"Os americanos têm uma Pocahontas, no império português eram tantas"

Almoço com João Paulo Oliveira e Costa, historiador

Início de tarde de verão e é impressionante o tom esmeralda do mar do Guincho que se avista da ampla janela. Ponha-se maiúscula no m de mar e em vez de paisagem passa-se a ter o nome de restaurante, um edifício rosado mesmo na falésia. "Costumo vir aqui com a família e amigos. Gosto deste oceano à minha frente", diz João Paulo Oliveira e Costa, historiador tão reputado como prolífero, capaz de produzir teses, biografias e até romances, como esse O Samurai Negro, de que está a preparar o segundo volume de uma trilogia. Cheguei atrasado meia hora ou mais, porque pouco frequentador destas paragens (como setubalense, sou mais da Arrábida) passei junto ao Mar do Guincho sem me aperceber e fui a conduzir enganado quase até Cascais. Peço desculpa pela demora e atiro-me a uma saladinha de polvo que me parece deliciosa, mais não seja por serem já duas da tarde. O professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa serve-se também e elogia. O polvo está ótimo, nem mole de mais, nem rijo a ponto de custar a trincar. O restaurante tem fama e faz por merecê-la. A gula faz-nos ainda esvaziar o pratinho de gambas.

Conto a João Paulo que em outubro e novembro irei frequentar um curso dado por ele no Museu do Oriente. "Ah! O sobre os portugueses na Ásia na segunda metade do século XVI?", questiona-me. Sim, e pergunto se ainda se lembra de quando lhe pedi um comentário para um artigo que fiz para o DN sobre uma interpretação de Hamlet num barco inglês ao largo de África, com tradução em português das palavras de Shakespeare para uns chefes tribais nossos aliados. Vejo pelo rosto que não, pelo que comento antes o livro História da Expansão e do Império Português, coordenado pelo meu convidado e por dois outros historiadores, José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira, do qual fiz a recensão para o jornal e com um incrível número de leitores na edição online. O título era "Império português durou quase 600 anos porque sempre foi capaz de se reinventar".

Em reação, o historiador realça como em 1640 todas as parcelas do império com exceção de Ceuta trocaram os Filipes por D. João IV, "o que significa que de alguma forma haviam de sentir-se portugueses". João Paulo fala com tal entusiasmo dessa época da Restauração que chega a dizer que "talvez tenha sido o apogeu de Portugal, mais ainda do que o século XVI". Peço-lhe que me explique melhor e logo o faz, sublinhando como foi extraordinário que o país, ao mesmo tempo que combatia na Europa para assegurar a reconquista da independência após 60 anos de União Ibérica, conseguisse travar a cobiça holandesa no Brasil, em Angola e em Moçambique. O papel da miscigenação com as populações locais, a que já voltaremos porque tem sido tema de polémica recente, foi importante nessas guerras como noutras, nota o historiador. "Todos tinham aliados locais, mas os nossos aliados eram também primos e cunhados", diz, referindo-se ao facto de por ausência de portuguesas nas viagens dos primeiros séculos das Descobertas o casamento com as indígenas ter sido comum. "Tinha sido já assim que conseguimos expulsar os franceses da baía de Guanabara em meados do século XVI", acrescenta. Ou seja, os índios de Villegagnon eram simples aliados de interesses, enquanto os índios que ajudaram Mem de Sá e Estácio de Sá eram família dos portugueses. Mesmo que seja a visão francesa desse episódio da história do Rio de Janeiro, vale a pena ler Pau-Brasil, de Jean-Christophe Rufin, romance premiado com o Goncourt.

Foi esta mania (ou necessidade) de nos juntarmos aos das novas terras que explica como Portugal criou em duas décadas cinco grandes cidades que existem ainda hoje e só possíveis de fundar porque desde o primeiro momento lá viviam os indígenas, fossem índios brasileiros ou chineses. Para ter a certeza de quais seriam essas cidades, peço a João Paulo que as enumere. "São Paulo, Macau, Rio de Janeiro, Nagasáqui, Luanda." Em 1554, 1557, 1565, 1571 e 1576. "Impressionante", noto.

Comento que em fevereiro estive em Nagasáqui ao serviço do DN e que fiquei impressionado como os japoneses guardam boa memória da presença portuguesa nos séculos XVI e XVII, que acabou, porém, mal, com a perseguição aos jesuítas, como mostra o filme O Silêncio, de Scorsese.

Até continuam a fazer o castela, bolo com semelhanças ao pão-de-ló, que toda a gente sabe ter origem portuguesa, como aliás as palavras kopu ou pan , já para não falar do tempura, inspirado nos peixinhos da horta e cujo nome vem de têmporas, a época em que é suposto os católicos não comerem carne.

João Paulo, cujas teses de mestrado e de doutoramento foram sobre o Japão, diverte-se a ouvir o meu relato de reportagem, mas acrescenta um pormenor que diz mais do que qualquer outro que eu tenha citado. "Em 1993 a Science dedicou um número ao Japão. E havia um texto na revista feito pelo próprio imperador, já Akihito. No texto, o imperador diz que a primeira grande vaga de ciência o Japão deve-a à China e que a segunda chegou com os portugueses." E não estamos a falar da introdução da espingarda.

Por recomendação do convidado, a escolha para prato principal é uma dourada ao sal. Para beber, branco, uma garrafa pequena de Planalto. João Paulo diz que costuma preferir tinto, "mas com marisco e certos peixes aceita bem o branco". Pergunto-lhe se é um conhecedor? Responde logo que não: "Conheço três ou quatro vinhos de qualidade e em conta. E defendo-me com o Planalto."

Avançamos, enquanto se prepara a dourada, para uma questão que tem levantado polémica nos tempos recentes, com uma visão negra do passado imperial português a querer impor-se. Peço ao historiador que me diga se, de facto, o colonialismo português, que durou da conquista de Ceuta em 1415 até à devolução de Macau em 1999 (os tais quase 600 anos de império) foi diferente.

"Diferente sim. Se foi melhor ou pior, não posso nem devo qualificar. Porque eu sou historiador, não sou juiz. Não faz sentido avaliar com os valores de agora o império português dos séculos XVI e XVII. Sobretudo, é um império que assenta na mestiçagem. As mulheres portuguesas não saem de Portugal. Por isso é que o país demograficamente não quebra, aqui na Europa. Como as mulheres não saem, a dominação territorial que se faz, e mesmo a capacidade de fixação em cidades na Ásia, só é possível com o casamento com mulheres locais. Não é uma opção pelo exotismo das outras mulheres. É porque não há mulheres brancas com quem possam casar", responde. E prossegue: "Há uma teoria hoje que diz que a miscigenação decorre da violação. Mas isso é uma ideia sexista de que o homem viola a mulher sistematicamente. Não pode ser assim. Se os portugueses, que eram a minoria em todos estes sítios, passassem a vida a violar as mulheres locais, os homens lá teriam reagido." Sabe-se, digo eu, que os portugueses viviam com as mulheres da Índia, de África, do Brasil, do Japão e tinham filhos com elas, e que esses filhos eram portugueses. "Sim", confirma João Paulo. Vê-se que o tema o entusiasma e que a polémica lhe parece tonta: "Sobretudo os filhos dos casamentos ou os bastardos assumidos eram depois tornados portugueses. Os biombos Namban, por exemplo, são retratos que mostram isso claramente. Porque estes biombos retratam as pessoas que vêm num navio negro. E os portugueses são todos os que estão vestidos à portuguesa. E vestidos à portuguesa temos os próprios negros , que são escravos, em princípio, temos os portugueses da Europa, que são os velhos, e temos os portugueses da Ásia que são os novos. Todos os jovens vestidos à portuguesa têm olhos em bico como os japoneses e os chineses. O artista japonês faz ele próprio a distinção entre ver um caucasiano, que é o velho, e um asiático, que é o novo. E que também está vestido à portuguesa."

Chega a dourada. Para acompanhar, legumes cozidos. "Está excelente, não acha?", questiona-me o frequentador habitual do Mar do Guincho. Muito bom , respondo. Sou grande apreciador de peixe, sobretudo na grelha, mas esta dourada ao sal é deliciosa. Percebo agora porque é uma espécie de estrela da casa. Enchemos os copos e retomamos o tema do colonialismo português. "A questão é perceber que se olharmos para Boston ou para outra cidade qualquer norte-americana do início do século XVII e olharmos para as cidades portuguesas do Brasil na mesma altura, não são iguais. As cidades fundadas pelos ingleses são brancas e as cidades portuguesas não são. Os jesuítas dizem que em São Paulo, no século XVII, as pessoas falam que querem confessar-se "em linguagem", ou seja querem confessar-se em tupi. Culturalmente, são híbridas. Mesmo em Luanda, a língua local era a língua predominante da rua até ao século XVIII. E sabe-se que em Macau a língua da rua foi sempre o chinês. Há uma dimensão depois, no caso do império português, quando se estabelece um colonialismo diferente, no século XVIII, com uma colonização com casais no Brasil. E depois, há o que se passou nos séculos XIX e XX em que o colonialismo português aí é igualzinho aos outros todos. Nessa altura, o colonialismo português é mais ou menos branco, mais ou menos mestiço? O que posso dizer é que no colonialismo português, ao contrário do inglês, não havia oficialmente um apartheid. Agora não quer dizer que não seja racista na mesma. Mas mesmo nos séculos XIX e XX temos mais histórias de ligação com os africanos por parte dos portugueses do que por parte dos franceses ou dos ingleses. De qualquer maneira, aí é difícil estabelecer grandes diferenças. Para os séculos XVI, XVII e XVIII, é indiscutivelmente diferente. Aliás, nos Estados Unidos falar de um mestiço é falar de uma coisa lendária. Porque são meia dúzia. Falar de mestiços no Brasil é uma banalidade. Os americanos têm uma Pocahontas, no império português eram tantas..."

O historiador não deixa de falar da escravatura, da qual os portugueses foram grandes beneficiários durante séculos, nem da expulsão e perseguição dos judeus, "que eram portugueses leais". Mas detesta que o politicamente correto de hoje se queira impor à interpretação da história. Percebe-se que está disposto a defender a história com unhas e dentes como defende o seu Benfica, afinal é comentador na BTV, participando no programa As Lanças Apontadas, nome que já diz muito. João Paulo ri-se. É um ferrenho benfiquista, mas diz procurar sempre o argumento certo para sair em defesa do seu clube . "Faço um boneco benfiquista, mas acima do futebol está a minha imagem."

Nascido em 1962, em Lisboa, pai de um rapaz já com 23 anos e de uma menina de 12, o historiador é também um grande viajante, como percebe pelas fotografias quem o segue no Facebook. "Estive agora na Alemanha, na rota de Lutero. Antes tinha estado com um grupo no golfo Pérsico, a visitar os vestígios da presença portuguesa", conta João Paulo, que coopera com um agente de viagens especializado neste tipo de turismo histórico-cultural. "É muito interessante. Quem faz estas viagens tem um bom nível cultural e quer saber mais."

Chegam os cafés e, visto da nossa mesa, o mar junto ao Mar do Guincho continua verde, belo e selvagem. Penso como foram corajosos os portugueses que se lançaram rumo ao desconhecido há tantos séculos, primeiro pelo Atlântico, depois pelo Índico e pelo Pacífico (batizado por Fernão de Magalhães, um dos nossos, mas ao serviço de Espanha). E como o país fundado por Afonso Henriques, que por vezes se diz uma impossibilidade, vai a caminho dos nove séculos. João Paulo comenta: "Portugal é uma impossibilidade transformada em possibilidade. Porque Portugal é indefensável, se pensarmos bem. Embora a localização da fronteira seja onde começa a ser defensável, é um país que pela sua dimensão é indefensável. E é também um país economicamente inviável mas que sempre teve a teimosia de querer estar separado de Castela. E querendo estar separado de Castela, o resto da Europa viu sempre com bons olhos esta diferença. Por duas razões. Primeiro, para diminuir a hipótese de uma grande potência económica ibérica. Em segundo, porque em caso de guerra havia sempre a garantia de que um pedaço de costa de Península Ibérica era atracável."

Pedida já a conta, sempre paga pelo DN nesta rubrica apesar de ser o convidado quem escolhe o restaurante, pergunto ao historiador como é que se explica que esta impossibilidade tenha dominado meio mundo. "Isso foi fruto das circunstâncias. Como é uma impossibilidade, tem de ir à procura daquilo que não tem. Estando na periferia e sabendo que a única forma de sobreviver era a neutralidade face à Europa, para ter um aumento económico tem de se ir procurar nos sítios. Se não é a Europa, tem de se ir para o desconhecido. E tem de se procurar um império. E vai procurar-se um império e essas novidades económicas, onde não há competição europeia. Não havendo competição europeia e havendo ainda uma décalage tecnológica a nosso favor em relação aos indígenas da América, de África e mesmo da Ásia, foi possível criar redes mercantis oceânicas e intercontinentais."

A tarde já vai a meio e a conversa longa, mas mesmo assim não deixo partir o professor sem mais uma questão: É essa nossa insuficiência económica que explica que ao longo da história tenhamos andado sempre atrás da pimenta da Índia, do ouro do Brasil, de algo que nos fizesse finalmente ricos? Resposta: "Fomos ricos mas através de bens que são finitos. A única coisa infinita que temos é o sol é por isso que agora estamos a apostar no turismo. A vantagem do turismo, está a crescer por causa da instabilidade noutros sítios não longe daqui. Isto é um sítio pacífico. Isso é uma das vantagens de Portugal . É um sítio de desenvolvimento pacífico. Torna-se atrativo por ser um sítio pacífico e que inspira confiança. Mas Portugal sempre foi à procura no exterior daquilo que não tinha. Do Eldorado. E a atual busca de um nova configuração territorial com a plataforma continental, que vai aumentar exponencialmente a nossa superfície, é uma nova procura das riquezas do oceano." Fez todo o sentido a escolha do restaurante à beira-mar. Este verde é o futuro.

Mar do Guincho

› 2 couverts

› saladinha de polvo

› entrada de gambas

› dourada ao sal

› 1 /2 Planalto

› 1 água

› 2 cafés

Total: 115 euros

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