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A cortiça não é só para rolhas

A cortiça não é só para rolhas

por Carla Amaro. Fotografia de Rui Coutinho

Num tempo em que já não é possível ignorar os problemas ambientais, é de aplaudir o recurso a materiais ecológicos, recicláveis e biodegradáveis em áreas como a construção civil, o têxtil, o calçado, a marroquinaria e o design de mobiliário. A cortiça é dos poucos materiais à altura das exigências actuais, a começar pela árvore de onde é extraída. O sobreiro faz bem ao solo, ao ar, à biodiversidade, à economia e é um regalo para a vista. É protegido há séculos, mas continua a ser abatido sem regra. É grave, mesmo num país que tem a maior área mundial de montado de sobro.

 

 

É com indisfarçável orgulho que António Gonçalves Ferreira nos mostra uma pequena parte dos 1500 hectares de montado de sobro que herdou de um tetravô e é, há cinco gerações, o alimento da família. Com uma mão num sobreiro e a outra segurando o machado com que se faz o descortiçamento ? nas suas propriedades ainda se usa esta ferramenta, noutras a adesão às máquinas eléctricas parece irreversível ?, António observa a qualidade da casca tentando prever a sua evolução durante os próximos meses. É que a extracção neste montado do Couço, com cem hectares, está agendada para o próximo Verão, altura em que completa os nove anos necessários para se proceder a uma nova descasca do sobreiro ? aqui, as pessoas referem-se a este intervalo como a «lei dos nove». É lei porque é o período do qual a árvore precisa para se renovar e criar outra camada com uma espessura equivalente a uma moeda de um euro. António tira do bolso uma moeda: «Mais fina do que isto não serve para fazer rolha.»
A rolha é o «valor acrescentado da cortiça para um produtor florestal, o resto é subproduto». Subproduto até na facturação: a cortiça para rolhas rende a António quatro euros por quilo, para refugo o produtor vende-a por quarenta cêntimos. A diferença, se se pensar em toneladas, é significativa, o que leva muitos produtores a não hesitarem em adiar um ou dois anos o descortiçamento, se houver esperança de que a casca ainda venha a adquirir a qualidade desejada. Aqui no montado do Couço não se enjeita essa possibilidade: «Ganhamos [ele e os sócios, três primos] mais em esperar do que se cumprirmos o calendário.» Desde que o descortiçamento se faça antes de atingir os 14 anos após a última extracção, a casca poderá ganhar em qualidade. Depois disso, «fica de tal maneira "agarrada" ao sobreiro que é impossível retirá-la sem danificar a árvore».
Descortiçar exige mestria, obriga a empunhar o machado correctamente para não falhar o primeiro corte, que, sobretudo o primeiro, deve ser preciso, em sítio certo. Os descortiçadores experientes sabem que, se fizerem a extracção como deve ser, o sobreiro terá capacidade para renovar a casca 16 vezes ao longo dos seus 150 anos, ou mesmo duzentos. O descortiçador profissional sabe o que fazer diante de uma árvore pronta a ser despida. Com o machado, golpeia a cortiça no sentido vertical, escolhendo a fenda mais profunda do enguiado (as ranhuras da casca) enquanto torce o gume do machado para separar a prancha do entrecasco ? António explica o trabalho dos seus homens e exemplifica com movimentos simulados. A casca nem sempre sai facilmente. O toque do machado revela o grau de dificuldade: «Ouve-se um som oco, característico do rasgamento, se a cortiça estiver a "dar bem"; quando está a "dar mal" sai um som curto, firme e seco.»  Depois, com um corte horizontal, o decortiçador delimita o tamanho da prancha de cortiça a sair e a que deve ficar na árvore ? a este processo, durante o qual «são frequentes as sequelas ou mutilações deixadas no entrecasco, e que acabam por alterar a geometria do tronco, chama-se traçagem». Segue-se a extracção, que também exige perícia e cuidados extremos para as pranchas não se partirem. É que quanto maiores forem as pranchas de cortiça extraídas, «maior será o seu valor comercial».
No Couço, as árvores não estão marcadas ? a tinta, o último algarismo do ano em que se fez a extracção ?, mas o proprietário sabe que a «lei dos nove» cumpre-se no ano que vem. No montado da Parreira, na Chamusca, também propriedade de António e dos primos, os machados dos descortiçadores ainda estão quentes. A extracção foi em Junho e o resultado de 1400 hectares cobertos de sobreiros não desagradou: «Tivemos uma boa produção. Penso que vamos conseguir cortiça da melhor.»
Embora na Parreira a área seja muito maior do que a do Couço, foi nesta, mais perto de Coruche, que António reservou um pedaço de terra para construir um viveiro de sobreiros. O anfitrião pára o jipe a uns cem metros de distância. A mancha verde, rasteira, que vemos à frente é a prova de que em Portugal ainda se faz plantação de sobreiros, não obstante o abandono de montados nos últimos anos, sobretudo no Algarve. O Alentejo é a região onde o montado de sobro tem mais expressão. Aqui se encontram 72 por cento da área de montado portuguesa, num total de 736 mil hectares, segundo dados de 2006 da Direcção-Geral dos Recursos Florestais. Mas também no Alentejo, como em todo o país, se cometem crimes contra este património natural, sendo o abate ilegal talvez o mais grave. É grave porque o sobreiro é uma espécie protegida por lei. Portugal pode mesmo orgulhar-se de ter sido pioneiro na protecção dos montados de sobro, com a criação das primeiras leis agrárias, em 1209, no início do século XIII. Para Domingos Patacho, da Quercus, o abate assume uma gravidade «relativamente elevada, sobretudo devido à escassez da fiscalização preventiva na floresta». Este especialista em florestas garante que «alguns cortes de árvores verdes em bom estado fitossanitário ocorrem para abastecer um comércio de lenhas desregrado», outros «são para promover a construção de urbanizações privadas». O sistema é perverso e difícil de contornar porque, embora os abates sejam ilegais, tornam-se legais quando são autorizados pela Autoridade Florestal Nacional, que devia proteger os sobreiros de acordo com a legislação em vigor (Decreto-Lei n.° 169/2001).
À medida que nos aproximamos do viveiro, os nossos pés quase se enterram no chão mole, que numa primeira impressão parece ser de areia. Parece «e é».  «Toda esta área já foi mar», revela António, pegando num bocado de terra e deixando-a fugir por entre os dedos, «isto são depósitos sedentários da época do Miocénico» [há cinco milhões de anos]. Enquanto estão em viveiro à espera de compradores – «é um viveiro comercial, não é só para autoprodução» –, os sobreirinhos permanecem em pequenos vasos, para onde foram transplantados assim que a bolota, a semente, germinou. Isto há um ano. Só daqui a quarenta é que cada uma destas pequenas plantas, que não têm mais do que 15 centímetros de altura agora e que António vende a trinta cêntimos o pé, estarão em condições de ser descortiçadas. São precisas quatro décadas para um sobreiro começar a dar rendimento, pois a primeira extracção, a desbóia, não é adequada à produção do produto que mais dinheiro dá ao produtor florestal, a rolha. A casca virgem dá uma cortiça «de estrutura muito irregular e com uma dureza difícil de trabalhar», o que não significa que seja desperdiçada: tem sempre escoamento no sector da construção para pavimentos e isolamentos. Aliás, quando se fala de cortiça pode falar-se de tudo menos de desperdício, sobretudo agora que é possível reciclá-la – a cortiça reciclada não pode ser utilizada na produção de rolhas, mas tem outras mil e uma aplicações, podendo ser encontrada em variadíssimos produtos, desde artigos decorativos para a casa e escritório a solas e outras aplicações para calçado, juntas de automóveis, produtos para a indústria militar e de aviação, para a indústria química e farmacêutica, vestuário e marroquinaria, mobiliário, caiaques e, surpreenda-se, space shuttles. O aproveitamento das potencialidades da cortiça tem crescido de uma forma exponencial porque tudo, mesmo tudo, na cortiça se aproveita. Até o pó é usado para gerar energia eléctrica.

Património natural valioso
Por ser biodegradável e reciclável, a cortiça é dos materiais com mais mais-valias ambientais. E quanto à árvore de onde é extraída, há muito que são reconhecidas as suas vantagens para a preservação da biodiversidade, pena é que se encontre em tão poucos lugares no mundo ? além de Portugal, líder na produção de sobreiros e de cortiça, o sobreiro dá-se em Espanha, Itália, França, Marrocos e na Argélia, que, pela sua localização mediterrânica, são regiões com condições hidafoclimáticas adequadas ao seu crescimento. No que respeita à biodiversidade, é inquestionável o património de um montado: em cada mil metros quadrados é possível encontrar 135 espécies de plantas, 24 espécies de répteis e anfíbios, mais de 160 espécies de aves e 37 de mamíferos. O que torna positivo o impacte ambiental dos montados em Portugal, explica Domingos Patacho, é o facto de serem «sistemas silvopastoris de baixa intensidade, associados frequentemente a uma gestão sustentável, à manutenção do ciclo de água e do carbono» ? um sobreiro explorado com extracções periódicas de cortiça não só produz mais 250 por cento a 400 por cento de cortiça do que a que produziria se não fosse explorado, como também incrementa a fixação de CO2, contribuindo para o sequestro de carbono da atmosfera (fica armazenado na madeira e na cortiça). No relatório O Sobreiro, Uma Barreira contra a Desertificação, da World Wildlife Fund (WWF), é dito inclusive que as florestas de sobreiro são «um instrumento fundamental no combate à desertificação em Portugal desde que gerido de forma adequada, cabendo-lhe desempenhar um papel decisivo na prevenção da degradação dos solos».
Às vantagens ambientais da cortiça e do montado de sobro juntam-se as económicas. A extracção da cortiça é uma indústria que coloca Portugal na liderança da exportação desta matéria-prima. Joaquim Lima, director-geral da Apcor, a Associação Portuguesa de Cortiça, revela que o valor gerado pelas exportações de cortiça «representa 0,7 por cento do PIB (preços de mercado), 2,3 por cento do valor das exportações totais portuguesas e cerca de trinta por cento do total das exportações de produtos florestais». O sobreiro, sendo actualmente a primeira espécie em termos de área ocupada ? representa 24 por cento das espécies em Portugal ?, tem uma grande importância para o sector florestal, uma vez que produz anualmente, a nível nacional, cerca de 157 mil toneladas de cortiça. Espera-se que as excepções e deferimentos previstos no novo Código Florestal proposto pelo governo de José Sócrates na anterior legislatura não venham a fragilizar a protecção de espécies florestais autóctones protegidas como o sobreiro. Para a Quercus, a aprovação de um Código Florestal era «muito importante se não fosse efectuado apressadamente para cumprimento do calendário político». Domingos Patacho lamenta que esta proposta «não tenha sido devidamente discutida antes de ser aprovada». Para o sobreiro e a azinheira, os deferimentos tácitos não seguem o regime geral do código, o que «em princípio será positivo», no entanto, «existem excepções e alterações no artigo 45.° ? ?corte ou arranque? ?, efectuadas após uma discussão pública (sem prazo divulgado), o que evidencia pressões antes da aprovação final que  põem em risco a protecção do sobreiro e da azinheira e a manutenção dos seus povoamentos». Mais: «Se não for detectado o infractor por um abate ilegal, que normalmente é o proprietário, não fica condicionada a alteração do uso do solo, sendo esta alteração final bastante grave para a manutenção do ecossistema dos montados.»
Enquanto proprietário e também presidente da Associação de Produtores Florestais de Coruche – é em Coruche e concelhos limítrofes que se encontra a maior área de montado de sobro (150 mil ha, de um total nacional de 736 700 ha) –, António não revela nada contra nem a favor do novo Código Florestal. Abstém-se de emitir opiniões, pelo menos até se inteirar de todo o conteúdo do documento. Prefere falar das expectativas que alimenta em relação ao Observatório do Sobreiro e da Cortiça, inaugurado em Maio passado, o qual resume numa curta frase: «Tudo o que se fizer em prol deste sector, acho bem.» Esta nova estrutura foi criada para funcionar como um centro tecnológico, para desenvolver projectos de investigação e inovação com o objectivo de melhorar a qualidade da cortiça, nomeadamente identificando doenças e pragas e propondo soluções.

«Quem se preocupa com os netos planta um sobreiro»
É velho este ditado popular e no Alentejo ainda há quem o transmita aos filhos. António Gonçalves Ferreira gostaria que os montados de sobro do Couço e da Parreira ficassem na família. A  incerteza, pelo menos no que respeita aos filhos, ainda pequenos e sem ideias quanto ao futuro, vai durar uns anos. Embora alimente esperanças, «impossível não as ter», garante que não os irá pressionar para  agarrarem o legado familiar: «Eles devem dedicar-se àquilo de que gostam, só assim se sentirão realizados profissionalmente.» E permitir que esta paisagem a perder de vista vá parar aos cuidados de estranhos? «Não quero pensar nisso. Se os meus filhos não quiserem seguir este negócio, pode ser que os filhos dos meus primos achem interesse nisto. Tenho fé de alguém na família há-de ficar com esta empresa. Com gosto, não por obrigação.»
No meio do montado não se ouvem as vozes estridentes que saem dos altifalantes e enchem as ruas de Coruche. Era o último dia de campanha para as autárquicas. Alguns populares paravam nos passeios em grupos de três ou mais, a vê-los passar; a outros a mensagem parecia não interessar, tal a indiferença ao ruído ou à política. Também se ouviam, de passagem, comentários de descrença do tipo «são todos iguais», «querem é lá chegar e depois não fazem nada de bom pela gente». Bem no centro daquela que é conhecida como a terra da cortiça, o tema do dia era a ida a votos. A poucos, pelo menos agora, passará pela cabeça a situação actual de uma indústria que, apesar de próspera, não vive à margem dos efeitos da crise. Os reflexos já se fizeram sentir no ano passado nas exportações de cortiça, cuja quebra foi de 3,5 por cento. Diz Joaquim Lima, da Apcor, que «o sector enfrenta os desafios comuns a todos os sectores de actividade, como por exemplo a concorrência de outros produtos, a maior exigência dos mercados mundiais e a estagnação dos seus mercados-alvo.» Para que Portugal continue a ser líder mundial a nível da produção e transformação da cortiça, o país tem de «investir cada vez mais na melhoria da qualidade, na investigação e inovação, na formação dos recursos humanos, na internacionalização e verticalização de todo o processo produtivo». Só assim, acredita o empresário, «a indústria da cortiça será uma indústria com futuro».
  
Cortiça atrai criadores
É difícil não acreditar no futuro promissor deste sector se se pensar nas propriedades de cortiça que lhe conferem uma aplicação vasta. A cortiça é leve, impermeável a líquidos e a gases, é elástica e compressível, é um excelente isolante térmico e acústico, tem combustão lenta e muita  resistência ao atrito. Com ela até já se fez um assento de banco de automóvel que reduziu para metade o seu volume e tornou-o três vezes mais leve do que os bancos tradicionais. «O extraordinário desta invenção é que cada um destes bancos consegue subtrair 45 quilos a um carro normal, ajudando a resolver dois dos grandes problemas do sector automóvel: o peso e o volume» (lê-se num documento sobre a cortiça, do grupo Cork Information Bureau).
Embora o sector vitivinícola continue a ser o maior cliente da indústria da cortiça, este material já conquistou o universo dos criadores. Os de moda e os de decoração. Quem esteve na última edição da Intercasa – Salão Internacional do Mobiliário, Decoração e Iluminação (na FIL, em Lisboa, de 3 a 11 de Outubro), talvez tenha tido a oportunidade de ver e experimentar o quanto confortável pode ser um puff de cortiça, por estranho que pareça à primeira vista. É extraordinário como um amontoado de pequenas bolas de cortiça unidas por uma corda pode ser ergonómico, tal a facilidade com que este «arranjo» se adapta ao corpo.
Ana Mestre, que pensou e desenhou o Puf Fut, nunca duvidou da versatilidade da cortiça. Originalidade não falta a esta jovem designer proprietária da Corque – Designing Living Objects, nem aos outros designers que criaram as peças que constituem o espólio desta nova empresa, todas em cortiça – aparadores, mesas, chaise longues, candelabros, frapés, bases para coisas quentes – com aplicações de outros materiais. Num tempo em que já não é possível fechar os olhos aos problemas ambientais, é de aplaudir o recurso a materiais ecológicos, recicláveis e biodegradáveis em áreas como o design, melhor dizendo, para o Design para a Sustentabilidade e o Ecodesign. Não são só uma moda, são uma necessidade. 

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