Episódio 15. PR e PM fazem Declaração de Cacela

Em Cacela Velha, Marcelo e Costa assumem que vão dar a mão à ONU. Não abandonariam o secretário-geral António Guterres que, no dia anterior, tinha ido negociar com as tropas de ocupação de Trump. A ONU e Guterres não seriam refugiados: tinham Lisboa!

Cacela Velha, 14 de agosto, 09.30. Já tinham estado em Tavira, no habitual encontro de quinta-feira entre PR e PM. Marcelo e Costa julgavam repeti-lo só oito dias depois, mas a extraordinária noite de domingo obrigou-os a antecipar. Na segunda-feira, António Costa embarcara em Lisboa, no EH-101, helicóptero da FAP. O trajeto de Marcelo, em férias na Quinta do Lago, foi mais curto. O novo encontro foi na fortaleza de Cacela, sobre a ria Formosa.

Ao saber do ataque à sede da ONU, Marcelo telefonou a Costa: "As nossas informações sempre se confirmaram..." Pouco depois, quando Emmanuel Macron fez o apelo por Lisboa, Marcelo voltou a telefonar, queria regressar a Lisboa, para uma tomada de posição oficial conjunta. O primeiro-ministro dissuadiu-o, seria ele a ir ao Algarve. E foi então que Marcelo propôs que se encontrassem na fortaleza de Cacela Velha.

Semanas antes, tinham recebido as informais mensagens francesas, e o embaixador português Moraes Cabral falou logo com Alexis Kohler. O secretário-geral do Eliseu não desmentiu nada: talvez Trump fosse capaz de fazer o que se suspeitava; e, nesse caso, talvez Paris adiantasse a sua posição, que era ser Lisboa a candidata para a nova sede da ONU. Num ponto Kohler foi categórico: nada se faria se Portugal lhes fizesse saber que se opunha. Na visita de António Costa a Paris, 15 dias depois, foi o presidente francês a sondar a disponibilidade lusa. Costa disse: "Portugal está pronto para as suas responsabilidades."

Macron foi menos formal: "Vou fazer-lhe uma confidência, nomeei, o que ainda não é público, um novo embaixador na UE. E a prioridade é defender esta nossa causa comum." O novo embaixador Philippe Léglise-Costa era descendente de portugueses e o seu pai, Pierre Léglise-Costa, historiador e tradutor, era dos mais notáveis divulgadores da cultura portuguesa em França. Macron até brincara com António Costa: "Há uma legião de Costa à minha volta. O chefe de gabinete de Brigitte chama-se Pierre-Olivier Costa. É da sua família?"

Foi assim que se chegou, navegando ainda uma hipótese, à situação de facto. Na véspera, a sede da ONU fora expulsa de Nova Iorque e Lisboa fora desafiada a recebê-la. Lá estavam os dois, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, na vila com a igreja que já foi mesquita, a fortaleza que já foi alcáçova e a cisterna que já estava vazia. Ao fundo, a ria verde e o mar azul - nem a água se impunha única. Provavelmente, o lugar mais indicado para o assunto que ali os trazia. Outros eram mais poderosos e outros mais ricos, mas Sophia completara: "Porém Cacela/ foi desejada só pela beleza". Não seria essa outra qualquer coisa, complacência, pegar de cernelha, navegar sem garantir voltar, que fez outros verem em Portugal um porto de abrigo?

"Já falou com o António Guterres?", foi assim que Marcelo cumprimentou António Costa. "Já, e sei que falou com ele", foi a resposta. Nenhum o disse, mas ambos recordaram uma terrível cena do dia anterior. Um helicóptero da FOX seguia um automóvel negro que vinha de Sutton, o bairro residencial nova-iorquino onde morava o secretário-geral da ONU, poucos quarteirões acima do Palácio de Vidro.

As imagens mostraram o carro a parar à entrada do edifício do Secretariado-Geral, mas os portões estavam fechados. O carro subiu lentamente pela United Nations Plaza e voltou a parar nos portões da Assembleia Geral da ONU, também fechados. A sede das Nações Unidas estava ocupada. Tropas da Guarda Nacional tinham contido os jornalistas no passeio fronteiro, onde desembocavam as ruas 44 e 45. Um homem saiu do carro, avançou para o portão com grades; do outro lado, um oficial da Guarda Nacional, pernas abertas, impávido. O homem fez com ambas as mãos viradas para o solo um sinal de calma, como talvez tenha feito, um dia, a um senhor da guerra no Sudão. Um minuto sem diálogo. Depois o homem voltou ao carro, ombros caídos. António Guterres regressava a casa.

Dias antes, em Tavira, o PR e o PM tinham falado vagamente daquela hipótese aventada pelos franceses. Marcelo perguntara se avançava a preparação "para aquela coisa" - mas estava cético e pouco interessado em pormenores. Mas no encontro em Cacela Velha, o facto, já consumado, exigia-lhes respostas. Havia condições para a sede vir? O otimista não foi apanhado descalço: "Claro que sim, recuperámos a proposta que tínhamos para a candidatura de Lisboa à Agência Europeia de Medicamentos", disse António Costa.

Então, o PR anunciou aos jornalistas que Lisboa acolheria o mundo como era a sua tradição. Quanto ao PM, disse que não faltaria nada: "Até já estão erguidos os mastros para as bandeiras de todos os países membros da ONU!"

Ao lado duma ameia da fortaleza de Cacela, com a ria e o mar ao fundo, os dois fizeram uma selfie, cada um com o seu boné azul da ONU.

Continua amanhã. Acompanhe aqui os episódios do Folhetim de Verão

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