Blogger do NY Times acusado de manipular dívida portuguesa

Peter Boone

Depois da queixa da CMVM, DIAP acusa Peter Boone de manipulação de mercado, obtendo lucros de quase um milhão de euros

Os factos remontam a 2010. Na sequência do primeiro pedido de assistência financeira pela Grécia, de 30 mil milhões, em abril, é publicado um artigo no The New York Times - "The next global problem: Portugal" - assinado por Peter Boone e Simon Johnson, que apontavam Portugal como o próximo país a cair em falência financeira. No dia da publicação do artigo - no blogue Economix.com do The New York Times - os juros da dívida pública portuguesa situavam-se em 4,4%. Na semana seguinte subiram para 5%. O que acabou por ser suficiente para que a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ficasse atenta e acabasse por fazer queixa ao Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa por suspeita de manipulação do mercado. Cinco anos volvidos, Peter Boone - consultor de vários governos britânicos, doutorado em Harvard, gestor da Salute Capital Managment (empresa de gestão de ativos) e presidente da Effective (organização de caridade britânica) - é acusado pela justiça de manipular a dívida pública portuguesa e de arrecadar benefícios em proveito próprio de 819 mil euros. Não só através do artigo referido mas de outros publicados no seu outro blogue, Baseline Scenario. Frases como "o próximo radar é Portugal. Saiu do foco apenas porque a Grécia se afundou. Ambos estão economicamente à beira da bancarrota", escritas por Boone, alertaram a CMVM.

O arguido era à data administrador de uma sociedade que prestava serviços de consultadoria de investimento, a Salute, um hedge fund (fundo de investimento especulativo), a Moore Capital Managment, com sede em Nova Iorque. O crime de manipulação de mercado é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa. A investigação, liderada pelo departamento da procuradora-geral adjunta Maria José Morgado e com a ajuda técnica da CMVM, contou com a prova testemunhal de Teixeira dos Santos, à data ministro das Finanças português. E ainda da Securities & Exchange Comission (SEC), o supervisor da Bolsa norte-americana.

O DN sabe que o Ministério Público considerou que Peter Boone, residente em Londres, tinha interesse na desvalorização das obrigações do Tesouro portuguesas porque permitiria a Moore obter mais--valias e, por essa via, receber uma comissão mais elevada da Salute. Considerou igualmente que o artigo de Peter Boone poderia influenciar as decisões de investimento e de desinvestimento em dívida soberana nacional. Cenário agravado porque na altura os mercados de dívida viviam períodos de desconfiança e receio de contágio da crise grega aos países periféricos da zona euro. Segundo a nota enviada pela Procuradoria -Geral distrital de Lisboa, "os artigos de opinião tiveram impacto nas yields da dívida pública portuguesa e influenciaram os investidores, até porque o arguido era um académico prestigiado, doutorado em Economia pela Universidade de Harvard e os artigos foram publicados em contexto de grande instabilidade financeira, de receio de contágio com a dívida grega, estando os mercados em situação de elevada suscetibilidade". Foi considerado como agravante o facto de o arguido nunca ter mencionado nos artigos editados os seus interesses negociais, o que teria "reduzido a credibilidade da opinião divulgada".

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