O Parlamento é a cara de Mário Soares. E o Panteão Nacional pode esperar

Assembleia da República votou ontem por unanimidade um voto de pesar pela morte do antigo Presidente da República, apesar de os partidos terem lido a sua vida política de modo diverso. Para o Panteão faltam 20 anos

Na hora da homenagem da Assembleia da República, houve unanimidade no voto e nas bancadas de pé, consenso alargado nos aplausos e uma larga maioria no reconhecimento da vida e da obra do homem. Na hora da morte, Mário Soares é o político de quem "todos estiveram alguma vez ao lado dele e contra ele", como sublinhou ontem o presidente do Parlamento, Eduardo Ferro Rodrigues, no texto de pesar aprovado por todos os deputados.

Na tribuna sucederam-se os elogios de todos, na "casa que era" de Soares, como defendeu Luís Montenegro em nome do PSD, mesmo os que preferiram sublinhar as "divergências", como o PCP, ou que preferiram dizer, como o CDS, o que pensam "com a frontalidade" com que Soares também dizia as coisas.

Soares é o homem que "cometeu erros, certamente, mas sempre entendeu a política democrática como uma atividade apaixonante, feita de vitórias mas também de derrotas, assente em escolhas claras e convicções fortes", leu Ferro Rodrigues, no voto de pesar da Assembleia da República. "Todos estiveram alguma vez ao lado dele e contra ele. Ao mesmo tempo, todos lhe reconhecem a lealdade com os adversários e a tolerância com a diferença", apontou Ferro.

Soares é o político que "ensinou-nos, a todos e a todas, que desistir não é o caminho e que o futuro existe, desde que não deixemos de o sonhar", "independentemente das imperfeições que tinha e dos erros que cometeu", disse André Silva, do PAN. "Afinal, somos todos seres humanos, imperfeitos e errantes."

Soares é o homem que "concorde-se ou discorde-se das posições assumidas" por ele "ao longo de uma vida de intervenção política, o que fica e que nos parece consensual é que estamos a falar de um homem que marcou incontornavelmente a história do nosso país", como reconheceu José Luís Ferreira, em nome de Os Verdes.

Soares é o político com quem "o PCP divergiu profundamente", como disse sem "hipocrisia" o líder da sua bancada, João Oliveira, "pelo papel destacado que assumiu no combate ao rumo emancipador da Revolução de Abril e a muitas das suas conquistas, incluindo a soberania nacional. Continuamos hoje a ser oposição a um conjunto largo das suas ideias e posições".

Soares é o homem que "o CDS, neste momento de justa e merecida homenagem, não pode deixar de recordar" pela "discordância com um processo de descolonização apelidado por muitos de exemplar mas que, a nosso ver, foi apressado e trouxe sofrimento a milhares de portugueses", explicou-se o líder parlamentar Nuno Magalhães.

Soares é, para o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, o político que foi, ao longo da sua vida, "obstinado, imprevisível, impaciente, frontal, controverso, mas sempre lutador", para depois recordar que, depois do 25 de Abril, teve, "por vezes, as forças à sua esquerda como aliadas, por vezes como adversárias".

Soares é o homem que se mobilizou pelo "projeto político enorme" que é "a nação portuguesa", sintetizado no artigo 1.º da Constituição, e que o levou a combater a ditadura, o fascismo e, "também em 74 e 75", "o fanatismo ideológico que alguns desejavam e foi ainda esse projeto de democracia e desenvolvimento que o mobilizou quando pugnou pela abertura e a adesão ao projeto europeu", disse Luís Montenegro, líder da bancada social-democrata. Que sintetizou, referindo-se ao Parlamento: "Esta casa é a cara dele." "O que aconteceu, desde a Constituinte", mas também "o que aconteceu ontem, o que vai acontecer amanhã", "tudo isto é o espelho da suprema causa da vida" de Soares, disse Montenegro: "A causa da democracia, da liberdade, da vontade soberana do povo, da justiça social."

Soares é o político que ensinou os portugueses sobre "a liberdade como valor primeiro" e sobre a democracia "como combate que exige a recusa da intolerância", apontou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

E Soares é o homem que "desafiou as regras do "Príncipe" na política. Foi perfeito e imperfeito. Foi ousado e cometeu imprudências. Apostou e ganhou. Apostou e perdeu. Foi fraterno e foi difícil. Nunca foi, porém, desinteressante e muito menos irrelevante. Nunca faltou ao seu país. Era cosmopolita. Foi sempre universalista. Foi sempre, por conseguinte, um grande português", saudou o líder da bancada do PS, Carlos César.

Ferro fechou a sessão evocativa, depois do voto unânime, aplaudido da direita à esquerda, ainda que com poucos aplausos no PCP: "Muito obrigado, Mário Soares."

Esse agradecimento não se faz no Panteão Nacional. É um debate prematuro, mais ainda quando a lei determina que têm de passar 20 anos (ou cinco para uma lápide) para serem concedidas as "honras do Panteão". No final do debate, Carlos César recordou isso mesmo ao DN. Mas também se questionou que, se não for para antigos presidentes da República, para quem será o Panteão? Qualquer resposta a esta dúvida será dada mais tarde, muito mais tarde. Não há pressas para abrir já um debate que - depois das rápidas honras concedidas a Amália Rodrigues e a Eusébio - foi travado pela alteração dos prazos na lei.

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A tradição deu as boas-vindas à modernidade. O grupo de Zés-Pereiras Unidos da Paródia recebeu o MIMO em Amarante com uma atuação no largo da Igreja de São Gonçalo, antes do programa do festival começar, numa noite que juntou no Parque Ribeirinho Três Tristes Tigres, Tinariwen e Nação Zumbi. Após os gigantones terem saído de cena, um grupo de brasileiros radicados em Portugal aproveitou para tirar fotografias empunhando mensagens contra Michel Temer e a rede Globo e de apoio à Nação Zumbi.

O histórico grupo brasileiro foi o último a tocar na primeira noite do festival, já de madrugada, mas antes, ao fim da tarde, participou numa conversa no Fórum de Ideias. Moderado pelo consultor editorial Tito Couto, o encontro com o guitarrista Lúcio Maia e com o baixista Dengue foi um cartão de visita para quem não conhecia bem o grupo de Recife, e em especial do seu malogrado líder, Chico Science. Lúcio Maia lembrou que nos anos 80 a cidade chegou a estar classificada como a quarta pior do mundo para viver - e que a origem do nome do movimento manguebeat se deve à ideia de "afetividade" de Chico Science para com os manguezais, porque Recife foi construída à custa do aterro dos mangues. Sobre a mistura de sonoridades que caracteriza a Nação Zumbi, Dengue comentou: "Foi uma sacada muito grande do Chico. No final das contas, o nosso som era inclassificável, coisas de Pernambuco com o rock. Até para nós, hoje, soa estranho e novo o primeiro disco."

Nada estranho foi o primeiro concerto do festival, o do Quarteto Arabesco com Pedro Jóia. O grupo de cordas e o guitarrista encheram a Igreja de São Gonçalo com um repertório que começou na clássica (Luigi Bocherinni), passou pelo mestre Carlos Paredes, prosseguiu com Armandinho e Raul Ferrão, e culminou nas variações sobre fado corrido, da autoria de Jóia. Um arranque tranquilo e virtuoso. A poucos metros de distância, no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, um septuagenário carioca com aura de lenda estreava-se em Portugal: Jards Macalé.

Mas o momento de maior simbolismo foi protagonizado por outro compatriota e colega de ofício, quando se viu Rodrigo Amarante a distribuir abraços a fãs a meio da ponte de São Gonçalo. Sobre o Tâmega também houve ação política: um movimento ambientalista passava a mensagem contra o projeto de construção de uma barragem no curso do rio. Nem tudo é música num festival como o MIMO.

E prova da importância para a região deste evento, o ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral aproveitou a deslocação à cidade, na qual inaugurou uma start-up, para conhecer o festival, acompanhado do autarca e da organizadora, Lu Araújo.

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