e é isso que tem contribuído para o sucesso do projeto.

Nas últimas semanas o que se tem comido?

Neste momento o prato forte é a cozinha do Médio Oriente. Em parceria com a associação Crescer - e é uma iniciativa nossa - temos os almoços que se chamam Make Food Not War, um nome que copiei de um amigo libanês que tem um trabalho incrível com mulheres.

No Líbano ou cá?

Em Beirute, no Líbano. Eu conheci-o cá, uma amiga apresentou-nos. É o Kamal [Mouzawak], tem um projeto com este nome e eu copiei. Acho um nome extraordinário para esta situação. O Paulo Álvares, da nossa associação, tem estado a trabalhar com o grupo. Isto já deu muitas voltas e não é só porque as pessoas vêm de não sei onde que sabem cozinhar. Temos que ver a capacidade. Não temos qualquer apoio para fazer isto.

Como se financiam?

De certa maneira, são os jantares de grupo. Não são muito caros e há muita comida. Isto existe para tratar bem as pessoas.

Um grupo que queira fazer um jantar pode dirigir-se à Cozinha Popular da Mouraria?

Pode. E quem vem jantar está a contribuir para que se possa restituir alguma dignidade à vida de outras pessoas. O objetivo principal é empregar pessoas do bairro, sobretudo as que estão fora do sistema, rejeitadas por qualquer razão.

Quantas pessoas trabalham aqui?

Temos sete em permanência mas está sempre em mudança. Muitos estão temporariamente, enquanto precisam. Neste momento temos o Awet, da Eritreia, que tem a mulher no Sudão com três crianças e precisa de um complemento ao apoio que a Câmara lhe dá. E o nosso cozinheiro é mexicano.

Não propriamente do Médio Oriente...

Mas tanto uma [cozinha] como a outra são muito interessantes. Aliás, qualquer cozinha tem muitas coisas interessantes. Tenho um especial interesse na cozinha do Médio Oriente e na mediterrânica. É cozinha saudável e a do Médio Oriente tem o toque das especiarias.

O que se pode fazer para contribuir para a vossa associação?

Basta vir cá jantar. É tratado como família, aqui não há serviço de mesas. É como ir jantar a casa de um amigo. Não temos qualquer financiamento, mas precisávamos. Este dia-a-dia é tão absorvente que não há tempo para candidaturas. Uma candidatura implica um grande investimento de tempo e tem sido difícil. Se alguém quiser ajudar nessa parte...

Lançaram outro projeto, o Muita Fruta. O que é?

Este projeto estava em embrião desde que se criou a Cozinha Popular. Aqui no bairro, e em todos os bairros da cidade, vemos árvores de fruto nos quintais dos vizinhos. Estou farta de ver fruta a estragar-se todos os anos. Há aqui três árvores que especialmente me tocam, uma romãzeira na Calçada de Santo André e dois limoeiros ao pé da rua Damasceno Monteiro que estão neste momento carregados de limões.

Que caem e apodrecem?

Perdem-se. Uma árvore não para de dar fruta durante um ou dois meses. É preciso equipamento para chegar aos ramos mais altos, é preciso cuidar da árvore, a maior parte não tem grande qualidade.

É a partir dessa irritação de ver uma romãzeira e dois limoeiros carregados que aparece o projeto Muita Fruta?

Primeiro que tudo é lutar contra o desperdício. A fruta pode servir para muita gente e nós podemos ajudar o proprietário de uma árvore a tratar dela porque temos uma equipa para isso, podemos distribuir a fruta por quem precisa, ou transformá-la e preservá-la.

Fazendo compotas, secando?

Tudo isso, até juntando com produtos que vêm das hortas, tudo aqui da zona. Temos hortas nos quintais, temos hortas da Câmara. A nossa horta é muito pequenina mas há uma altura em que dá imensos rabanetes. Podemos juntar a uma salada ou fazer uma conserva. São coisas ótimas, biológicas (não certificadas) e muito saborosas. Tanto o projeto da Cozinha Popular como o da Muita Fruta foram feitos com apoio de um concurso aberto pela Câmara, o Bip-Zip, destinado a zonas de intervenção prioritária. É um apoio extraordinário que permite ao comum dos mortais fazer um projeto para o seu bairro.

É um apoio que se traduz em quê?

É um apoio monetário. Tivemos 50 mil euros para fazer, adaptar, equipar esta garagem.

Não têm um subsídio regular mas tiveram um apoio inicial?

Não é dinheiro para gastar e depois "acabou o dinheiro, acabou o projeto". Este apoio é para arrancar com qualquer coisa que depois deve continuar. A cozinha aqui está, a funcionar normalmente.

Há quanto tempo?

Foi no primeiro Bip-Zip, em 2011, mas não conseguimos logo arranjar sítio no bairro e transitou para o ano seguinte. A Cozinha só começou no fim de 2012.

Quantas pessoas passam por aqui?

Vou-me esquecendo das coisas que se passaram. Às vezes ando à procura de alguma imagem e começo a reavivar a memória da quantidade de gente que aqui passou. Há uma comunidade de portugueses da Nova Zelândia, seis pessoas, e um dia recebemos um e-mail a dizer que queriam vir aqui cozinhar com a família. Tomaram conhecimento do projeto através da internet. Já vieram duas vezes cozinhar, no Natal. Trouxeram um azeite com laranja, que pode ser uma ideia de produto para a marca social.

Têm uma marca?

A ideia de ter uma marca é também para contribuir para a sustentabilidade da Muita Fruta e também da Cozinha. Isto está tudo ligado.

Aproveitam todos os recursos para criar esta dinâmica no bairro?

De preferência envolvendo os moradores.

Os moradores lisboetas também participam?

Desde o início do projeto foram sempre eles o público-alvo. A ideia é estar próximo, servir as pessoas que vivem aqui há gerações. Há muita gente a viver sozinha, sobretudo mulheres. No início não perceberam bem o que era, pensaram que era uma sopa dos pobres. Estavam contra - quando há alguma coisa nova as pessoas desconfiam. Mas pouco a pouco...

Já os conquistou?

Sim. Eu morava aqui há uns anos e não conhecia o bairro. Conhecia o merceeiro à minha porta, dizia bom dia, boa tarde, mas não conhecia o bairro. Agora posso dizer que já conheço bem.

Que tipo de produtos podem vir a ter com a vossa marca?

Há muita coisa que temos em mente mas depende do que as árvores e as hortas vão dando. Estamos a experimentar produtos com laranjas, há imensos citrinos aqui à volta e estamos na época deles. No projeto Muita Fruta temos três equipas, a primeira das quais faz o mapeamento, em contacto direto com a população.

Chega à porta de uma pessoa e diz: tem ali uma árvore, podemos ajudar?

Não podemos assustar as pessoas, vamos com alguém que conhece, avançamos pouco a pouco. Ajudamos a apanhar a fruta a que não conseguem chegar e estamos a podar algumas árvores. Temos uma parceria super importante neste processo todo com o Colégio F3 (Food, Farming and Forestry).

O que é?

É uma iniciativa da Universidade de Lisboa e abrange várias faculdades. Temos apoio técnico e científico - isto é maravilhoso - a vários níveis, incluindo o jurídico, se for necessário. Agora, com o licenciamento da marca, queremos poder dar algumas coisas que produzimos mas outras queremos vendê-las, participar em feiras, distribuí-las por lojas, quer localmente quer mais longe.

Têm um quiosque [na Graça] onde vendem os vossos produtos?

Temos o quiosque que emprega pessoas do bairro, com bolos feitos pela Carina, a nossa boleira que estava sem trabalho e faz parte da equipa.

Ela estava a fazer um bolo de alfazema e estive a coscuvilhar. Explicou-me que primeiro tem que se triturar a alfazema, coar e misturar com o açúcar, para não se notar as sementinhas. Esta técnica deve dar para outras ervas.

E para outras receitas, pôr açúcar de alfazema numa salada de fruta, por exemplo.

No projeto Muita Fruta disse que há três equipas.

São várias atividades, cada um com a sua equipa. A equipa que anda no terreno a podar as árvores deu um workshop, estamos a treinar os voluntários. Futuramente, a ideia seria que as pessoas que vão ficando connosco o e vão aprendendo a melhor forma de tratar as árvores possam depois prestar um serviço pago. Os preços serão de acordo com o tipo de freguês, se pode pagar ou não, pode haver trocas - uns quilos de fruta para abater no preço. Estamos a estudar as hipóteses todas.

No Colégio F3 está englobada a Agronomia?

A sede é aliás no Instituto Superior de Agronomia. Esse apoio técnico é fundamental. O Instituto Superior Técnico está a fazer um estudo sobre os cursos de água aqui no bairro para aproveitamento em possíveis regas. Não estamos só a apanhar fruta e a fazer compotas. Há imensa gente a oferecer-se como voluntários e nunca são de mais porque há muito que fazer. Há uns que se desinteressam, é sempre bom que haja mais para irem ficando os bons. Ontem tivemos uma reunião com o Museu de Etnologia que se prontificou a ser nosso parceiro e a pôr à nossa disposição o pomar de laranjas que tem à entrada. É laranja amarga mas dá sempre para fazer a marmalade, mais apreciada em Inglaterra do que cá. Nós também podemos ensinar as pessoas a gostar de outras coisas, é outro trabalho.

Disse que têm uma horta pequenina, precisam de uma maior?

Precisamos de tudo. A Câmara [Municipal de Lisboa] está muito recetiva a este projeto. Isto serve para mudar a visão que as pessoas têm da cidade. A forma como se está nas cidades está a mudar. Os movimentos das hortas já mudaram muita coisa, já muita gente se conheceu, comeu em conjunto, partilhou, trocou os produtos que cultiva.

Há muito tempo que o arquiteto Ribeiro Telles falava das hortas urbanas.

E as pessoas torciam o nariz.

É um movimento de jovens ou de diferentes gerações?

De todas as gerações e de meios culturais diferentes. Há alguns vizinhos que vieram do campo trabalhar para Lisboa há muito tempo, de muitas zonas do país, e têm a nostalgia de ter um bocadinho de terra. Não há nada como nós cultivarmos a nossa própria couve, vê-la crescer, saber como foi tratada.

A sensação de que é um milagre quando cresce?

É um milagre ver crescer alguma coisa que plantámos nem que seja na varanda. É maravilhoso. Na minha varanda tenho vasos com alecrim, cebolinho, tomilho, manjericão, aquelas coisas que não há nas mercearias ao pé de casa onde só encontramos salsa e coentros. São coisas muito fáceis, não dão trabalho.

A fotografia ficou para trás? Continua a ser colaboradora da Notícias Magazine.

Já não fotografo. Têm uma agência e não tenho tempo para fotografar.

Continua a ter o olhar de fotógrafa?

Creio que sim, e tenho muitas saudades de andar pela rua com a máquina a apanhar o que aparecer à frente.

Este projeto deu um novo sentido à sua vida?

Completamente. Não digo que deixei de ter vida, isto é a minha vida e a aprendizagem é inacreditável, a troca de experiências com as outras pessoas. Todos os dias conhecemos uma especiaria nova, um prato novo, um produto novo, mais uma técnica. O projeto Muita Fruta não sei onde é vai dar mas começou há tão pouco tempo e está a tomar uma dimensão tal... precisamos de um armazém, de uma camioneta para distribuir...

Não tem medo de que as coisas tomem proporções enormes?

Não, porque tenho uma espécie de inconsciência. À medida que as coisas vão aparecendo, pensamos como vamos resolver naquele momento. As coisas vão crescendo estruturadas.

Não corre o risco de haver uma perda de controlo?

Não, sobretudo se não estiver sozinha, se estiver com a equipa.

Estive a observá-la enquanto era fotografada. Uma das coisas piores do mundo para um fotógrafo é ser fotografado?

É horrível. Acho que sou fotógrafa porque nunca tive à vontade em frente a uma câmara e, como percebo isso tão bem, sempre tive imenso prazer em fazer retratos. Um retrato é um momento muito íntimo, sentimo-nos horríveis, de repente uma pessoa em cima de nós com uma objetiva a invadir-nos a alma. Sempre gostei de fazer retratos exatamente por não gostar de estar na posição de fotografada. Há pessoas que encontro muitos anos depois de as ter fotografado e que me dizem - aquele retrato que me fizeste foi a melhor coisa... É altamente gratificante.

Agora é a abertura aos outros de outra maneira, a abrir a porta?

Há uma coisa transversal aos projetos Cozinha Popular e Muita Fruta: tentar equilibrar o mundo. Os que têm mais dão aos que têm menos. É uma espécie de Robin Hood... não é roubar aos ricos para dar aos pobres, mas se quem tem mais desse a quem tem menos um bocadinho que fosse, que não lhe faz diferença nenhuma, o mundo ficava um bocadinho melhor. É tão simples. A mim parece-me simples.

E reduzir o desperdício?

O desperdício é mesmo um grave problema, e nem vamos entrar por outros campos, estamos aqui na fruta, numa dimensão caseira.

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