Episódio 14. O galo de Barcelos e o le coq français

Trump cumpriu: "Make America Great Again!" E a América ficou maior... sete hectares! A sede da ONU em Nova Iorque foi ocupada. Para onde iam, agora, as Nações Unidas? Segundo o presidente Emmanuel Macron, havia só uma solução: para Lisboa, e em força!

Bedminster, 13 de agosto, 16.45. Donald Trump continuava fechado no gabinete. Minutos antes das quatro da tarde, entrara a fotógrafa oficial Shealah Craighead, com o banquinho que nunca largava. Trump gostava de ser fotografado de cima, adelgaçava-o. Duas poses, a tuítar e a olhar para a televisão ladeado (só para moldura) de três membros do seu governo. A segunda das fotos seria histórica.

Afinal, Frankin D. Roosevelt, em Ialta, partilhara o mundo com outros dois líderes, Estaline e Churchill. E Barack Obama, no seu grande momento, só estava a olhar para a morte dum bandido, Bin Laden. Mas, naquela tarde, Donald John Trump estava a defrontar sozinho o mundo inteiro, os outros 192 países da ONU! Para a eternidade, o commander-in-chief, de jacket e boné militar, a seguir a Operação Palácio dos Telhados de Vidro.

Era altura do @realDonaldTrump enviar o seu segundo tweet: "Make America Great Again! O nosso país já é maior sete hectares!" E, de rajada, o terceiro tweet: "Território americano ocupado por potências estrangeiras devolvido à GRANDE NAÇÃO! Estou orgulhoso dos nossos HERÓIS da Guarda Nacional!" O primeiro tweet, "Extraterritorialidade, o tanas!", chegou a pensar-se que fosse falso. Não tanto pela estranheza da frase mas porque a difícil palavra não tinha erros. "Foi Trump que escreveu isto? Hmm...", disseram alguns. Mas os seguintes tweets confirmaram que o autor era mesmo ele.

As suas frases mal enjorcadas levavam ao engano. Trump preparava os seus atos com minúcia. Para ele, o caso da ONU resumia-se a um grande negócio financeiro, como herdeiro que presumia ser daqueles terrenos. A palavra extraterritorialidade significava que a sede em Nova Iorque não era território dos EUA, condição igual à das embaixadas estrangeiras em solo americano. Retirando-lhe essa condição, por alegada ausência de um legítimo título de propriedade, qualquer tribunal comum devolver-lhe-ia os terrenos do pai. Mas não lhe convinha revelar já o seu interesse pessoal...

Precisando do apoio do Congresso para mobilizar a Guarda Nacional, ele soube explicar bem a palavra aos líderes republicanos. Isto é, transformou-a num negócio político. Se apoiassem a ocupação, ele prometia não insistir em acabar com o Obamacare, teimosia que estava a prejudicar o Partido Republicano na opinião pública. Os congressistas republicanos aceitaram a proposta, até porque a ONU não era apreciada nas bases conservadoras, convencidas de que ela era sustentada pelos contribuintes americanos. Ao que parecia, haviam decidido bem: só por dinamitarem a famosa escultura pacifista, o Colt com um nó no cano, houve uma explosão de alegria na NRA, National Rifle Association, que se reclamava de 14 milhões de adeptos do uso de armas sem controlo.

No resto do mundo, as críticas foram unânimes. Muito embora, o que o mundo estava era pasmado! Além da retórica anti-ianque aqui e ali, na verdade era um bocado esquisito querer obrigar um país a hospedar uma instituição internacional... Até porque o costume era o contrário, muitos a candidatar-se e poucos os escolhidos. Como a invasão não tinha causado vítimas (além do infeliz Colt) e como nada indicava que os Estados Unidos fossem sair da ONU, com o consequente fim das suas generosas cotizações (22% do total), as reações internacionais foram comedidas. Um comentador da FOX, Sean Hannity, já dissera: "Porque não expulsar a ONU? Afinal, se quisermos devolver a Estátua da Liberdade aos franceses, não sei porque haviam eles de levar a mal..."

Justamente, de França veio uma solução. Emmanuel Macron convocou os jornalistas, era o primeiro chefe de Estado a reagir aos acontecimentos ribeirinhos do East River. O presidente estava de pé, enquadrado pela bandeira francesa e a da União Europeia, encostado a uma escrivaninha, em cujo tampo as mãos se agarravam - a mesma posição da sua recente foto oficial. Mais importante, estava um livro aberto à sua direita. Era Le Rouge et Le Noir, de Stendhal, e era um sinal. Não era nenhuma das novelas de Balzac, com o arrivista Rastignac a proclamar: "À nous deux, Paris!" Essa pequena ambição, desafiar Paris, já Macron acabara de ganhar nas semanas anteriores. O patamar agora tinha mais latitude e longitude. Era digno do herói de Stendhal, Julien Sorel, o da ambição desmedida.

Foi a falar para o mundo que Emmanuel Macron se virou: "Os últimos acontecimentos dizem-nos que as Nações Unidas não são só uma organização, mas um destino. Outros dizem que ela não tem direito a uma morada, eu digo-vos que as Nações Unidas têm uma casa. Vou bater-me para que a ONU vá para onde ela começou a ser construída. A França, e vou bater-me para que a Europa também, tem uma causa: a sede das Nações Unidas irá para Lisboa, nas margens do Tejo."

Era uma solução, num mundo carente delas...

Continua amanhã. Acompanhe aqui os episódios do Folhetim de Verão

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