Episódio 13. O Colt com nó no cano já era!

Na invasão da ONU, a única vítima foi a escultura de um Colt à porta do Palácio de Vidro. "Era um símbolo pacifista, tinha o cano amarrado com um nó, alguém pensou ser um atentado à Segunda Emenda, a que dá direito aos americanos de andarem armados"

Lisboa, 13 de agosto, 21.01. Locutores pasmados debitavam notícias que iam caindo nos seus computadores e auriculares. "O Palácio de Vidro foi invadido..." "Ouviu-se uma explosão..." "Não se sabe do paradeiro do secretário-geral António Guterres..." "Há vários reféns nas mãos dos terroristas..." Nem tudo o que foi dito era verdade.

Quando se fizer o balanço daqueles minutos tão confusos, talvez se conclua que foi numa televisão portuguesa, a RTP3, que se forneceu a primeira chave para explicar a balbúrdia generalizada. Às 21.07, um convidado para debater a atualidade banal daquele domingo - que, afinal, iria incendiar-se - lançou a hipótese de uma relação entre os dois factos do dia. Entre o tweet de Donald Trump e o assalto aos edifícios da ONU, em território não americano mas cercado por todos os lados pela América. "A palavra extraterritorialidade é comum nos dois casos, isto não lhe diz nada?", lançou o embaixador Pedro Leite de Noronha à jornalista Ana Lourenço.

Leite de Noronha aceitara o convite para comentar, no 360º, da RTP3. O dia fora morno, mas ele tinha um lema: se é para falar, vou sempre. O programa abria com as notícias do dia - os previsíveis incêndios e o caos na Venezuela... -, vinte minutos de informação variada e só depois o convidado falava. O embaixador já se encontrava sentado ao lado de Ana Lourenço quando um sms o alertou para um tweet de Donald Trump. Ela abria o noticiário e, de facto, começou-se com o SIRESP... Mas tudo se precipitou. A pivô, inquieta, levou a mão à orelha. "Chega-nos a notícia de um ataque à sede das Nações Unidas em Nova Iorque..."

E Ana Lourenço, sem mesmo o apresentar, fez do convidado comparsa de uma aventura. Chegavam imagens da FOX. A estação, com amigos na Casa Branca, tinha helicópteros no ar e carros de exterior estacionados na United Nations Plaza. E foi a FOX a anunciar que o ataque não era terrorista mas - ainda mais surpreendente - um assalto da Guarda Nacional! Leite de Noronha fez uma precisão: aquela Guarda Nacional era federal e não estadual. "E isso é importante?", perguntou Ana Lourenço. "Quer dizer que a decisão veio da Casa Branca", disse o convidado, que acrescentou: "E há uma coisa ainda mais estranha..."

A pivô implorava uma pista, um sentido à eternidade que estavam vivendo e já durava há dois minutos... Até então, apesar da enorme surpresa, era um cerco feito por autoridades, com progressão ordeira de forças militares. Mas a FOX anunciou uma explosão na entrada que dava para a Rua 46! Já um repórter entrevistava um oficial da National Guard of the USA. O capitão Landers (nome estampado no bolso do camuflado) disse que estava a "repelir uma invasão" - os olhos de Ana Lourenço esbugalharam-se - e por isso ele mandara dinamitara "um ataque público à Constituição Americana." O oficial apontou para um pedestal atrás de si, meio destruído, sujo por pó, pedras e pedaços de bronze com verdete.

"O que estava ali era a famosa escultura de um revólver Colt 375", disse o embaixador. "O que tem isso contra a Constituição Americana?", admirou-se a jornalista. "Bem, o Colt era um símbolo pacifista, tinha o cano amarrado com um nó, pode ser que alguém entenda que era um atentado à Segunda Emenda, aquela que dá o direito ao povo americano de andar armado."

Leite de Noronha decidiu desarmar o espanto em que o mundo vivia: "Lembra-se do segundo avião que embateu na segunda Torre Gémea, em setembro de 2001? Ele acabou com uma dúvida: o primeiro não foi um acaso... É que nunca há dois acasos seguidos tão formidáveis." O convidado da RTP3 mostrou o último tweet de Trump: "Recebi-o quando me sentava nesta cadeira." E leu, traduzindo: "Extraterritorialidade, o tanas!"

A uma tão esquisita mensagem presidencial seguira-se aquilo que se via nas imagens: o território da ONU a ser invadido por tropas americanas. Foi então, eram 21.07, hora de Lisboa, que Pedro Leite de Noronha disse: "A palavra extraterritorialidade é comum nos dois casos, isto não lhe diz nada?" Ele sugeria que o Trump do tweet anunciava o ataque à ONU.

Leite de Noronha quebrou o breve silêncio que caiu no estúdio: "Há pouco, numa imagem breve, vimos o jardim dos donativos à ONU. Há lá um elefante..." E ele falou do elefante em bronze, oferecido por Quénia, Namíbia e Nepal, que tinha uma certa parte do corpo tão desproporcionada que lhe puseram uma sebe à volta para a esconder. "Receio que uma América pudibunda reserve ao elefante o mesmo destino que deu ao Colt antiviolência."

Então, ele falou para a pivô mas olhando a câmara: "A Ana sabe que a Karen Blixen, a do África Minha, dizia que os elefantes caminham como se tivessem um rendez-vous no fim do mundo?" E o embaixador disse, enigmático: "Se calhar aquele elefante tem um encontro com Lisboa..."

Continua amanhã. Acompanhe aqui os episódios do Folhetim de Verão

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