Limpar e reconstruir: palavras de ordem um mês depois do fogo

As aldeias que perderam muitos habitantes começam a ganhar vida. A reconstrução das casas avança à conta dos voluntários

Há um mês os termómetros também superavam os 35 graus, mas o caminho entre o IC8 e as aldeias que o circundam ainda era feito de verde, a esta hora. São 10.00 de sábado no Nodeirinho, essa aldeia que fatalmente entrou para o mapa por ter perdido um terço dos seus habitantes na maior tragédia provocada pelo fogo no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, onde no total morreram 64 pessoas. O tanque onde se salvaram 12 habitantes da aldeia é agora paragem obrigatória para quem chega, os habitantes (re)começam, aos poucos, o que resta da vida. E hoje há muita gente a correr por ali: voluntários de toda a parte juntam-se para ajudar a limpar os quintais, para retirar escombros, para plantar.

Nas ruas estreitas acumulam-se carros, um terreno baldio foi transformado em parque de estacionamento, e um grupo já organizado está ali para - finalmente - se conhecer pessoalmente entre si. "Hoje decidimos que era o dia de ajudarmos um casal aqui da aldeia que tem sido incansável a ajudar toda a gente aqui, e a fazer ponte com as outras aldeias e até concelhos vizinhos. A Dina e o João", conta ao DN Joel Silva, que a partir de Pombal mobilizou um grupo de amigos que não para de crescer e de ajudar a reconstruir a vida das aldeias. Vieram de Aveiro, de Coimbra, de Lisboa, até de Espanha.

Mas o dia é mais especial do que isso, do que replantar o jardim de Dina Duarte e João Carvalho, que todo conhecem como o artista plástico João Viola. No sábado, o grupo pôde finalmente conhecer a casa que vai ajudar a reconstruir, por indicação da Câmara de Pedrógão Grande. Fica na vizinha aldeia de Figueira e ficou quase totalmente destruída. Ali moravam cinco pessoas, na vivenda Belita, pertença da costureira Ana Bela, o marido, os dois filhos e a mãe, já idosa. Ainda lá está o Ford Fiesta completamente queimado, bem como as duas máquinas de costura que ajudavam no sustento da família, para completar o salário da funcionária da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão.

Neste sábado, enquanto a família continua provisoriamente alojada em casa de familiares, em Maçãs de D. Maria (Alvaiázere), os escombros recebem várias visitas. A primeira foi de Ulisses Simões, empresário disposto a ceder os materiais de construção necessários. "Tenho duas empresas, ligadas ao betão e esferovite, e vou facultar o que puder para ajudar aqui", garante, ele que foi alertado para a necessidade pelo gabinete que trata da contabilidade das empresas. Na verdade, essa é a história deste grupo, onde há técnicos de tudo e mais alguma coisa, onde o passa-palavra se foi transformando num banco de com- petências. A acompanhar a visita está a espanhola Concha García, 27 anos, arquiteta, que aguarda a qualquer instante a chegada do também arquiteto Pedro Santos, que a 30 de junho recebeu a menção honrosa do Prémio Nacional de Arquitetura em madeira. Os dois trabalham juntos e vão assinar o projeto da casa de Ana Bela, na Figueira. "Vamos ter em conta o meio onde se insere, e por isso a ideia é torná-la mais funcional, utilizando materiais daqui", revelou ao DN Pedro Santos, 42 anos, que quando se voluntariou para ajudar - no dia a seguir ao incêndio - pensava apenas em "fazer o que fosse preciso".

O tempo mostrou que seria preciso desenhar a reconstrução daquela casa, em parceria com a madrilena Concha, que há um ano ajudou na reconstrução de casas após a derrocada na República Dominicana. "Está a ser uma experiência muito intensa", revelou. Chegou a Portugal em março e estava de férias em Madrid quando a TVE lhe mostrou imagens de um violento incêndio em Portugal. "Nunca tinha ouvido falar destas terras, e fui ver ao Google. Foi quando percebi que estavam a 50 km da terra onde estou a morar."

Enquanto Concha García e Joel Silva acompanham as visitas de quem tem materiais para a reconstrução, o resto do grupo divide-se entre o jardim de Dina e João Viola e as restantes moradias da aldeia. Tânia Dias trouxe 40 árvores de alecrim enviadas pela Junta de Freguesia de Benfica, desde Lisboa, para replantar a aldeia. "Há duas semanas trouxemos 70 pés de outras árvores. Acho que assim, aos poucos, vamos conseguindo voltar ao verde." Ao lado, a amiga Célia Catarino vai removendo pequenos ramos e troncos queimados. Também veio de Lisboa para ajudar. Mas ali, naquele jardim, há Portugal e tudo à volta.

Mita Carolino junta à experiência de 20 anos nos Bombeiros Voluntários de Pombal a de retaguarda no quartel, e agora a colaboração na Cruz Vermelha Portuguesa. Hoje, enquanto coloca as luvas para remover árvores queimadas dos jardins, vai mantendo contacto com o grupo de emigrantes que viaja do Luxemburgo até Figueiró dos Vinhos, para entregar material aos bombeiros. Desde o dia 17 de junho que a vida de Mita depois das 17.00 se faz em modo solidário. Primeiro foi a recolha das doações, depois foi a articulação com as populações, no terreno. Casada com o atual comandante da corporação, Paulo Albano, Mita Carolino sabe bem a importância de estar na retaguarda. Desde então, pelo menos duas vezes por semana, percorre os 50 km que separam a sua cidade daquele nó do IC8 e desdobra-se entre ajudas.

O mesmo acontece com a maioria dos que ali estão, e que hão de terminar este dia cansados mas felizes, numa carrinha de caixa aberta, a caminho da única taberna na aldeia de Figueira. Antes disso, o grupo fez um almoço partilhado e chamou os vizinhos. "Uma pessoa vem sempre de coração cheio."

Dentro das casas há ainda quem não consiga encarar o sol abrasador de julho, um mês depois da tragédia. Como o pai da pequena Bianca, a menina de 3 anos que morreu, ao lado da avó, naquela estrada do Nodeirinho. A mãe continua internada na unidade de queimados de Coimbra, depois de sujeita a diversas operações e enxertos de pele. Como ela, quase duas centenas de habitantes daqueles três concelhos.

Fundo REVITA gere dinheiro

Enquanto os organismos públicos não distribuem os cerca de 13 milhões angariados, a sociedade civil organiza-se cada vez mais e melhor para dar resposta às pequenas reparações, à reconstrução. Na última semana o governo garantiu que até ao final deste mês o dinheiro chegará aos necessitados, tal como sublinhou no sábado o ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, em declarações à imprensa. A criação do fundo de apoio à revitalização das áreas afetadas pelos incêndios ocorridos no mês de junho de 2017 nos concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, designado REVITA, está disponível no site www.fundorevita.pt. Um decreto-lei de dia 7 deste mês determina que a gestão do fundo fique a cargo de um Conselho de Gestão constituído por um representante do Instituto da Segurança Social, um representante das câmaras municipais e um representante das instituições particulares de solidariedade social e associações humanitárias de bombeiros.

Relacionadas

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Portugal
Pub
Pub