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A culpa foi da maçã?

A culpa foi da maçã?

por Catarina Pires

É a maior aliada da publicidade. Os psicólogos andam há séculos a tentar percebê-la. A Igreja ergueu uma barreira moral contra ela. Até já deu origem a correntes filosóficas. A tentação tem que se lhe diga.

Adão e Eva foram criados por Deus para terem muitos filhos e viverem felizes para sempre no Paraíso. E assim teria sido se Eva e - por culpa dela, claro - Adão não tivessem cedido à tentação de provar o fruto proibido da árvore do conhecimento. Corta! Será que teriam vivido felizes para sempre? Ou teriam permanecido na eterna ignorância? Poderá a ignorância significar liberdade e, consequentemente, felicidade? Ou só somos realmente livres quando podemos fazer escolhas? A tentação é assunto sério e há milénios que está na ordem do dia. Tal como estas perguntas...

Provavelmente existe desde que o homem é homem e talvez esteja relacionada com a evolução da espécie e das sociedades, dada a sua relação próxima com a curiosidade, a descoberta e a experimentação. Mas o conceito de tentação enquanto tal (e enquanto mal) tem origem religiosa e aparece como o grande teste ou prova de fé, como explica o filósofo André Barata, professor da Universidade da Beira Interior: «Na sua origem, as tentações não eram apenas tudo o que tentava a vontade, pondo-a em conflito consigo própria. Eram ainda um teste intencional à capacidade de lhes resistir. Esta intencionalidade era, na verdade, pensada ou sentida como um relacionamento concreto com o transcendente. Vencer a tentação enviada era experimentar a densidade real da fé.» Personificada durante séculos pela mulher, imaginada como ardil do diabo para desviar os homens do caminho de Deus, logo do bem, e castigada com o fogo do inferno, a tentação pôs à prova todos os santos dignos dessa condição e até Jesus Cristo. «Não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal», reza o Pai-Nosso.

No entanto, muito antes de Cristo, já a filosofia refletia sobre a importância de dominar os impulsos mais primários e de o homem assumir o controlo da sua vontade. Aliás, como salienta André Barata, não teria sido possível um pensamento religioso da tentação se não se tivesse constituído ao mesmo tempo uma certa visão filosófica da vontade, que em grande medida se deve aos estoicos. «A grande pensadora do século xx, Hannah Arendt, muito insistiu na responsabilidade destes pela génese da ideia de uma vontade em conflito consigo própria.» De acordo com o estoicismo, somos livres pela capacidade de cada um dominar, pela força de espírito, a sua própria vontade. «A tentação, que em contexto religioso punha à prova a fé do crente, faz eco, num contexto mais largo, dos desejos que perturbam a constância do caráter humano e escravizam a sua vontade. O esquema é sempre muito semelhante: a liberdade é feita coincidir com a autonomia da vontade, ou seja, a capacidade de a pessoa escolher para si própria uma lei, em contraste com a heteronomia das vontades que não sabem resistir ao caos dos desejos. Libertar-se da tentação seria como libertar-se da animalidade.»

O que os estoicos defendiam não está muito longe do que os mais recentes estudos científicos apontam no que respeita à tentação e aos mecanismos do autocontrolo. Um estoico aprende a conter o desejo, naquilo que apenas depende de si. O que é decisivo para ele é conhecer bem os seus desejos, o que os exalta e o que os acalma, e assim domá-los, tornando-se livre na medida em que se conhece bem e é senhor da sua vontade. A dificuldade ou desvantagem está bem presente numa reflexão eloquente de Santo Agostinho a que Hannah Arendt recorria: «A mente dá uma ordem ao corpo, e e" imediatamente obedecida; dá uma ordem a si mesma, e e"-lhe oferecida resistência.»

Em setembro passado, séculos depois de Santo Agostinho, um estudo publicado no The Journal of Neuroscience sugere uma outra visão: temos dois sistemas cerebrais independentes, capazes de guiar as nossas decisões e que geralmente funcionam em uníssono. Mas, em situação de tentação, podem entrar em conflito, o que explicaria a dificuldade de autorregulação dos comportamentos quando, por exemplo, estamos a fazer uma dieta ou decidimos deixar de fumar.

Se é fumador, vai perceber bem isto: quantas vezes não lhe aconteceu já pensar nos malefícios do tabaco, sentir medo real de vir a ter cancro do pulmão e morrer, e isso levá-lo a resolver decididamente acabar com o vício? Deixa de comprar cigarros, sente que é mesmo desta vez que vai conseguir, durante uns dias mantém a resolução e eis que o primeiro café da manhã ou a baforada de um amigo fazem cair tudo por terra. E quem diz deixar de fumar diz fazer dieta, quebrada depois de tanto esforço após a cedência a um único quadrado de uma tablete de chocolate, que deixa de ser único a partir do momento em que é degustado.

O mesmo se passa com tudo aquilo que resolvemos abolir da nossa vida de forma a vivê-la de acordo com o que consideramos que é mais correto e melhor para nós, mas que tantas vezes temos dificuldade em concretizar. Há vários fatores que concorrem para este insucesso. Um deles é o de sobrestimarmos a nossa capacidade de autocontrolo, concluíram Loran Nordgren e Eilleen Chou, investigadores da Kellogg School of Management da Universidade de Northwestern (EUA). O mais avisado, segundo os cientistas, é estabelecer metas mais realistas e afastar do raio de visão aquilo que nos tenta e a que queremos resistir. Os mesmos investigadores descobriram ainda, segundo a Psychological Science, que pensar muito talvez não seja a melhor forma de resistir à tentação. Quando tomamos uma resolução - por exemplo de fazer dieta - a nossa reação primária à tentação é dizer «não». A não ser - e este é um dado essencial - que estejamos num «estado visceral», de fome, sede, desejo sexual, etc. Ou seja, também é preciso conta, peso e medida nas resoluções que tomamos, sendo a abstinência comprovadamente má conselheira.

No mesmo sentido vão as conclusões de uma pesquisa conduzida por Nicole Mead, investigadora da Universidade Católica e professora na Rotterdam School of Management da Universidade Erasmus (Holanda). Com um trabalho dedicado aos mecanismos do desejo, do autocontrolo e da tentação, a psicóloga inglesa concluiu precisamente que adiar é uma das melhores estratégias de controlar o consumo. A privação aumenta o desejo, ao passo que adiar o arrefece. Adiando a tentação, estamos já a resistir-lhe. De um ponto de vista psicológico, «a tentação é um desejo imediato cuja satisfação põe em causa os nossos objetivos ou resoluções de longo prazo», explica Nicole Mead. Para a psicóloga há três grandes razões por que muita gente, como dizia Oscar Wilde, consiga resistir a tudo menos à dita: «Primeiro: é preciso perceber que o desejo é funcional. Aquilo que o desperta é o que nos deu prazer no passado. Nesse sentido, serve para motivar o indivíduo a procurar o que lhe dá prazer, conforto ou alívio, porque já lhe foi benéfico. Essencialmente, o desejo está enraizado no ser humano. Segundo: uma vez que é percebido como sinal funcional de um objetivo importante, a privação só o torna mais forte. Terceiro: a vida moderna cria e torna acessíveis mais desejos do que aqueles que os humanos são capazes de gerir. Certamente os nossos antepassados não estiveram expostos a tantas tentações 24 horas por dia, sete dias por semana. Por isso, temos de ser criativos na forma como gerimos as tentações!»

O filósofo André Barata concorda que, num certo sentido, nunca o homem se viu submetido a tão intensos estímulos sociais ao consumo: «O consumismo das sociedades contemporâneas é menos uma escolha das pessoas do que um sistema de produção de necessidades artificiais a que a generalidade das pessoas não pode escapar sem ver comprometido o seu bem-estar social. O crédito é a forma perfeitamente contemporânea, universal e intangível da tentação, que deita a perder pessoas e famílias em grande escala, países inteiros. Mas ao contrário da religiosidade, que depende da força das consciências em resistirem à tentação, o consumismo depende do poder de as necessidades artificiais esboroarem qualquer resistência das consciências.»Por isso, defende o filósofo, é tão importante, de um ponto de vista racional, resistir às tentações. «É como resistir a ir por atalhos que certamente acabarão, de uma ou outra forma, por ser prejudiciais, para o próprio ou para os outros. Por exemplo, o atalho de um prazer imediato em detrimento de um objetivo maior que se desejava, ou a tentação de uma facilidade, mas prejudicando de alguma maneira outros. A moralidade de um caráter constante, que resiste às tentações como quem resiste a ir por atalhos, é, no essencial, uma moralidade refletida, que não esquece as suas razões.»

Resistir...

A boa notícia, e de grande utilidade nos tempos de crise que atravessamos, é que o autocontrolo pode ser treinado e fortalecido. «É como um músculo: exercitando-o, as pessoas terão maior capacidade de resistir à tentação», explica Nicole Mead. «Esta capacidade psicológica influencia quase todas as esferas da nossa vida: trabalho, amor, amizade, consumo, saúde, exercício, alimentação... Por isso, é tão importante fortalecê-lo. Por exemplo, se é uma pessoa madrugadora, mas perde energia a partir da tarde, vá ao ginásio de manhã. Se tem tendência para gastar mais do que pode em compras, mantenha-se longe dos centros comerciais e faça programas alternativos. Ou seja, planeie o seu dia de acordo com os seus objetivos porque isso irá ajudá-lo a atingi-los.»

... e às vezes ceder

«A indulgência para com a tentação só se torna problemática quando provoca ansiedade ou interfere com o bem-estar físico, psicológico ou social», diz Nicole Mead. «Nunca resistir à tentação é um problema, ceder-lhe de vez em quando pode ser saudável e é certamente agradável.» André Barata concorda: «Há mais na tentação do que a lógica de cedência aos prazeres, às luxúrias e às facilidades que é habitual indicar. Há um fascínio muito humano pela ação que projeta tão inteiramente a pessoa no que está a fazer, além de todas as consequências, até pessoais, que é verdadeiramente um perder-se de si mesmo.»

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