Trânsito é a grande falha numa cidade com qualidade de vida

Inquérito a 2500 lisboetas revela uma opinião global positiva dos residentes, com duas exceções: o trânsito e o estacionamento

O preço e a disponibilidade da habitação em Lisboa são preocupantes, mas é o estacionamento e o trânsito que, acima de tudo, incomodam a vida dos lisboetas. Eventualmente, até para fazer aquilo que mais satisfação lhes dá na cidade: aproveitar os cafés, restaurantes e esplanadas, o espaço público, os espaços verdes e a oferta de atividades culturais e de lazer. Mas, no deve e haver, os lisboetas têm uma opinião largamente positiva da sua cidade: 81,7% consideram que a qualidade de vida na cidade é boa e 8,3% muito boa. Quando a realidade em causa é o bairro, 80,7% dão uma apreciação positiva e 7,8% muito positiva.

Este é o retrato de Lisboa vista pelos seus habitantes, traçado num inquérito feito pelo Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que abrangeu 2502 residentes, com idade igual ou superior a 15 anos. Um estudo pedido pela Câmara de Lisboa , que tem por objetivo analisar a perceção dos lisboetas sobre a cidade, no contexto da reforma administrativa feita há três anos. O trabalho surge na sequência de um inquérito idêntico feito em 2010 e que serviu depois de apoio à definição da transferência de novas competências para as freguesias.

Os números revelam que o trânsito é a grande fonte de insatisfação de quem mora na cidade - 58,5% dos inquiridos mostra-se pouco ou nada satisfeito com este item. O estacionamento vem logo atrás - 53,7% faz uma apreciação negativa das condições que a cidade oferece. São os dois pontos que merecem uma apreciação maioritariamente negativa. No pódio das queixas dos lisboetas está ainda o preço e a disponibilidade da habitação na capital, neste caso com 42,3% de apreciações negativas.

Em sentido inverso, a oferta e a qualidade dos cafés, restaurantes e esplanadas, assim como a oferta de comércio e serviços, é o que mais agrada aos lisboetas na sua cidade: 89,7% dizem-se satisfeitos ou muito satisfeitos com a restauração e o comércio na capital. A pouca distância surge a oferta e qualidade dos espaços públicos (89,2%), dos espaços verdes (85,6%) e a oferta e qualidade de atividades culturais e de lazer (81,8%). Questões como a qualidade ambiental, a segurança, a recolha de lixo ou a oferta de serviços de saúde merecem apreciações positivas próximas ou superiores a 70%. Já quanto às obras no espaço público, 53,3% afirmam-se satisfeitos, mas 26,8% dizem-se, ao invés, pouco satisfeitos.

O inquérito faz idêntica abordagem em relação aos bairros. A este nível os aspetos positivos mantêm-se , mas com a "qualidade ambiental" e a segurança nas ruas também destacados. Nos negativos, a insatisfação com as oportunidades de emprego salta para o primeiro lugar, seguindo-se a manutenção e limpeza dos passeios (41,6% de opiniões negativas) e o estacionamento (41,2%).

Se o grau de satisfação dos residentes com os transportes públicos na capital revela uns inesperados 72,6% de opiniões positivas, um número que parece bastante dissonante das queixas constantes quanto à mobilidade na cidade, há um outro dado que pode explicar esta dissonância. Nada menos que 37% dos inquiridos usa transporte próprio para se deslocar para o local de trabalho ou de estudo, percentagem a que se somam mais 24,4% que se deslocam apenas a pé. A demora nas viagens e uma diferença de preço face ao transporte próprio que "não compensa" são as duas principais razões apontadas pelos inquiridos para não usar mais os transportes públicos.

Higiene urbana tem de melhorar

O inquérito debruça-se também sobre as mudanças percecionadas na cidade nos últimos três anos, ou seja, depois da implementação da reforma administrativa. Neste capítulo, e ao nível da cidade, os lisboetas destacam pela negativa as obras (25,6%), as mudanças relacionadas com o trânsito (23,5%) e o estacionamento (11,5%). Pela positiva, sublinham a manutenção dos espaços públicos (42%), o turismo (11,4) e o estado do edificado (9%).

Já ao nível das freguesias a mudança positiva apontada com mais frequência é a manutenção dos espaços públicos (27,4%), seguida pela higiene urbana (13,1%), criação e melhoria de espaços verdes e equipamentos de proximidade - em boa medida áreas que se inserem nas competências transferidas em 2013. Mas curiosamente, a higiene urbana e o espaço público surgem também no top do que ficou pior, uma aparente contradição que os autores do inquérito admitem que possa resultar de uma diferente atuação das freguesias nestas áreas.

Questionados sobre o que é mais urgente fazer para melhorar a qualidade de vida na cidade - em pergunta aberta, sem respostas pré-definidas - a área mais apontada é precisamente a da higiene urbana (13,6%), seguida pela manutenção dos espaços públicos (10,6%) e o estacionamento (7,7).

O mote para o estudo pedido pela câmara ao CICS.NOVA passa precisamente por avaliar a forma como os lisboetas olham agora para a cidade, depois da reforma administrativa que, em 2013, reduziu o número de freguesias de 53 para 24 e resultou na transferência de novas competências para as juntas de freguesia. Primeiro facto a assinalar: 57,7% dos inquiridos afirma ter tido conhecimento desta mudança, mas um número igualmente significativo - 42,3% - diz desconhecer tal alteração. Questionados sobre se notaram alterações na qualidade de vida da cidade, a maioria diz que se manteve (55,9%), 36,5% que melhorou e 3,3% que piorou.

Para João Seixas, professor da Universidade Nova , um dos coordenadores do estudo de 2010 e agora coordenador da equipa que tem monitorizado a reforma administrativa na capital (e que apresenta relatórios semestrais à Assembleia Municipal), este inquérito vem traçar uma "tendência" num processo que tem de ser avaliado a "médio-longo prazo". Mesmo que "munícipes não associem ainda o aumento da qualidade de vida à reforma administrativa não deixa de ser sintomático que as áreas onde os cidadãos se sentem mais satisfeitos sejam aquelas que estão ligadas à transferência de competências", diz ao DN.

O inquérito aos lisboetas vai ser hoje apresentado numa conferência internacional no Fórum Lisboa, dedicado à reforma administrativa da cidade.

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