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A aldeia mais caricata de Portugal

A aldeia mais caricata de Portugal

por Carla Amaro. Fotografia de Luís Pardal/GI

Está em permanente construção, é de barro e fica em Arraiolos. Chama-se Aldeia da Terra e tem tudo o que as aldeias portuguesas do interior deviam ter: ruas pavimentadas, praças, cafés, livrarias, escolas, carros, e pessoas... sobretudo pessoas.

«Bem-vindos à aldeia mais caricata de Portugal.» A mensagem, escrita num painel à entrada, não engana. Do lado de lá do muro alto está uma aldeia construída por Tiago Cabeças e pintada pela mulher, Magda Ventura. Uma obra de amor. Com uma área de três mil metros quadrados, todos os dias surge uma coisa nova: uma casa, um habitante, um carro estacionado numa rua antes sem movimento, uma árvore, um canteiro de flores. Tudo feito de barro.

O cenário é estático, mas transmite vida. As pessoas, os animais e os carros parecem movimentar-se. Tem-se a tentação de a comparar com Portugal dos Pequeninos, mas a semelhança seria forçada. Nem no tamanho nem no conceito há associação possível: nesta é tudo mais pequeno e imaginado, não é replicado do que já existe. As figuras têm um traço cómico, com sentido de humor - essa é a marca que permite adivinhar a assinatura do criador.

Não é qualquer adulto que pode gabar-se de ter uma profissão que lhe permite brincar o tempo todo. É essa a ideia que se tem quando se vê Tiago com as mãos no barro, à volta dos seus bonecos, dando-lhe forma, corpo. Aliás, foi por brincadeira que começou, há 12 anos, num dia em que ficou a tomar conta de um sobrinho. «O miúdo tinha na altura 4 anos. Não sabia como havia de o entreter. Lembrei-me de ir comprar plasticina, porque era uma coisa que eu adorava quando tinha a idade dele.» O sobrinho cresceu, desinteressou-se das construções de plasticina mas o tio, esse, continuou a levar para casa plasticina e a fazer bonecos. Conta Magda, então namorada de Tiago: «A plasticina quando seca parte. Achava uma pena ele não poder ficar com alguns dos bonecos, porque já nessa altura eram muito engraçados. Disse-lhe: Porque não os fazes de barro?» Foram pedir um bocado de barro à Olaria Guimarães Velho, em São Pedro do Corval [é o maior centro oleiro do país, entre Reguengos e Monsaraz], onde Magda esporadicamente pintava loiças de barro «para ganhar algum dinheiro extra». Tiago não teve coragem de dizer para que o queria: «Tive vergonha de dizer que era para fazer bonecos. Um tipo com quase 30 anos não tem idade para fazer bonecos. Disse que era para fazer cinzeiros.» Estava ainda longe de a brincadeira se tornar coisa séria, profissional.

Quando uns amigos foram a sua casa repararam numa máscara de barro e perguntaram a Tiago onde a tinha comprado. «Quiseram levá-la. Vendi-a por um preço simbólico.» Não tardou estava a receber telefonemas de outros amigos a pedir que lhes fizesse máscaras para oferecerem. Daí até à primeira exposição foi um instante. Em maio de 1999 expôs com a amiga e pintora Marta Rego. «Pensei que iriam estar presentes só a família e os amigos mais próximos. Não imagina a nossa surpresa quando vimos a sala atulhada de gente.» Foi um sucesso. Vendeu as peças todas. «Eram esculturas maiores, estudos anatómicos, corpos com cabeças sem rosto.» A segunda exposição foi em novembro desse ano, sobre religião, para apresentar no Dia de Todos os Santos, dessa vez com a colaboração de Magda, que pintou as figuras. Foi a estreia de Magda, que de então para cá é sócia de Tiago, no trabalho (já o era na vida). Nessa exposição, Tiago arriscou provocar, criando várias figuras de Jesus Cristo pregado na cruz como até então ninguém o tinha visto: completamente nu; com a cabeça para baixo, decapitado, sem pele. «Essas peças [da colecção Martírios] causaram muita celeuma, algumas pessoas não acharam muita graça.» Mesmo assim nenhuma ficou por vender. Tiago e Magda ganharam o suficiente para comprar o primeiro forno. Esse é o momento que marca a decisão do casal de trabalhar o barro a full-time. Abandonaram a faculdade - ele deixou a meio o curso de Engenharia de Processos e Energia e ela desistiu do curso de Física-Química - e assumiram-se como artesãos. Até hoje, sem arrependimento. Os convites para participar em feiras de artesanato não demoraram. Na primeira vez que estiveram na Feira Internacional de Lisboa, em 2000, venceram dois prémios, a que se seguiram muitos mais.

Abriram uma loja no centro de Évora, instalando na parte de trás a oficina, mas o espaço depressa se revelou exíguo para as encomendas. Há seis anos, mudaram-se para uma quinta em Arraiolos para aí trabalhar (mantendo em Évora só a loja) e concretizar um projecto há algum tempo alinhavado no pensamento - um jardim de esculturas de barro. Assim foi surgindo, aos poucos, a Aldeia da Terra, aberta ao público desde o verão passado e já visitada por 1500 pessoas. Entra-se e, do lado esquerdo, o que salta à vista é um contentor com fachada de vidro, onde Tiago concebe os bonecos, as casas e os presépios que imagina. Ele numa mesa, a mulher, noutra, rodeada de frascos de compota que reutiliza para colocar as tintas e os pincéis. Magda está a acabar de pintar uma vendedora de melancias: «Esta não a vamos levar para a loja, não é para vender. Vai ficar cá, vamos pô-la algures ali à frente [aponta para a Aldeia da Terra].» Assim se vai construindo a aldeia mais caricata de Portugal, com mais uma figura aqui e outra ali. Neste momento tem 1739 peças, das quais 677 personagens, 204 casinhas, 79 viaturas e 929 adereços. «Todos os dias atualizamos esta contagem.»

Além da Aldeia da Terra, que dá nome a este espaço de esculturas de terracota ao ar livre, existem aqui mais duas, a da Pedra e a de Baixo, muito próximas umas das outras, separadas pelo corredor de passagem destinado aos visitantes. E outras aldeias surgirão no espaço ainda disponível.

Troféus em miniatura

Alguns dos trabalhos premiados de Tiago e Magda estão replicados na Aldeia da Terra. Destaque para Polaroide da Boda, representação de uma fotografia de casamento em que constam os noivos e as respetivas famílias. Esta peça ganhou o 1.º Prémio Nacional de Artesanato Contemporâneo 200/2003 do concurso O Culto, a Festa e o Quotidiano, promovido pela FIL. O original encontra-se exposto no Centro de Artes Tradicionais do Museu de Artesanato de Évora.

ALDEIA DA TERRA

Quinta das Canas Verdes

Estrada das Hortas 202, Arraiolos

Aberta todos os dias, das 10h00 às 17h00 (no verão fecha às 18h00).

Preços: crianças com menos de 3 anos, gratuito; crianças a partir dos 3 anos, três euros; adultos, cinco euros; idosos e adultos portadores de deficiência, 3,5 euros. As crianças integradas em grupos escolares, além de uma divertida visita pedagógica, poderão meter as mãos no barro e ajudar a construir a aldeia.

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