Jovens de bairros críticos recebem formação contra violência policial

O SIS assinalou o apoio do "Coletivo Habita", uma associação que defende o direito constitucional à habitação "para todos", aos moradores do bairro 6 de maio que viram as suas casas demolidas

Este mês, um conhecido ativista norte-americano, esteve na Cova da Moura e falou de como se resiste à violência policial

Está a crescer um movimento de resistência pacífica e informada, ainda discreto, em alguns bairros da periferia de Lisboa, com maioria da população de ascendência africana. O centro é no histórico bairro da Cova da Moura e o objetivo é proporcionar aos residentes formação - em legislação, por exemplo - para poderem contrariar atos de discriminação, violência policial e outras situações que considerem ilegais contra os negros.
As secretas estão atentas e em dois recentes relatórios, datados de 10 e 11 de fevereiro, descrevem exaustivamente a situação, tendo como ponto de partida o despejo do bairro 6 de maio e o segundo aniversário do caso de violência da PSP sobre jovens negros, na esquadra de Alfragide, a cinco de fevereiro de 2015

As análises, feitas pelo departamento de contra subversão, que avalia focos de tensão social e o seu impacto na segurança, relacionam a mediatização das operações policiais nestes bairros com o sentimento de revolta, discriminação e estigmatização dos seus habitantes, a maioria negros. É salientado o crescimento de uma população jovem, com mais estudos, sem ligações à criminalidade, apoiadas por algumas associações cívicas, que querem ajudar os bairros a contrariar aquilo que consideram ser a impunidade e o racismo enraizados na sociedade portuguesa.

O SIS assinala que não há motivações de violência nestas iniciativas, mas uma resistência pacífica e informada, uma informação que pode ter a intenção de avisar as forças de segurança para reverem o modus operandi naquelas áreas.

Uma das ações analisadas pelas secretas foi a presença na Cova da Moura, na Associação Moinho da Juventude, de um histórico ativista dos "Panteras Negras" americanos, Bob Brown. O encontro foi promovido pela "Plataforma Gueto" - que o DN tentou, sem sucesso, contactar - no âmbito da chamada "Universidade da Plataforma Gueto", que teve no passado dia 11 a sua sexta edição. O objetivo, que está praticamente transcrito no relatório do SIS, está publicado na página da internet da associação: "desenvolver um programa de formação política, baseado na ideia de educação popular, com o objetivo de formar uma base de entendimento para a emancipação de negros e negras". Por essa razão, acrescenta-se, "promove desde de 2013, as universidades, para discutir ideias e realidades com o intuito de cultivar saberes importantes para a transformação da nossa condição no mundo. Um espaço livre de moderação eurocêntrica e paternalista que caracteriza outros espaços. Esta universidade, a qual denominamos de "A Guerra KONTRA KWAME TURE", tem como orador principal Bob Brown".

Este ativista é um dos líderes do "black power" e durante os últimos 50 anos tem apoiado "centenas de movimentos, organizações e governos progressistas de todos os cantos de África, suas diásporas e do mundo". O "programa de formação" incluiu um módulo sobre "a guerra contra Kwame Turé (ou Stokely Carmichael), um dirigente juvenil dos Panteras Negras, falecido em 1998, que defendia a não-violência na luta contra o racismo e pela igualdade de direitos, numa linha ideológica semelhante à de Martin Luther King.
Falou-se das "Pantera Negras", e da "Contribuição de Amílcar Cabral e do PAIGC para a revolução africana". Cabral e o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) fazem parte das origens históricas da maioria da população da Cova da Moura. O debate seguiu-se sobre a "Carta de Resignação de Aimé Cesaire ao Partido Comunista Francês", de 1956. Há um "hábito" enraizado nas sociedades, avisou Cesaire, poeta e ensaísta da negritude, "o de fazer para nós, o de dispor de nós, de nos negar o direito à iniciativa, de nos negar o direito à personalidade", escreveu, apelando aos negros a lutarem pela "dignidade e liberdade".

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