"Tive de dormir com a luz acesa. Só via casas a arder e pessoas a gritar"

O bombeiro Ricardo Pedro, veio de Coimbra e está desde Sábado no combate aos incêndios

O incêndio de Escalos Fundeiros já queimou 25 969 hectares, mais de 90% da área verde da região

"Estou aqui desde sábado. No domingo à noite estava tão cansado que tive de ir dormir a casa. Fui, mas acabei por dormir com a luz acesa. Só ouvia gritos de pessoas e casas a arder". Ricardo Pedro é um dos centenas de bombeiros que desde a tarde de sábado estão na região de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera a lutar contra aquele que é o maior incêndio do ano em Portugal e o mais mortífero de sempre. Estão confirmados 64 mortes - a mais recente foi a de um bombeiro de Castanheira de Pera que estava em estado grave depois de ter, com outros três colegas também eles em estado grave, sofrido um acidente logo nas primeiras horas do fogo - e 135 feridos.
Ao início da noite desta segunda-feira os responsáveis operacionais garantiam que 70% dos incêndios estavam controlados, mas receavam que durante a noite as frentes de Pampilhosa da Serra e a de Góis se juntassem numa só.
Para o evitar estiveram em ação durante o dia centenas de operacionais, e meios aéreos como os helicópteros Kamov que foram largando água em zonas onde os bombeiros não conseguiam chegar. O que era quase a totalidade das serras onde ardeu toda a floresta. Já os canadair que vieram de Espanha e de França - dois de cada um dos países - tiveram dificuldades para sair do aeródromo de Monte Real pois tinham dificuldades em atuar devido ao fumo que dificultava a visibilidade.

"Estava a passear em Coimbra"
Ricardo é de Penela, uma das zonas atingida pelo fogo. Na serra de Espinhal hectares de vegetação não passavam ontem de resíduos negros, com o fumo a sair do chão, postes de eletricidade no chão e pequenos toros de madeira a arder. Situações que obrigam os bombeiros a uma atenção redobrada: um pequeno fogacho e pode surgi um reacendimento com projeções de faúlhas para uma área ainda não queimada.

É este o trabalho que a equipa de este estudante de engenharia florestal tem agora pela frente. Nos próximos dias vão andar serra acima e abaixo a tentar apagar logo no início qualquer ameaça.
Com uma experiência de seis anos como bombeiro voluntário, Ricardo nunca tinha passado por um desafio como este e nem pensou nisso quando respondeu a um "sms" no sábado para se apresentar no quartel. "Estava com a minha namorada em Coimbra quando me chamaram. O incêndio foi uma coisa surreal. Ardeu tudo", recorda.

E a aflição que se viveu também. Ao ponto de ter recebido "30 ou 40 mensagens durante o dia, de amigos, da família. Fiquei sem bateria logo de início". A ida a casa fez descansa a família e a namorada. O regresso às paisagens queimadas fez reavivar a dureza dos momentos vividos. Que se agravou com a notícia da morte de um dos bombeiros de Castanheira de Pera que estava gravemente ferido devido a um acidente sofrido no sábado: um choque com um carro que tentava sair da zona mais complicada em Pedrógão Grande fez com que os quatro elementos da corporação sofressem ferimentos muito graves. O elemento que morreu ontem chamava-se Gonçalo, tinha 40 anos e um filho. "Isso afeta muito a nível psicológico. Claro que estamos sujeitos a isso, é o trabalho, mas é triste. Estamos a dar o nosso corpo ao manifesto", desabafou.

A recolha no V.A.C.A.S

A logística para o acompanhamento de uma operação de combate a um incêndio é complicada, mas esta com várias frentes, quilómetros a fio de floresta e corporações de todo o país envolvidas é ainda mais complicada.

Em Sobreiro (Pedrógão Grande) os bombeiros iam recebendo rações oferecidas por voluntários que andavam nas estradas. Em Penela, foram funcionários municipais e da proteção civil que andaram durante o fim de semana a dar "sandes, barras energéticas e águas", contou ao DN Patrícia, uma bombeira de 29 anos, que decidiu ser voluntário seguindo o exemplo do irmão. Já Ricardo contou que em algumas aldeias os habitantes "abriram as portas e ofereceram-nos comida".

Nesta lógica de solidariedade há ainda o exemplo do clube V.A.C.A.S. (Veteranos do Atlético Clube Averlanense", de Avelar (concelho de Ansião).No sábado o clube estava a promover uma festa de encerramento da época desportiva quando começaram a entrar no gimnodesportivo "pessoas que vinham a fugir do fogo", contou ao DN José António Rêgo, da direção do clube.

"As pessoas dormiram aqui no pavilhão, forrámos os balneários com colchões, ficaram alguns da relva do campo", adiantou o responsável de uma agremiação que recebe o que a população vai dando para distribuir e que depois leva esses mantimentos aos bombeiros e à Instituições Particulares de Segurança Social. Num dos lados do pavilhão um grupo de mulheres separava roupa e sapatos, no corredor de acesso ao pavilhão acumulavam-se garrafas de agua e uns metros à frente estavam enlatados, massas, bolachas, massas, pacotes de leite. Tudo produtos que serão distribuídos por estes dias.

A completar este apoio a quem por ali surge - incluindo elementos da GNR - há uma mesa posta quase de uma ponta à outra do pavilhão para que quem chegasse pudesse comer uma sopa, frango assado, pão e fruta.

Uns quilómetros ao lado, já houve durante o dia de ontem distribuição de mantimentos. Ao DN a vereadora da Câmara de Pedrógão Grande, Margarida Guedes, explicou que os funcionário municipais andaram a dar comida, água, medicamentos a quem mais necessitava. "Havia pessoas que achavam que era preciso pagar", explicou a vereadora do PS (que não tem pelouro). Quanto ao cenário que encontrou ainda lhe custava falar. "Vi muitas casas destruídas, talvez umas 80. As pessoas estão amorfas", descreveu.

Os primeiros no terreno

Pela serra andavam esta segunda feira militares da GNR, do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS). Há três dias que andam pelas serras desta região. São eles os primeiros a atacar o fogo assim que é dado o alerta. Têm como missão tentar terminar com o incêndio antes que este fique impossível de controlar. No sábado, houve seis ignições à mesma hora em locais muito perto, foram para um lado, não conseguiram chegar a Pedrógão a tempo, como contou ao DN um dos elementos que pediu para não se identificado. "Esta zona é de uma dificuldade brutal pela sua orografia. E as condições climáticas não ajudaram. Estava num sítio onde um canadair lançou água, que normalmente consegue derrubar árvores, e nem me molhou. A água evaporou logo, não chegou ao chão". Este elemento esteve na estrada municipal 236, em Pedrógão Grande, onde morreram 30 pessoas, adiantou que um acidente fez com que os carros não pudessem avançar, tendo sido apanhados pelo fogo, ao mesmo tempo que algumas pessoas que tinham saído dos veículos foram atropeladas porque não existia visibilidade na estrada devido ao fundo.

Muitas dificuldades pelo terreno que enfrentaram, pela temperatura que se fazia sentir, pelos mantimentos que vão recebendo a conta-gotas. E a meio do dia pela morte do companheiro. São dias muito complicados os que as centenas de bombeiros têm enfrentado na região centro. Mas seguem em frente. Como dizia ao DN o subchefe Augusto Santos. "A morte de um colega afeta sempre. Mas, não podemos parar. Temos é de redobrar o nosso cuidado."

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