O cantinho militar da Portela por onde passam todos os VIP

Coronel Rui Campos, comandante do AT1 (Aerodromo de Trânsito nº1, da Força Aérea), vulgo Figo Maduro.

Vladimir Putin foi um dos chefes de Estado a aterrar no AT1, conhecido como Figo Maduro. Marcelo Rebelo de Sousa também por lá tem trabalhado mais do que uma vez.

O Aeródromo de Trânsito n.º 1 (AT1) da Força Aérea é a parte militar do aeroporto de Lisboa e que muitos portugueses mal conhecem, a começar pela presidente da Junta de Freguesia dos Olivais, Rute Lima, aquando da sua posse e que em maio deste ano agraciou a unidade com a Medalha de Honra da autarquia. Os próprios habitantes do bairro, na sua grande maioria, "não sabiam o que o AT1 fazia para lá de receber militares" e ser um mero quartel, conta ao DN o seu comandante, coronel Rui Campos.

Esta unidade da Força Aérea, por vezes designada simplesmente como Figo Maduro e dentro da qual existem vários tipos de figueiras, foi diminuindo de tamanho ao longo dos anos mas continuou a manter um conjunto de funções relevantes - começando por ser a porta de entrada e saída dos chefes de Estado e outras altas individualidades - mais de meia centena no primeiro semestre de 2017 - que visitam o país ou fazem escala no Aeroporto Humberto Delgado, em trânsito para outras paragens.

Ainda a nível civil, o AT1 - onde estão colocados cerca de oito dezenas de militares (já foram mais de 300) nas áreas da segurança, das operações, da carga ou administrativa - é também o ponto de passagem das missões de transporte de dinheiro a cargo do Banco de Portugal, bem como de entrega de deportados e de prisioneiros.

A verdade é que a principal atividade do AT1 ainda é no plano militar, por ser o local donde partem e onde chegam os contingentes militares destacados para as missões no estrangeiro; daí saem os voos semanais de transporte de passageiros e carga para os Açores e, a cada 15 dias, para a Madeira; aí está o entreposto do Correio Postal Militar; o seu hangar funciona agora como oficina de manutenção e reparação - que deixou de ser feita nas OGMA - das aeronaves Falcon 50, usadas no transporte de órgãos que ali são recolhidos por equipas hospitalares.

Por fim, embora raramente tenham ocorrido, é também no AT1 que se realizam as cerimónias fúnebres de receção aos militares mortos em combate no estrangeiro.

Putin fez expandir a unidade para o aeroporto

Na madrugada de 18 de novembro de 2016, aterrou em Lisboa o quinto dos Ilyushin Il-96 da frota presidencial russa. Com agentes do serviço secreto de Moscovo a formar um corredor impenetrável, Vladimir Putin desceu as escadas, entrou noutro e descolou de imediato, a caminho das Américas. Contudo, para trás ficou um episódio que "virtualmente fez expandir alguns metros o espaço militar para a área civil" do Aeroporto Humberto Delgado, conta ao DN o comandante do Aeródromo de Trânsito n.º 1 da Força Aérea.

Isso ocorreu já neste ano, diz o coronel Rui Campos, com o primeiro-ministro da Índia e um alto responsável chinês - e, por proposta dos responsáveis do aeroporto, acontecerá sempre que os aviões das altas entidades estacionem junto da placa do AT1 por impossibilidade de ali entrar (questões de segurança ou envergadura das asas).

Com as regras protocolares a determinarem que um chefe de Estado seja recebido pelo embaixador do seu país, o chefe do Protocolo de Estado português e o comandante do AT1 - além do direito a guarda de honra militar. Mas fora do AT1 "são os civis que mandam. Não tenho qualquer autoridade", reconhece Rui Campos, que não acompanhou os diplomatas à chegada de Putin.

Acontece que "os civis não gostaram muito" da forma como decorreu a cerimónia, pois os agentes do FSB (sucessor do KGB) literalmente não lhes ligaram. Nas semanas anteriores tinham deixado claro que "queriam que a mudança fosse feita na parte militar do aeroporto", lembra Rui Campos. "Dissemos que não dava", até por não haver espaço para uma operação que envolvia sete aviões.

Curiosamente, o oficial soube horas depois que bombardeiros russos tinham estado "nessa mesma noite" junto do espaço aéreo português, após serem seguidos ao longo do Atlântico por caças aliados - porque alegadamente vinham a "testar as defesas da NATO".

Marcelo gosta de trabalhar no AT1

Marcelo Rebelo de Sousa tem sido mais do que um passageiro em trânsito no AT1, como Presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas, pois já várias vezes ali ficou à noite "para trabalhar", conta Rui Campos.

A verdade é que, também nessas ocasiões em que aproveita para despachar assuntos oficiais, são frequentes as sessões de selfies com militares e civis da unidade - muitas vezes a pedido, mas não só.

Um dos episódios mais curiosos ocorreu com a senhora que ficou até mais tarde no bar do salão nobre do AT1 para servir o Presidente, caso quisesse beber água, café ou outra bebida - sendo que Sumol de laranja só com aviso prévio para ser comprado atempadamente. No dia seguinte, depois de ouvir a história da fotografia da funcionária com Marcelo, alguém brincou com ela dizendo qualquer coisa como "não resistiu a interromper o Presidente para lhe pedir uma selfie". A senhora, sem se deixar atrapalhar, fez questão de contar a sua versão da história perante o sorriso generalizado de quem ouvia: foi o próprio Presidente, quando foi ao balcão pedir uma água, quem lhe perguntou se "já tinha tirado uma selfie" com ele - e, perante a resposta negativa, não se fez rogado e chamou-a logo para registar esse momento.

Foo Fighters e o pai que quis agradar às filhas

A par dos políticos, pelo AT1 passam também figuras mediáticas como os músicos Adele, Johnny Depp ou os Foo Fighters. Esta banda, aliás, só pôde atuar há um mês no NOS Alive porque conseguiu uma alternativa ao já lotado aeroporto de Lisboa. Perante o problema de o seu Boeing 757 só descolar de Madrid se tivesse onde parquear na capital portuguesa, alguém perguntou ao coronel Rui Campos se haveria lugar na placa militar para esse efeito. O comandante do AT1, que pode autorizar a presença de até três aeronaves civis de pequena dimensão naquele local, ainda tinha espaço livre para as horas seguintes. Hesitou ao equacionar como reagiriam os responsáveis do Humberto Delgado se desse luz verde ao pedido. Mas, sendo pai de duas filhas que já tinham ido de propósito a Bruxelas para ver os Foo Fighters sem sucesso porque um dos músicos partira um pé, conta com humor que se viu no dilema de saber que uma nega "também as deixaria chateadas em casa". Acabou por dar autorização e, assim, ajudou a concretizar o desejo dos muitos fãs da banda que os puderam ver e ouvir ao vivo em Lisboa.

Corrigido às 17 45, para clarificar que a presidente da junta de freguesia dos Olivais ficou a conhecer a atividade do AT1 após tomar posse.

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