Há 14 homens por dia que se queixam de violência doméstica

Desde 2014, a PSP registou 7144 agressões a homens pelas mulheres. Há de tudo: da que esfaqueou o marido na rua até à que partiu à martelada os copos que ele adorava

Há duas semanas, uma mulher inconformada com o fim do casamento combinou um encontro com o ex-marido, na zona de Belém, e esfaqueou-o nos braços e nas mãos com uma faca de cozinha. Já havia queixas anteriores do homem por ataques e perseguição contra a ex-mulher. Esta foi uma das mais de duas mil situações de violência doméstica contra homens denunciadas à Polícia de Segurança Pública (PSP) já neste ano, uma média diária de 14 agressões, físicas ou psicológicas.

Em 2014, no total, foram registadas pela PSP 5136 ocorrências, em que são os maridos ou companheiros os alvos, enquanto o Relatório Anual de Segurança Interna apontava para cerca de seis mil. Destes atos criminosos, três resultaram na morte da vítima e 29 em ferimentos graves, segundo os dados oficiais da PSP facultados ao DN. No primeiro semestre deste ano, chegaram à PSP 2008 participações de violência doméstica exercida por mulheres (os dados sobre violência nos casais homossexuais é tratada à parte pelas polícias). No total, em ano e meio, a PSP recebeu 7144 denúncias por este crime com vítimas masculinas. Ainda assim, no primeiro semestre deste ano registaram-se menos 55 ocorrências do que no período homólogo de 2014 (2063 casos).

Segundo a PSP, "na esmagadora maioria das vezes a violência é praticada sem recurso a qualquer tipo de arma". Em 2014 (de janeiro a dezembro) a polícia verificou 13 situações em que foi utilizada uma arma branca e em 2015 houve também uma com faca (o caso contado no início).

Veneno e copos partidos

A experiência que a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) tem é que "são muito raros os casos de violência física das mulheres contra os homens, sendo muito mais frequente a violência psicológica", como refere Daniel Cotrim, membro da direção da APAV. "Por vezes, são casos que se arrastam durante anos, alguns com a ameaça do veneno, como o da mulher que dizia sempre ao jantar que aquela podia ser a última sopa que o marido comia."

Um homem apoiado pela APAV acabou por ser hospitalizado por golpes causados por... vidros partidos. Ele dedicava as manhãs de sábado a limpar os copos de cristal fino da Boémia que oferecera à mulher no início do casamento, prenda que ela sempre detestou. Irritada, disse-lhe uma vez: "Gostas tanto dos copos que um dia ainda vais para a cama com eles." E o marido assim fez: um dia pegou nos copos e levou-os para a cama, para os limpar e contemplar. A mulher pegou num martelo e partiu os copos em mil caquinhos, alguns dos quais ainda se infiltraram nas costas do marido.

Neste ano ainda não há dados consolidados sobre a violência doméstica contra homens, referiu a PSP. Mas se a comparação for feita entre os primeiros semestres de 2014 e 2015, nota-se um ligeiro decréscimo no crime praticado por mulheres neste ano, como referiu a direção nacional da polícia nos dados enviados ao DN. No primeiro semestre deste ano, a PSP registou menos 55 ocorrências do que no período homólogo de 2014 (2063 casos).

Vergonha em denunciar

Daniel Cotrim receia que "não existirão ainda mais queixas de homens por vergonha e preconceito social". "Assim como há cifras negras na violência contra as mulheres, deverá existir uma cifra negra muito grande de homens vítimas que não apresentam queixa."

A tendência nos últimos cinco anos tem sido a do ligeiro aumento das participações contra mulheres por violência doméstica. Ainda assim, estes casos continuam em franca minoria quando se compara com o vasto universo de mulheres vítimas de violência doméstica.

O Relatório Anual de Segurança Interna de 2014 registou 6196 vítimas do sexo masculino (19,2% dos casos) por violência doméstica quando as vítimas do sexo feminino foram 25 931 (80,8% dos casos). O psicólogo da APAV realça as diferenças entre os dois tipos de violência: "O homem quando agride é porque está motivado em função do género: é normal agredir. A mulher quando agride o companheiro não o faz em contexto de violência de género mas por estar frustrada por ele ser mais fraco do que desejaria ou não ser o suporte nem garantir o sustento." A violência exercida pelas mulheres "é transversal a todas as classes sociais".

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