Um português mais influente do que Marcelo no Luxemburgo

José Trindade é um verdadeiro relações-públicas da comunidade portuguesa na capital do grão-ducado há quatro décadas.

O comendador José Trindade não recebe os banhos de multidão que Marcelo Rebelo de Sousa teve há semanas no Luxemburgo, onde os portugueses são um quinto da população. Mas merece atenções públicas dos grão-duques e a visita frequente, "às vezes dez minutos", do chefe do governo, ministros, autarcas e outras figuras nos eventos, festas e na sede do Centro de Apoio Social e Associativo (CASA).

A influência do fundador do CASA é tal que há dias, numa questão de horas, satisfez um pedido do Presidente da República: convenceu três emigrantes a irem recensear-se à Câmara do Luxemburgo na presença de Marcelo - num país onde cerca de 93 mil dos mais de cem mil portugueses residentes não se inscreveram nos cadernos eleitorais. Os dois podem reencontrar-se se for atingido o desafio presidencial de ali voltar se, até julho, houver dez mil novos inscritos para as eleições locais de outubro.

Outro exemplo do apreço que José Trindade recebe das autoridades ocorre no Dia do Luxemburgo, que a 23 de junho celebra também os 175 anos das Forças Armadas: o CASA é uma das duas estruturas - e a única portuguesa - "convidadas a participar oficialmente".

Em conversa com o DN no seu gabinete cheio de secretárias, estantes e armários repletos de dossiês, pilhas de papéis, fotografias, garrafas de vinho ou discos portugueses, o comendador por Portugal (1997) e Luxemburgo (2010) conta que um dos objetivos é apoiar a parada militar: stands do CASA vão "oferecer comida e bebida gratuitamente" aos muitos participantes esperados para, entre outras coisas modernas, verem "viaturas e equipamentos militares da II Guerra Mundial" expostos na Avenida da Gare. Ao lado, um lagar com uvas para mostrar ao vivo "a maneira antiga de fazer vinho" português e grupos folclóricos a dançar.

Mas não são só luxemburgueses, como uma ex-burgomestre e antiga ministra dos Negócios Estrangeiros (na casa dos 80 anos) que vão às festas e eventos do CASA, criado em 1980. No fim de março, no 37.º aniversário do centro, estava Cristina Almeida - que há duas décadas fora cônsul-geral no Luxemburgo e é agora embaixadora de Portugal na Ucrânia.

José Trindade, natural de Levides, Viseu, chegou ao Luxemburgo de comboio - e saiu da gare a correr à frente da polícia. Escondido por um alentejano desconhecido, começou a trabalhar logo no dia seguinte, 8 de março de 1970. "Foram 36 anos. O primeiro foi muito difícil... o processo de legalização, o trabalho... depois melhorou e cheguei a chefe do centro de segurança do aeroporto. Por ter essas dificuldades todas, prometi a mim próprio que se pudesse ajudaria outros portugueses. Foi o que fiz e ainda não havia CASA."

José Trindade com o Presidente da República junto às três emigrantes portuguesas que convenceu a irem recensear-se

"Desde muito cedo" ligado a associações lusas de futebol (ver caixa) e instituições como o Comité Olímpico do Luxemburgo ou o Conselho Nacional de Emigração, entre outras nacionais e locais, José Trindade teve muitos "encontros com pessoas de poder" no controlo de passageiros, o que "abriu portas para ajudar portugueses e impedir que fossem expulsos". "Tinha tanto trabalho... corri alguns riscos no aeroporto, porque quando [os emigrantes] souberam que tinha boa relação com os ministérios começaram a fazer fila para falar comigo. Tive de fazer um apelo para não irem lá porque o emprego ficava em risco... os chefes sabiam que o fazia para a comunidade, foram flexíveis e ajudaram, mas havia riscos".

"Tive sorte, os luxemburgueses sempre acreditaram em mim. Foi de todas essas portas que se abriram que [os] compreendi sempre de forma diferente de outros portugueses e consigo ajudar outros", admite o fundador do CASA - eleita em 2007 a primeira instituição portuguesa da Europa e segunda do mundo (dá formação e apoio social, jurídico, psicológico).

À memória vem, entretanto, o primeiro piquenique da comunidade (2002). O grão-duque Henri, há meses no cargo real, associou-se ao evento e, quando "o protocolo [determinava] 20 a 40 minutos" no local, "esteve quatro horas. A grã-duquesa dançou, os filhos jogaram, comeram sardinhas, beberam vinho verde... foi um convívio muito bom e muitos portugueses tiveram oportunidade de tirar fotos, que é sempre muito difícil".

Oito anos depois, a família real esteve nos 30 anos do CASA e "a rua [onde está a sede] foi fechada durante cinco ou seis horas".

Em suma, conclui José Trindade: "Sei as escadas que posso subir mas também as que não posso subir. Não dou passadas muito largas, porque podem ser em falso. Os luxemburgueses são nossos amigos, mas também temos de os compreender... e quando começarem a sentir dificuldades, os portugueses sentirão primeiro."

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